Capítulo 47

Anna soltou um suspiro baixo.

Embora já suspeitasse, o choque de ver suas suspeitas confirmadas como verdade era quase insuportável. Seu corpo esguio vacilou, como se fosse desabar ali mesmo, mas, por pura força de vontade — um último ato de resistência — conseguiu permanecer de pé.

Ainda assim, como a superfície de um lago açoitada por uma tempestade, ela não conseguia impedir que seu coração fosse sacudido pela traição.

O impacto foi enorme.

Ela havia se mantido tão firme até agora.

Por fim, a indignação explodiu.

— Por quê? Foi divertido brincar comigo? Ver-me aceitar todas as suas investidas como uma prostituta lhe deu tanta satisfação assim? Você me odiava tanto? Só porque eu sou um cisne como a Marquesa?

Sua explosão de emoção, tão incomum, rasgou o silêncio.

Era a primeira vez que Anna levantava a voz daquela forma diante de Rothbart.

Em algum momento, ela imaginara que talvez acabasse revelando seus verdadeiros sentimentos a ele.

Mas jamais desejara que fosse dessa maneira.

Tão amarga.

Tão cheia de veneno.

Os olhos dela brilhavam de ressentimento enquanto o encarava.

Rothbart permaneceu em silêncio.

Seu rosto estava tomado pelo êxtase de alguém que finalmente obtivera algo aguardado por muito tempo.

Sim.

Rothbart claramente apreciava a hostilidade de Anna.

Sem que percebessem, já estavam próximos o bastante para ouvir a respiração um do outro.

Ele ergueu a mão.

Com as costas dos dedos, acariciou de leve sua face.

Então sussurrou, gentilmente:

— Como eu poderia odiá-la? Isso é impossível.

— Mentira. Você devia pensar que eu estava completamente na palma da sua mão. Que poderia brincar comigo até se cansar e, quando chegasse o dia em que eu descobrisse tudo e fosse destruída, então riria da minha cara. Muito bem. Esse dia chegou. É hoje. Se quer zombar de mim, então faça isso!

O toque que antes lhe parecia tão familiar agora lhe causava náusea.

Anna afastou a mão dele com um golpe seco.

Embora pudesse facilmente impedi-la, Rothbart simplesmente recolheu a mão.

— Zombaria é sua especialidade, não minha.

Mesmo diante daquela hostilidade e agressividade que ela demonstrava pela primeira vez, Rothbart permaneceu tranquilo.

Pior.

Parecia satisfeito.

Como alguém que finalmente encontrara a polpa escondida dentro de um fruto que permanecera fechado por tanto tempo.

Quanta paciência ele precisara suportar para empurrá-la até aquele ponto?

Agora só restava colher o resultado.

E saboreá-lo.

Não havia motivo para pressa.

— Você sempre fez de mim uma idiota, não foi?

— …Quando eu fiz isso?

— Agiu como se me amasse. Como se eu fosse a única para você. E enquanto eu me debatia, enganada de forma tão ridícula, você se divertia e me deixava sozinha. Comparado ao que fez comigo… isso nem pode ser chamado de zombaria.

Um sorriso tênue surgiu nos lábios de Rothbart.

Naquela expressão coexistiam duas figuras.

A inocência cega de um jovem na casa dos vinte anos.

E a malícia sórdida de um homem próximo dos quarenta.

Sua reação era completamente diferente de tudo o que Anna imaginara.

Ao vê-lo sorrir como se fosse a vítima daquela situação, o corpo dela se retesou.

O equilíbrio moral que sempre acreditara estar a seu favor começou a inclinar-se sob aquela língua venenosa.

Algo…

Algo estava seguindo por um caminho terrivelmente errado.

Rothbart inspirou lentamente o cheiro da tensão que emanava do corpo dela.

Então murmurou:

— Você é realmente uma mulher cruel, Ianna. Tudo o que fiz não passou de uma vingança legítima.

Somente então Anna percebeu a estranha dissonância nas palavras dele.

A pessoa a quem Rothbart se dirigia não era Anna.

Era a Marquesa.

Mesmo agora, ele continuava tratando-a como substituta da Marquesa.

A raiva subiu até a raiz de seus cabelos.

— Ainda está zombando de mim. Eu não sou a Marquesa, Lorde Lohengrin. Não importa o quanto me atormente…

Sua vingança apenas criará outra vítima inocente.

Mas antes que pudesse terminar a frase, Rothbart puxou a corda que cobria o retrato acima da lareira.

A pesada cortina caiu.

Revelando a pintura escondida atrás dela.

A luz vermelha da lua inundou o retrato.

Naquela noite, o luar estava especialmente intenso.

E a figura retratada surgiu com uma nitidez assustadora.

A mulher da pintura, banhada pelo brilho carmesim, observava Anna em silêncio.

Olhos bem definidos, mesmo sem pálpebras duplas.

Cabelos negros como seda, presos elegantemente e adornados com joias cintilantes.

Uma mulher do Continente Oriental.

