Capítulo 46

Sehyun usou a desculpa de emprestar suas roupas para atrair Anna para fora, mas, desde o início, nunca teve a intenção de dividi-las com ela.

Não existia um conto chamado Os Cisnes Selvagens?

Os príncipes transformados em cisnes recuperavam sua forma humana ao vestir camisas tecidas com urtigas. Porém, o único príncipe cuja camisa não possuía mangas permaneceu para sempre com asas de cisne no lugar dos braços.

Assim como naquela história, se ele não vestisse suas roupas corretamente, quem poderia garantir em que estado retornaria ao seu mundo original?

A própria ideia de voltar para casa usando as roupas com que havia chegado lembrava a lenda do lenhador e da donzela celestial.

Não havia motivo para desafiar um tabu de conto de fadas.

Ele sentia certa culpa por Anna.

Afinal, ela vendera suas próprias roupas para conseguir dinheiro para a viagem até esta mansão.

Mesmo assim, não podia correr um risco incerto apenas por remorso.

Além disso, a promessa de emprestar suas roupas não passava de um pretexto para tirar Anna da mansão.

Depois de testemunhar a obsessão de Odile, Sehyun sabia que, no momento em que ela percebesse sua fuga, enviaria pessoas para procurá-lo.

Ele precisava de uma distração.

Por isso marcou o encontro num local oposto ao lago.

Enquanto Anna permanecesse ali, atraindo atenção para si, ele seguiria discretamente até o lago.

Talvez Odile tivesse colocado guardas ao redor dele.

Ainda assim, não havia alternativa.

O lago da floresta era enorme.

Certamente existiria algum canto por onde pudesse escapar sem ser visto.

Enquanto pensava nisso, algo lhe pareceu estranho.

Os arredores estavam silenciosos demais.

Já fazia tempo suficiente para Odile ter descoberto sua fuga, mas nada acontecera.

Talvez ela não estivesse tão desesperada por ele quanto imaginava…

Sehyun desejou ardentemente que fosse esse o caso.

Finalmente, chegou ao lugar onde havia escondido suas roupas.

Com mãos trêmulas, enfiou o braço dentro da cavidade da árvore.

Mas não encontrou nada.

— O quê? O quê? O quê?!

Tomado pelo pânico, começou a apalpar o interior freneticamente.

Depois enfiou até a cabeça dentro do buraco.

Por mais brilhante que fosse o luar, era impossível enxergar o fundo daquela cavidade escura durante a noite.

Desnorteado, murmurou:

— Minhas roupas… Onde estão minhas roupas? Elas estavam aqui… Estavam aqui…!

Sem aquelas roupas, não poderia retornar ao seu mundo original.

Foi então que uma gargalhada feminina, terrivelmente familiar, ecoou atrás dele.

O som agudo atravessou a floresta sombria.

A espinha de Sehyun congelou.

Paralisado pelo medo, ele sequer conseguiu se virar.

Enquanto isso, o som delicado de saltos se aproximava lentamente.

Sem hesitação.

— Eu não sabia que você tinha o hobby de se vestir como mulher.

Odile olhou para Sehyun com um sorriso elegante.

Por trás daquela expressão refinada, porém, escondia-se a crueldade de um predador prestes a despedaçar sua presa.

E Sehyun sabia disso melhor do que ninguém.

Seu corpo inteiro começou a tremer.

— Eu também gosto de fazer homens vestidos de mulher chorarem e gritarem.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— E veja só… Você veio até mim exatamente do jeito que eu gosto.

Atrás dela, os tratadores dos estábulos surgiram um após o outro.

Empunhavam forcados.

Carregavam tochas.

A floresta, antes mergulhada na escuridão, começou a se iluminar gradualmente, como se uma falsa aurora estivesse nascendo.

Os olhos deles estavam vazios.

Sem vida.

Como se estivessem enfeitiçados.

— Você realmente acreditou que conseguiria escapar tão facilmente?

Então era por isso.

Por isso ninguém o perseguira.

Por isso tudo permanecera tão quieto.

Ao ver a demônia surgir justamente quando seu desespero atingia o auge, Sehyun debateu-se inutilmente.

Talvez até mesmo sua fuga tivesse sido parte do plano dela.

No fim, tudo o que fizera fora correr de um lado para o outro dentro da palma de sua mão.

O desespero tomou conta de seus olhos.

Enquanto arfava, sufocado pelo medo como alguém se afogando, a lua vermelha espalhava sua luz languidamente sobre a floresta.

Como se zombasse dele.

Quebra de página

Anna esperou durante muito tempo sob a árvore de cravo.

Mas não havia sinal de Sehyun.

Nem de qualquer outra pessoa.

A lua começou lentamente a descer no céu.

Somente então Anna foi obrigada a aceitar a realidade.

Sehyun a abandonara.

