Capítulo 34

Rothbart pode ter outra mulher… Talvez eu não seja a única substituta da Marquesa…

Tudo não passava de imaginação sua, mas apenas pensar nisso fazia seu coração disparar violentamente e o sangue fugir de seu rosto.

Anna obrigou-se a manter a calma e voltou a concentrar-se em retirar os caroços das cerejas, mas a mão que segurava o descaroçador tremia, fazendo-a errar várias vezes.

Outra criada que trabalhava na cozinha perguntou rapidamente a Betty:

— Você a viu de perto?

— Não. Vi de longe. Mas mesmo à distância dava para perceber que era uma beleza.

Com um sorriso malicioso, Betty foi abrindo os dedos um a um enquanto acrescentava:

— Nobre, solteira e bonita… Tem o trio perfeito. Então nossa Srta. Schwartz, vendo a água bater no pescoço, deve ter corrido para bajulá-la, não acha?

— A Srta. Schwartz?

— Sim. Ela até acompanhou o patrão no encontro com a convidada. Nem sabe qual é o seu lugar.

Betty balançou a cabeça com evidente desaprovação.

— Que mulher descarada. É apenas uma governanta. Que direito ela tem de entrar no local onde os convidados são recebidos? Por acaso acha que é a senhora de Lohengrin?

— Ouvi dizer que elas já se encontraram na capital.

Acrescentou Jo, que havia chegado à cozinha um pouco depois.

Com as mãos na cintura, ela balançou a cabeça como se aquilo fosse ridículo.

— De qualquer forma, eu sabia que acabaria assim. Betty, os outros estavam perguntando quando você voltaria.

— Eu nem fiquei fora por tanto tempo. Mas espere… o que é isso de terem se conhecido na capital?

Betty insistiu.

Ela tinha a expressão de quem não arredaria o pé sem ouvir a história inteira.

Os olhos das outras criadas da cozinha também brilharam enquanto encaravam Jo.

Pressionada pelo interesse silencioso de todas, Jo soltou um suspiro antes de responder:

— A Srta. Schwartz participou algumas vezes das reuniões da sociedade acadêmica na capital. Acho que foi lá que elas se conheceram. Pelo menos foi essa a impressão que tive.

— Então o patrão também conheceu a Srta. Schwartz numa dessas reuniões?

— Quem sabe? Pode ter sido numa reunião acadêmica ou em algum baile… Nós não sabemos nada do que o patrão faz quando está na capital. Se estão tão curiosas, por que não perguntam diretamente à Srta. Schwartz?

Betty estremeceu.

— Ficou louca?

Incapaz de suportar mais a conversa, Cathy, a chefe da cozinha, bateu a colher de madeira contra a borda de uma panela.

— Então esta cozinha virou esconderijo para fofocas? Não têm nada melhor para fazer?

— Mas, Cathy, a senhora também não está curiosa?

Betty rebateu sem qualquer vergonha, completamente imune ao olhar severo da mulher.

Os lábios de Cathy se contraíram, como se ela não desgostasse totalmente da ousadia da garota.

Ainda assim, ergueu o braço forte e robusto e encerrou o assunto.

— Chega, chega. Nesta mansão, curiosidade é proibida. Nada de bom vem de saber demais. Principalmente quando o assunto é o patrão. Ultimamente as coisas andam tranquilas porque não aconteceu nada grave, mas gravem isso na cabeça de vocês. Não saber de nada é a única forma de sobreviver por muito tempo neste lugar.

Diante da advertência de Cathy, Betty e Jo finalmente se calaram.

O clima na cozinha tornou-se pesado demais para continuar conversando.

As duas saíram rapidamente, enquanto as demais criadas voltavam às suas tarefas.

Quando Cathy lançou outro olhar severo ao redor, até mesmo as mais distraídas apressaram-se em trabalhar.

Observando tudo com inquietação, Susan aproximou-se discretamente de Anna e sussurrou:

— Para falar a verdade, você não deveria estar aqui, deveria? Não deveria estar ao lado do patrão?

— …Sou apenas uma criada. Só vou quando o patrão me chama.

Anna respondeu como se nada estivesse errado.

