Capítulo 52

A primeira incisão e a ponta final da lâmina se encontraram.

Os padrões místicos e os caracteres antigos gravados no tornozelo de Anna brilharam intensamente por um breve instante, como se estivessem em chamas. Em seguida, absorveram o sangue espalhado por sua pele e desapareceram sem deixar vestígios.

Anna arfava de dor, lutando para recuperar o fôlego. Suas bochechas estavam molhadas pelas lágrimas que derramara sem perceber. O rosto de Rothbart também se contorceu, como se ele próprio sofresse ao vê-la naquele estado. Com cuidado, afastou os fios de cabelo grudados em sua face e sussurrou:

— Eu também não queria fazer isso… Mas não posso confiar em você. Não tive escolha. A culpa é toda sua. Sua, por ter abandonado a mim e a Svan…

Então Rothbart se inclinou sobre Anna, que ainda se contorcia em agonia. Ele engoliu sua dor e a substituiu por um prazer cortante e cruel. A parte inferior de seu corpo, úmida apesar da resistência, ainda assim recebeu Rothbart quando ele a penetrou.

— Ah… ngh…!

Era por causa da febre provocada pela ferida?

Ou pelo calor do desejo?

Enquanto era tomada por ele, arfando e estremecendo, Anna sentiu sua consciência vacilar.

Por que não conseguira se lembrar de nada?

Se ao menos não os tivesse esquecido.

Não.

Desde o princípio, fora ela quem cortara aquele vínculo com as próprias mãos. Não importava de que maneira. Nunca existira uma oportunidade real de desfazer aquilo.

Tudo isso era a sua punição.

Arrependimento e autodesprezo a engoliram por completo. Contendo os gemidos que insistiam em escapar, Anna mordeu os lábios com força. O vermelho de sua boca se tingiu de sangue, como o suco que escorre de uma fruta esmagada.

Rothbart passou lentamente o polegar sobre a ferida aberta em seus lábios. O sangue se espalhou por sua boca e manchou também seus dedos. Então ele levou o polegar aos lábios e provou o sangue dela, fitando-a intensamente.

— Quer morrer? Você parece querer.

— …Não é isso.

— É tão humilhante assim cair nas minhas mãos? Passar o resto da vida presa por magia, sob minha vigilância, é tão insuportável?

Sem sequer ouvir sua resposta, Rothbart rebateu de imediato. Como um homem incapaz de escutar qualquer coisa além da própria voz, continuou despejando apenas aquilo que desejava dizer.

Não importava se as palavras de Anna eram doces ou afiadas.

Todas o feriam.

Para Rothbart, amar era uma forma de autodestruição.

Se soubesse que o amor seria assim, jamais teria olhado para Anna.

Mas o Rothbart de sua juventude era imaturo.

Mesmo tendo crescido observando um pai que amava daquela maneira, acreditava firmemente que jamais acabaria igual a ele.

Ainda assim, mesmo percebendo que estava se perdendo, não conseguia abrir mão do amor.

Não conseguia abrir mão de Anna.

E assim, lançou-se voluntariamente ao abismo da própria ruína.

— Se consegue morrer, então morra. Pelo menos o seu cadáver permanecerá ao meu lado.

Rothbart sorriu.

Era um sorriso sereno, quase iluminado, como o de alguém que finalmente encontrara uma resposta após anos de tormento.

Mas, em contraste com aquela suavidade, seus movimentos eram ásperos e impiedosos.

— Em vez de deixar você pertencer a outra pessoa, em algum lugar que eu desconheça, prefiro manter até mesmo o seu cadáver ao meu lado pelo resto da vida. Nunca me arrependerei disso.

— Ah…!

— Então desista. Você jamais deixará esta mansão pelo resto da sua vida…

Era o castigo que ela precisava suportar.

A confissão solene de Rothbart soava como uma sentença de morte.

E, se era isso que ele desejava, Anna não recusaria.

Na verdade, mesmo que Rothbart e Svanhild a rejeitassem, ela já havia decidido morrer ao lado deles.

Agora que recuperara as lembranças do passado, aquela era a única forma de expiação que podia oferecer.

Esta mansão.

Os braços dele.

Seriam seu túmulo.

Enquanto seus gemidos se desfaziam em respirações irregulares, Anna fechou os olhos em silêncio.

A sentença havia sido pronunciada.

E a pecadora a aceitava por completo.

Quebra de página

Após a Noite da Lua Vermelha, muitas coisas mudaram no Túmulo do Cisne.

A única visitante da mansão, Lady Odile Brabant, partiu às pressas, como alguém fugindo durante a madrugada, conduzindo a carruagem branca da Casa Brabant para longe da propriedade.

Joseph também desapareceu sem deixar rastros.

Todos concordaram que ele havia abandonado a irmã mais nova, Anna, para perseguir honra e riqueza ao lado de Lady Brabant.

Mas os rumores sobre Joseph não duraram muito.

Naquela mesma manhã, Madame Dova e o mordomo Barrett anunciaram uma notícia chocante:

Anna se tornaria marquesa.

A mansão inteira mergulhou em alvoroço.

— Não é à toa que Anna não apareceu esta manhã.

— Ouvi dizer que ela está hospedada nos aposentos do Marquês.

O paradeiro de Joseph já não interessava a ninguém.

Nem o desaparecimento repentino da preceptora Rose.

Alguns comentaram o assunto, mas a maioria apenas concluiu que Rose não suportara a ideia de ver Anna tornar-se marquesa e fora embora.

Como Rothbart sempre tratara Anna de maneira especial, ninguém ficou realmente surpreso.