A respiração de Anna ficou presa na garganta.

Por quê?

A Marquesa desaparecida havia onze anos era exatamente igual a Anna.

Como se ela própria tivesse sido preservada na tela.

Se não fossem as roupas diferentes, ela poderia facilmente ter confundido o retrato com um espelho.

Ela imaginara que, já que Rothbart dizia que eram parecidas, deveria haver alguma semelhança.

Mas aquilo não era mera semelhança.

Era identidade.

Um arrepio atravessou seu corpo.

Como se estivesse diante de seu próprio duplo.

Seus lábios pálidos tremeram.

— Isso… não faz sentido…

Coincidência?

Mas seria possível explicar tudo aquilo apenas com coincidência?

Agora ela entendia por que Rothbart estava tão convencido de que Anna era a Marquesa.

Com uma semelhança daquelas, até ela própria se sentia confusa.

Como se precisasse escavar suas memórias em busca de algo esquecido.

Mas não havia nada.

Absolutamente nada.

Além disso, nem mesmo suas idades coincidiam.

A Marquesa surgira naquele mundo dezesseis anos atrás.

E desaparecera onze anos atrás.

Ela devia ter vivido ali por pelo menos cinco anos.

Anna lembrava perfeitamente do que fazia naquela época.

Era impossível esquecer.

Após a morte de seu pai, ela e a mãe haviam lutado desesperadamente contra as ondas constantes de tristeza e depressão.

— Ainda não se lembra? Se visse o diário que escreveu, sua memória voltaria?

Rothbart ergueu algo na mão.

Era o diário da Marquesa.

O ponto de partida de toda aquela história emaranhada.

Ele o lançou na direção de Anna.

Para alguém que sempre tratara os pertences da Marquesa como tesouros sagrados, aquele gesto foi surpreendentemente brusco.

Anna conseguiu apanhar o diário por pouco.

Os dedos deslizaram sobre a capa de couro amarrada.

O diário lacrado parecia uma Caixa de Pandora.

Mas, assim como a mulher do mito, Anna não conseguiu resistir.

Ela o abriu.

As páginas, que guardavam mais de uma década de tempo, estavam amareladas.

Ainda assim, mesmo sob a luz fraca, a escrita permanecia clara.

Ela havia temido não conseguir ler.

Mas as palavras gravadas naquelas páginas se imprimiram em seus olhos sem dificuldade.

Quebra de página

2 de dezembro

Já faz dois meses desde que caí neste mundo.

Existem três luas no céu, mas as estações parecem funcionar da mesma forma. A neve cai sem parar, e o vento gelado corta a pele.

Se eu não tivesse sido acolhida por uma família nobre, provavelmente estaria sofrendo muito neste inverno.

Nesse aspecto, tive sorte.

A vida na Casa Lohengrin é suportável.

Todos me tratam com consideração.

O Marquês Albert, que atualmente lidera a família, parece ser uma pessoa gentil…

Mas o filho dele, Rothbart, é absolutamente insuportável.

No começo, admito que fiquei fascinada por ele.

Nunca tinha visto alguém tão bonito.

Mas logo descobri que o rosto dele é a única qualidade que possui.

Sempre que me vê, encontra algum motivo para me provocar.

Não aguento mais.

O que foi que eu fiz?

Não fui eu quem escolheu vir para este lugar.

Se tudo tivesse acontecido como deveria…

Neste exato momento eu estaria prestando vestibular, pensando em qual universidade escolher.

Será que mamãe está bem?

Ainda não faz muito tempo desde que papai faleceu.

E agora eu também desapareci.

Ela deve estar desesperada.

Não me importo se precisar repetir um ano inteiro.

Só quero voltar.

De qualquer jeito.

Primeiro Ano, 12 de março

Briguei com Rothbart.

Ele deve ser uns três anos mais velho do que eu, mas de que adianta idade quando alguém se comporta de forma tão arrogante?

Ele continua dizendo, com aquele ar de desprezo, que não tem a menor intenção de ter filhos comigo.

Mas eu sinto exatamente o mesmo.

De onde ele tirou essa ideia absurda?

Primeiro Ano, 6 de julho

Então o motivo de eu ter sido trazida para este mundo foi para me tornar a parceira de Rothbart?

E quem me convocou para cá foi justamente o Marquês Albert, o pai dele.

Não existe ninguém em quem eu possa confiar.

A ideia de me tornar parceira de Rothbart é insuportável.

Eu quero voltar.

Por favor, me mandem de volta.

Primeiro Ano, 8 de julho

Se foi o Marquês Albert quem me trouxe para este mundo, então talvez ele também saiba como posso retornar.

Preciso me apegar a essa esperança.

Vou perguntar à Madame Dova quando poderei encontrá-lo.

Primeiro Ano, 9 de julho

Como eu imaginava, ele sabia a resposta.

Mas havia uma condição.

Disse que só me contaria se eu me casasse com Rothbart.

Casar com Rothbart?

Sério?

Mas Rothbart vai recusar de qualquer maneira.

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