— Ha…

Um suspiro vazio escapou de seus lábios.

Ela compreendia perfeitamente suas intenções.

Desde o começo, a promessa de lhe emprestar as roupas devia ter sido uma mentira.

Não era surpreendente.

Pelo contrário.

Sentiu até mesmo uma estranha sensação de alívio.

Pelo menos suas dúvidas sobre a boa vontade de Sehyun haviam sido esclarecidas.

E, acima de tudo, o peso da culpa por tê-lo enganado parecia um pouco menor.

Forçou-se a encontrar conforto nesse pensamento.

Talvez…

Talvez nunca mais pudesse voltar ao seu mundo original.

Talvez estivesse destinada a viver neste mundo pelo resto da vida.

Se fosse assim…

Precisava ainda mais resolver sua relação distorcida com Rothbart.

Precisava viver como Anna.

Não como a substituta da Marquesa.

Mesmo sem saber qual seria o desfecho.

A ampulheta não esperava ninguém.

Fosse empurrada pelo destino ou guiada pela própria vontade, chegara o momento de lançar os dados.

Segurando firmemente o dado do destino nas mãos, Anna deu um passo à frente.

Era hora de percorrer novamente o caminho que havia trilhado.

Quebra de página

A mansão para a qual retornou estava silenciosa como um túmulo.

Svanhild, que bloqueava o portão dos fundos, já não estava lá.

Somente escuridão e silêncio a receberam.

O peito de Anna fervilhava de impulsos contraditórios.

Ora queria correr até Rothbart e exigir a verdade.

Ora desejava enfrentá-lo de maneira calma e racional.

Esses pensamentos opostos faziam seu coração bater violentamente.

Enquanto subia as escadas, seu olhar foi atraído por uma tênue faixa de luz escapando de um aposento.

Ela sabia exatamente qual quarto era.

E onde ficava.

Como poderia esquecer?

A origem de tudo.

O começo de sua relação com Rothbart.

O quarto proibido da Marquesa.

Parecia que Rothbart estava lá naquele exato momento.

Talvez, como na primeira vez em que o encontrara, estivesse se satisfazendo sozinho enquanto contemplava o retrato da Marquesa.

Só de imaginar aquilo, espinhos de ciúme e repulsa atravessaram o coração de Anna.

Ela deveria fingir que não tinha visto.

Deveria simplesmente passar direto.

Mas aquela estreita faixa de luz escapando pela porta entreaberta a atraía.

Devo entrar?

Ou não?

Se eu entrar… o que vou dizer a ele?

Seus lábios ressequidos se moveram.

As palavras que guardava para Rothbart subiram até a ponta da língua.

Mas nenhuma conseguiu sair.

Além disso, Anna não possuía o direito de entrar naquele quarto.

Na primeira vez, Rothbart demonstrara misericórdia ao ignorar sua invasão.

Desta vez, certamente ficaria furioso.

Como ousa…? Pensando que é alguma coisa…

A voz colérica dele pareceu ecoar em seus ouvidos.

As palavras que imaginava receber como lâminas deveriam impedi-la.

Mas não impediram.

Pelo contrário.

Uma resistência teimosa surgiu dentro dela.

Uma rebeldia que a empurrou para frente.

Assim, guiada por um impulso que nem ela compreendia, Anna parou diante da porta proibida.

Sua mão pálida e delicada tocou a maçaneta de bronze.

Depois a apertou.

Creeeec.

A dobradiça soltou um lamento alto.

Anunciando a chegada da intrusa.

O quarto estava mais iluminado do que esperava.

Havia apenas uma ou duas velas acesas.

Mas a lua vermelha, brilhando intensamente além da janela, inundava o ambiente com seu brilho.

Ainda assim, a coisa mais luminosa daquele quarto não eram as velas.

Nem o luar.

Eram os olhos vermelhos fixos nela.

Rothbart estava encostado no caixilho da janela.

Observando-a.

— Você disse que nos veríamos amanhã.

A voz sem qualquer traço de humor a recebeu.

Ele permanecia ereto como uma árvore antiga.

Como alguém que já estava esperando por ela.

Diante daquela visão inesperada, o coração de Anna bateu tão forte que parecia reverberar dentro de seus ouvidos.

— Nos encontramos mais cedo do que imaginei.

Rothbart deu um passo.

Depois outro.

À medida que se afastava da janela, sua sombra crescia.

Até engolir Anna por completo.

— Bem-vinda, Anna.

Disse isso com uma falsa gentileza.

Uma falsa cordialidade.

— Pelo visto, sua tentativa de retornar fracassou.

Rothbart parecia conhecer cada um de seus movimentos.

Pela reação dele, Anna obteve sua resposta antes mesmo de perguntar.

O método de retorno que Rothbart lhe contara…

Era mentira desde o início.

— …Você me enganou.

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