Era apenas o desfecho que todos esperavam.

Os criados passaram a correr de um lado para outro, preparando a mansão para o casamento.

Os preparativos avançaram rapidamente.

Sem convidados.

Sem celebrações grandiosas.

A cerimônia seria realizada discretamente em uma pequena capela próxima.

Em parte porque não era o primeiro casamento do Marquês.

Mas também porque, por algum motivo, Anna havia perdido a capacidade de caminhar.

— Ninguém sabe o motivo. Por fora ela parece perfeitamente saudável… No máximo consegue dar um ou dois passos mancando, mas vai depender de uma cadeira de rodas pelo resto da vida. Que tristeza…

Ao ouvirem o comentário escapado do médico responsável, todos suspiraram.

Betty franziu o cenho.

— Justo agora que ela finalmente virou marquesa… Mas se não consegue andar, nem poderá frequentar os eventos da sociedade, não é? Que pena.

— Bem, considerando que Anna veio do Continente Oriental, talvez seja melhor assim — respondeu Jo.

— Mas ainda assim! A alta sociedade, Jo! Se fosse eu, iria nem que fosse só para olhar. Afinal, o marido dela é o Marquês de Lohengrin.

— Não diga essas coisas na frente dela.

— Acha que sou idiota? E você também deveria parar de chamá-la de Anna. Agora ela é a Marquesa. Tem que chamá-la de Madame.

Enquanto Betty e Jo discutiam, Susan permaneceu em silêncio.

Todos diziam que Anna era extremamente sortuda.

Ou extremamente azarada.

Mas Susan não acreditava em nenhuma das duas coisas.

Parecia absurdo atribuir a vida de alguém a algo tão vago quanto sorte.

Talvez Anna apenas tivesse sido apanhada em uma armadilha.

Susan se lembrou do que vira na noite da Lua Vermelha.

Quando despertou brevemente ao amanhecer, a cama de Anna estava vazia.

Pensou que ela tivesse ido ao banheiro e voltou a dormir.

Mas, quando acordou novamente algum tempo depois, Anna ainda não havia retornado.

Preocupada, Susan saiu discretamente do quarto.

Foi então que ouviu o grito.

O grito carregado de sofrimento vinha dos aposentos do Marquês.

Por trás da dor, a voz de Anna podia ser ouvida.

A de Rothbart também.

Mas nenhuma das palavras era compreensível.

Assustada, Susan fugiu sem tentar descobrir mais.

Seu coração disparava enquanto subia correndo as escadas.

Desde então, fingira não saber de nada.

Mas não conseguia deixar de se preocupar.

No dia do casamento, coube a Susan arrumar os cabelos de Anna.

Os fios negros, brilhantes como seda, eram difíceis de prender, mas possuíam a elegância de pérolas negras.

Enquanto os trançava, observando Anna sentada na cadeira de rodas e vestida de branco, Susan perguntou em voz baixa:

— Você está bem?

Sua voz desapareceu tão rápido quanto uma brisa.

Encontrando seus olhos através do espelho, Anna sorriu suavemente e balançou a cabeça.

— Estou bem.

— Se você diz…

— Estou falando sério.

Anna sempre fora uma pessoa tranquila.

Gentil.

Composta.

Susan, desajeitada por natureza, sempre admirara esse lado dela.

Mas a Anna diante dela agora era diferente.

Havia uma tristeza incompatível com alguém prestes a ascender em posição social.

A garganta de Susan secou.

Mesmo assim, conseguiu dizer:

— Mas… se ficar difícil demais, me conte. Talvez eu esteja sendo intrometida, mas… você é minha amiga.

— Obrigada, Susan.

O casamento foi simples.

Alguns murmuraram que o tratamento era muito diferente daquele recebido pela primeira esposa, mas ninguém realmente falava por preocupação com Anna.

Sem poder caminhar, ela entrou na capela em sua cadeira de rodas, empurrada pelo próprio Rothbart.

Svanhild, herdeiro da família e filho mais velho, carregou as flores e recebeu sua madrasta.

E assim, Anna, a criada vinda do Continente Oriental, tornou-se a verdadeira Marquesa de Lohengrin.

O noivo, Rothbart, sorria como alguém profundamente satisfeito.

Quebra de página

O antigo quarto proibido da Marquesa tornou-se o quarto de Anna.

Na realidade, desde o casamento ela praticamente não conseguia sair dali.

Por isso, o aposento pouco diferia de uma prisão.

Sempre que Anna desejava sair, Rothbart precisava acompanhá-la.

O direito de empurrar sua cadeira de rodas pertencia exclusivamente a ele.

A maldição gravada em seu tornozelo fazia com que ela fosse incapaz de caminhar sem a permissão de Rothbart.

Pensando agora, ele já havia lhe dado esse aviso.

Dissera certa vez que, se ela o desafiasse, poderia garantir que jamais voltasse a andar.

Quando tentou caminhar sozinha, sentiu uma dor semelhante à de andar sobre um chão coberto de cacos de vidro.

No fim, não conseguiu dar mais que alguns passos antes de cair.

Era uma agonia semelhante àquela que se imagina que a Pequena Sereia sentiu ao dar seus primeiros passos com as pernas recém-conquistadas.

Ainda assim, mesmo quando estavam sozinhos, Rothbart não permitia que ela andasse.

Ou a carregava nos braços.

Ou empurrava sua cadeira de rodas.

Talvez o que ele realmente desejasse fosse fazê-la esquecer completamente como caminhar.

Era essa a suspeita silenciosa que habitava o coração de Anna.

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