Capítulo 51
Ela deliberadamente fingiu não notar aquela ferida.
Pensou que não havia necessidade de saber…
Mas deveria ter perguntado ao menos uma vez.
Deveria ter acariciado aquela mão e dito que devia ter doído.
Em vez disso, sentiu alívio ao ver uma criança fingindo estar bem e virou as costas para tudo aquilo.
O arrependimento tardio a abalou.
Um grito carregado de dor subiu por sua garganta, mas apenas o som rouco do ar escapando conseguiu sair.
Como se os gemidos atormentados de Anna fossem a mais doce das melodias, Rothbart sorriu com desdém e continuou:
— Aquela criança abriu a própria palma com uma adaga e sangrou até encharcar completamente o círculo de invocação. Foi tão lamentável de ver…
Seu sorriso se aprofundou.
— Bem, isso não importa para você, não é? Afinal, ele era um filho que você abandonou desde o começo.
Os olhos de Rothbart se curvaram.
Uma alegria doentia preenchia seu olhar vermelho.
Sua voz, quase cantarolada, dilacerava Anna indefesa.
— Você sente pena de Svan? Mesmo sem nunca ter se lembrado dele… nem de mim?
Ele deu um passo à frente.
— Enquanto nós ansiávamos por você e nos contorcíamos de dor, você sorria ao lado do seu suposto “amor”…
Sua voz tornou-se fria.
— Você precisa pagar por isso.
Pelas palavras de Rothbart, Anna compreendeu que a carta que havia deixado para trás jamais chegara até ele.
Embora a tivesse escondido cuidadosamente, não era impossível encontrá-la.
Isso significava que alguém a interceptara de propósito.
E ela tinha uma vaga ideia de quem.
O Duque Albert.
O homem que odiava o próprio filho e passara mais de vinte anos arrastando-o para a infelicidade.
Certamente fora ele.
Se isso significasse fazer Rothbart sofrer uma traição ainda maior, destruiria quantas cartas fossem necessárias.
Quando partiu, Anna acreditava que jamais retornaria.
Esperava até mesmo que o ódio dele permanecesse.
Assim, ao menos, continuaria vivendo em seu coração.
Mas aquilo não passava de egoísmo.
Por causa disso, Rothbart sofreu.
E Svanhild também foi arrastado para aquele sofrimento.
O mal-entendido que cresceu alimentado pelo silêncio dela transformou-se em um incêndio incontrolável.
Desesperada para corrigir aquilo, Anna apressou-se em falar.
— Nunca existiu alguém que eu amasse. Era apenas…
— Isso já não importa muito.
Rothbart a interrompeu com um movimento brusco da cabeça.
Como se não quisesse ouvir.
Se realmente não importava mais ou se aquilo era apenas resignação, Anna não conseguia dizer.
— Você devia ter seus motivos para querer voltar.
Sua voz era estranhamente calma.
— Mas isso não muda o fato de que abandonou a mim e a Svan.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Estou cansado de ser arrastado pela direção para onde seu amor aponta.
Quando voltou a encará-la, seu olhar estava vazio.
— Agora… vou me concentrar apenas em resultados concretos.
A mão dele ergueu-se.
Seus dedos envolveram o pescoço de Anna.
Sem apertar.
Apenas cercando-o.
Com a outra mão, começou a desfazer os botões abaixo de sua gola.
Um por um.
— Não amor e confiança…
Os dedos deslizaram por sua pele.
— Mas pecado e punição.
Anna não conseguia se mover.
Era como se todo o seu corpo tivesse endurecido.
Como cera derretida e depois solidificada.
— Há onze anos, fui eu quem foi enganado.
Os lábios de Rothbart tocaram sua bochecha.
A pele dele estava fria.
Sem calor.
Como a de um cadáver.
— Baixei a guarda acreditando que tudo aconteceria conforme eu queria apenas por causa de algo tão trivial quanto uma gravidez.
Sua respiração roçou seu rosto.
— Então, desta vez… eu a enganei da mesma maneira.
Os olhos de Anna se arregalaram.
— Como aquele tolo que eu fui no passado, você só perceberá que algo está errado depois de dar à luz.
A gravidez.
Para todos eles, nunca passara de um instrumento.
Para o Duque Albert, era uma promessa à esposa.
Para Anna, o preço para descobrir como voltar ao mundo original.
Para Rothbart, um meio de prender sua esposa ao seu lado.
Não havia ali dignidade da vida.
Nem amor por uma criança.
Tudo era apenas um recurso a ser utilizado.
E Anna também havia participado daquele pecado.
Por isso, suportar suas consequências era sua responsabilidade.
— Mm…!
Os lábios de Rothbart tomaram os dela.
A atmosfera, que até então apenas fervilhava silenciosamente, mudou de uma só vez.
Sua língua roubou todas as desculpas que ainda permaneciam dentro da boca de Anna.
Enquanto a dominava, agarrou-a e a arrastou para a cama.
Anna foi puxada sem resistência.
Logo depois, foi lançada sobre os lençóis.
Assustada pela súbita mudança, tentou erguer-se.
Mas o corpo de Rothbart a pressionou primeiro.
