Capítulo 50

Seu medo de que ela não fosse sua Ianna jamais existiu de verdade.

Não era por causa da semelhança física.

Era a própria existência dela, gravada em sua alma, que o abalava.

Assim como seu corpo não reagia nem mesmo diante de uma prostituta nua se oferecendo a ele, mas sempre respondia ao retrato de Ianna vestida de forma recatada.

A única pessoa neste mundo capaz de despertá-lo era Ianna.

— Afinal… não é muito mais satisfatório prendê-la pela culpa do que desenterrar memórias esquecidas para encurralá-la?

As mãos de Anna, que mal conseguiam segurar o diário, tremiam violentamente.

Tomando-o dela com facilidade, Rothbart folheou as páginas com um movimento displicente. O farfalhar do papel parecia cortá-la em pedaços.

— O que estava escrito aqui? Todos os pequenos detalhes de como você me enganou?

Nas lembranças de Anna, seus olhos haviam sido suaves como pétalas de rosa.

Agora, pareciam lava derretida, prestes a devorá-la.

Quando jovem, apesar de ser chamado de demônio por causa de seu nascimento, Rothbart fora um marido gentil.

Talvez houvesse cochichos pelas costas sobre sua origem.

Mas nunca existiram rumores sinistros sobre lagos tingidos de vermelho por sangue ou cadáveres sendo retirados da propriedade, como acontecia agora.

Muita coisa havia mudado durante sua ausência.

O sentimento de traição que nutria por Ianna havia se transformado numa obsessão anormal.

E, no fim, o próprio Rothbart acabara destruído por ela.

Foi Ianna quem transformou Rothbart em um verdadeiro demônio.

E, ainda assim, Anna invejava a si mesma.

Ao olhar para Rothbart, ela apenas zombara dele, acreditando que fosse um escravo acorrentado à Marquesa e convencida de que jamais receberia sequer um fragmento de seu coração.

As memórias floresciam lentamente, como flores desabrochando.

Mas seus pecados emergiam todos de uma só vez.

O impacto a atingiu com a força de uma cachoeira despencando sobre sua cabeça.

— Você não faz ideia de quantas vezes acariciei tudo o que deixou para trás… quantas vezes respirei o vestígio do seu perfume.

Sua risada saiu abafada e distorcida.

A voz que revisitava o passado estava vazia.

— Com o tempo, comecei a sentir medo. Medo de que todas essas coisas se desgastassem… se desfizessem… desaparecessem antes que você voltasse.

Seu olhar afundou ainda mais na escuridão.

— Quando você disse que queria engravidar, não consegue imaginar o quanto eu fiquei feliz. Pensei que tivesse decidido permanecer neste mundo. Achei que era por isso que queria um filho…

Uma gargalhada amarga escapou de seus lábios.

— Não é ridículo? Ter um filho não passava de um degrau para que você pudesse ir embora.

A fúria que emanava dele abalou Anna como uma maré furiosa.

Feridas jamais cicatrizadas se abriram diante dela, vermelhas e expostas.

Horrorizada e desolada, Anna fechou os olhos.

Aquilo era sua punição.

A consequência inevitável dos pecados que havia cometido.

Mas nem mesmo isso lhe foi permitido.

Rothbart agarrou seu braço com brutalidade e a sacudiu.

— Abra os olhos, Ianna!

Seu rugido fez as paredes estremecerem.

— Não ouse desviar o olhar de mim! Você precisa ver tudo isso claramente! Porque este é o resultado do que você fez!

O homem gigantesco explodiu como um vulcão.

Incapaz de resistir à calamidade diante dela, Anna apenas observou a devastação acontecer.

Não possuía palavras para se defender.

Até mesmo as explicações que havia preparado murcharam e desapareceram.

Com que rosto poderia falar?

Com que palavras?

— Está vendo isto?

Rothbart ergueu o braço esquerdo diante dela.

— Eu cortei minha própria carne. Derramei sangue centenas… milhares de vezes por sua causa. Até o ponto em que mais uma gota poderia me matar.

Os ferimentos horríveis, escondidos sob as roupas até então, foram revelados.

Anna prendeu a respiração.

A simples visão das cicatrizes fazia sua imaginação recriar a dor de lâminas rasgando carne.

— Depois que você desapareceu, passei todos os dias vasculhando a sociedade inteira atrás de qualquer vestígio de alguém que conhecesse a Invocação dos Cisnes.

Sua voz se tornou mais áspera.

— Sabe por quê?

Os olhos vermelhos cintilaram.

— Porque aquele maldito pai matou o mago negro que havia invocado você. Depois queimou todo o método de Invocação dos Cisnes.

Sua expressão se contorceu.

— E então se matou, apagando completamente o método.

Uma risada amarga ecoou.

— Que homem admirável ele era.