Com um movimento hábil, ele afrouxou a gravata presa ao próprio pescoço.
Seu olhar, voltado para Anna, era sombrio.
A luz da lua atrás dele aprofundava as sombras, tornando impossível distinguir claramente sua expressão.
— Meu plano original era esperar até que você tivesse um filho.
Sua voz saiu baixa.
— Então eu revelaria tudo.
Ele inclinou a cabeça.
— Diria que tudo era uma mentira.
Anna sentiu o sangue gelar.
— Que, com aquele método, você jamais conseguiria retornar ao seu mundo original.
Ele queria vê-la experimentar o colapso de toda confiança.
Queria que ela sofresse.
Assim como ele havia sofrido.
Mas…
— Então comecei a vacilar.
Rothbart soltou uma risada amarga.
— Cada vez que você olhava para mim daquele jeito.
Sua mão acariciou os cabelos dela.
— Cada pequeno gesto seu… minha raiva diminuía.
Os olhos vermelhos tremeram.
— Depois de tantos anos rangendo os dentes de ódio… tudo começou a parecer tão inútil.
Apesar de ter jurado vingança.
Apesar de ter decidido puni-la.
Toda vez que Anna lhe oferecia bondade sincera, sem saber de nada, seu coração vacilava.
E quando começou a pensar que talvez recomeçar ao lado daquela Anna sem memórias não fosse tão ruim…
Foi obrigado a admitir o quanto sua determinação era fraca.
Patética.
— Então adiantei o plano.
Ele ergueu o queixo dela com um dedo.
A mandíbula de Anna tremia.
Rothbart apreciou aquele medo delicado que sentia através da pele dela.
— Hoje…
Sua voz tornou-se suave.
Perigosamente suave.
— Eu decidiria.
Ele a observou sem piscar.
— Se você tentaria voltar ao seu mundo original mais uma vez, seguindo aquele idiota…
Sehyun.
Tudo fez sentido.
Era estranho desde o começo que ele tivesse conseguido escapar de Odile.
Tudo estivera nas mãos do demônio o tempo inteiro.
E, se era assim…
Sehyun provavelmente também não retornaria.
O destino que aguardava Sehyun não seria diferente do de Anna.
Talvez esse fosse simplesmente o destino dos cisnes que encontravam demônios.
A voz de Rothbart atravessou seus pensamentos.
Como uma sentença.
— Mas, no fim…
Seus olhos se estreitaram.
— Você me deixou.
— Eu…
Anna não conseguiu continuar.
Era verdade.
Embora desta vez não tivesse intenção de partir.
Embora não desejasse abandoná-lo.
Ela ainda planejara receber as roupas de Sehyun.
Incapaz de alegar inocência, permaneceu em silêncio.
Mas aceitar o castigo sem dizer nada não era expiação.
Compreendendo finalmente o peso de seus pecados, Anna agarrou-se desesperadamente a Rothbart.
— Eu não vou pedir que me perdoe. Apenas…
Um sorriso torto surgiu em seus lábios.
— Por que não?
Sua voz era quase gentil.
— Tente pedir perdão.
Ele se inclinou para perto dela.
— Claro… concedê-lo é outra questão.
As muralhas que Rothbart havia erguido em seu coração eram sólidas.
Como camadas de rocha acumuladas ao longo de milhares de anos.
Nada parecia capaz de abalá-las.
— Não vou deixá-la livre nunca mais.
Sua mão deslizou pela cintura dela.
Depois passou sob a saia.
Os dedos percorreram lentamente a coxa de Anna.
Até alcançarem seu tornozelo fino.
Ele acariciou o osso saliente enquanto murmurava:
— A partir de agora, vou gravar em você, uma a uma, todas as letras do decreto demoníaco.
Sua voz escureceu.
— Correntes já não são suficientes para que eu me sinta seguro.
— …O quê?
Anna nem sequer conseguiu repetir a pergunta.
Rothbart moveu-se primeiro.
Uma sensação fria e cortante atravessou sua pele.
— Ahhh!
A dor explodiu.
Escaldante.
Como fogo queimando sua carne.
Tentando erguer-se, Anna finalmente viu o que estava acontecendo.
Uma lâmina azulada.
Do tamanho da palma de uma mão.
Brilhando sob a luz da lua.
Sem qualquer hesitação, ela rasgava seu tornozelo.
Era evidente que Rothbart preparara aquilo para aquele exato momento.
A ferida se abriu cada vez mais.
A dor tornou-se insuportável.
Como chamas agarradas à sua pele.
Anna se debateu instintivamente.
Mas não conseguiu escapar do aperto firme da mão dele.
— Ah… ahh…!
Sua voz saiu quebrada.
Descontrolada.
— Ahhhh…
— Até mesmo seus gritos são doces, Anna…
A voz de Rothbart soou quase afetuosa.
O que apenas tornava tudo mais aterrador.
Da boca entreaberta de Anna escapavam sons desconexos.
Seu corpo se contorcia sobre a cama.
Os lençóis se amassavam sob seus movimentos desesperados.
Mas Rothbart não parou.
Nem por um instante.
Continuou até terminar de gravar todo o círculo mágico em sua perna.