No Dia da Lua Vermelha, apenas alguém nascido da morte de uma mãe em um lago de sangue escarlate podia tornar-se receptáculo de um demônio.

A mãe de Rothbart, a antiga Marquesa de Lohengrin, ingeriu drogas para induzir o nascimento de um verdadeiro demônio.

E, quando isso não bastou, deu à luz e tirou a própria vida.

O Duque Albert afirmava que tudo aquilo era superstição.

Mas a antiga Marquesa de Lohengrin insistira obstinadamente, como se estivesse enfeitiçada.

Ironicamente, o filho nascido daquele sacrifício extremo tornou-se o primeiro verdadeiro demônio em mil anos desde o ancestral original.

Albert amava profundamente a esposa.

Dedicou toda sua vida a realizar o último desejo dela: garantir a prosperidade da Casa Lohengrin.

Criou Rothbart para ser um sucessor exemplar.

Invocou um cisne para gerar-lhe um herdeiro.

Mas odiava o demônio que havia consumido a vida da mulher que amava.

Toda a felicidade de sua existência fora arrancada por aquele demônio.

E, ainda assim, Rothbart ousara sussurrar palavras de amor para uma mulher-cisne.

Aquilo era imperdoável.

Por isso, enviou Ianna de volta.

Rothbart conhecia perfeitamente a malícia de seu pai.

Diante dele, Albert cortou a própria garganta.

E antes de morrer, lançou sua maldição.

Quebra de página

— Sua mãe me abandonou e partiu. Mesmo sabendo o quanto eu sofreria, ela me deixou para trás!

— E sua esposa fará o mesmo, Rothbart!

— Em seus braços, ela sussurrava palavras de amor, mas pelas suas costas nunca deixou de tentar escapar!

— Nem uma única vez!

— Tudo era fingimento para abandoná-lo!

— Ela retornará ao mundo que tanto desejava e, em pouco tempo, esquecerá completamente que você existiu…

Mostrando os dentes manchados pelo sangue que jorrava de sua garganta, Albert gargalhou de forma estridente.

E assim terminou a vida do homem que havia sobrevivido apenas para cumprir o último desejo de sua esposa.

— Só então percebi meu erro.

Rothbart falou em voz baixa.

— Eu deveria ter lavado o cérebro dele também.

Seu sorriso era sombrio.

— Arrogantemente, pensei que tudo aconteceria conforme eu desejava, mesmo sem recorrer a isso.

— Esse foi o meu erro.

Apesar de demonstrar ódio evidente, Albert jamais ousara tocar em Rothbart.

Desde o nascimento, a posição de Rothbart sempre estivera acima da de seu pai.

Era assim que funcionava a relação entre eles.

Por isso, Rothbart jamais considerou necessário controlá-lo.

Esse foi o problema.

Ele subestimou o rancor humano.

Jamais imaginou que o ódio de Albert fosse tão persistente e venenoso.

Deveria tê-lo aprisionado por completo.

Deveria ter garantido que jamais pudesse agir.

Mas só percebeu isso depois de perder Ianna.

Albert também não esqueceu de acrescentar que a partida de Ianna havia acontecido por causa de Svanhild.

Provavelmente desejava que Rothbart passasse a odiar o próprio filho.

Afinal, ele mesmo havia feito o mesmo.

Mas Rothbart compreendeu a intenção do pai.

Por isso, simplesmente deixou Svanhild em paz.

Talvez porque não lhe restasse nenhum ódio para derramar sobre a criança.

Todo aquele ressentimento pertencia a uma única pessoa.

Ianna.

A mulher que o abandonou.

Obcecado em trazê-la de volta, Rothbart negligenciou Svanhild.

Aquela era sua maneira de ser pai.

Não havia nada de bom em criar laços profundos com um demônio.

O mesmo valia para seu filho.

E, ironicamente, foi graças a Svanhild que Ianna acabou retornando para seus braços.

Por isso, Rothbart não podia deixar de sentir certa gratidão pela criança.

Quebra de página

— Sabe de uma coisa?

Sua voz tornou-se quase um sussurro.

— Todo o sangue que derramei foi inútil.

Ele sorriu sem alegria.

— O círculo de invocação não reagiu, não importava quantos rituais eu realizasse.

— Meu sangue não era diferente do de qualquer outro ser humano.

Sua risada vazia ecoou pelo quarto.

Anna permaneceu imóvel, abrindo e fechando os punhos repetidamente.

Então Rothbart inclinou-se para ela e revelou seu segredo.

— Então não tive escolha senão usar um sangue novo.

O coração de Anna afundou.

— O sangue usado no círculo que trouxe você de volta…

Ele sorriu.

— Foi o sangue de Svanhild.

A profunda cicatriz na palma da mão de Svanhild surgiu imediatamente em sua memória.

Só agora ela compreendia a origem daquela marca.

Mas isso não tornava a verdade menos desesperadora.

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