Por dentro, porém, seu coração queimava.

E se ele entregar o coração àquela Lady Brabant e nunca mais me chamar?

E se mudar comigo tão facilmente quanto se vira a palma da mão?

Como eu poderia convencê-lo?

As palavras que ele lhe dissera, falando sobre aproveitar aquela breve liberdade, agora pareciam muito distantes.

Nesse ritmo…

Talvez, apenas para mantê-lo ao seu lado, ela acabasse engolindo o orgulho e indo procurá-lo naquela mesma noite.

Click!

O caroço de uma cereja saltou para fora com um estalo seco.

O som a despertou como um disparo de arma de fogo.

Anna repreendeu-se imediatamente por permitir que pensamentos como aqueles ocupassem sua mente.

Era uma imaginação assustadora.

De qualquer forma, voltarei para o meu mundo.”

Então o que importa com quem ele vive aqui?

Se ele deixar de me chamar, tudo o que preciso fazer é gerar um filho com outra pessoa e retornar para casa.

Anna fingiu que estava tudo bem.

Mas imaginar-se nos braços de um homem que não fosse Rothbart era algo que simplesmente não conseguia fazer.

Será que havia sido marcada pelo primeiro homem?

Ao pensar nisso, uma parte de seu peito latejou como se tivesse sido perfurada por uma agulha.

Quanto tempo fazia desde que decidira que o lugar da Marquesa não lhe pertencia?

Ainda assim, ultimamente, era constantemente dominada por emoções absurdas.

Por enquanto, sua razão ainda resistia.

Mas, no momento em que fosse completamente conquistada por ele, talvez já não tivesse forças para lutar.

Anna voltou a concentrar-se no trabalho.

Não queria pensar em mais nada.

Quebra de página

Mas as coisas sempre seguem o caminho oposto ao que desejamos.

De repente, um lacaio apareceu na cozinha procurando por Anna.

— O Marquês está chamando você. Vá imediatamente ao primeiro salão de recepção.

— Agora?

— Sim. Não há tempo para demora. Depressa.

O homem a apressou.

O que estava acontecendo?

Assustada, Anna levantou-se.

As outras criadas da cozinha também pareciam atônitas, sem entender a situação.

Ao encontrar o olhar preocupado de Susan, Anna lhe ofereceu um pequeno sorriso tranquilizador antes de seguir o lacaio.

Ele era alguém com quem ocasionalmente trocava cumprimentos pelos corredores.

Enquanto caminhavam rapidamente pela mansão, Anna perguntou em voz baixa:

— O que aconteceu?

— Eu também não sei.

O lacaio balançou a cabeça.

Pouco antes de chegarem ao salão, porém, acrescentou em tom cauteloso:

— A convidada e o patrão não parecem ter uma relação muito amigável. Prepare-se. Não demonstre nenhuma fraqueza que possam usar contra você.

— …Obrigada.

Não era muita informação.

Mas era suficiente.

Respirando fundo, Anna encarou resolutamente a porta do salão.

O lacaio a abriu.

A cena que surgiu diante de seus olhos era estranha.

O primeiro salão de recepção, reservado para convidados importantes, não era um lugar onde Anna costumava entrar.

O ambiente já lhe era desconhecido.

Mas o que mais a surpreendeu foi a visão diante dela.

Duas mulheres conversavam com Rothbart sentado entre elas.

Escondendo o desconforto da melhor forma possível, Anna entrou cuidadosamente no recinto.

Um passo de cada vez.

Parecia que caminhava voluntariamente para dentro da toca de um tigre.

— Então esta é a criada?

A jovem que Anna nunca tinha visto antes lançou-lhe um olhar e falou com um leve sorriso na voz.

Devia ser a convidada da mansão.

A terceira filha do Conde de Brabant.

Talvez tivesse a mesma idade que Anna.

Os olhos vermelhos e os cabelos castanhos chamavam atenção.

Ainda assim, apesar das cores marcantes, transmitia uma impressão delicada e frágil.

Era uma beleza refinada.

— O Marquês de Lohengrin aceitou uma criada pessoal pela primeira vez, e eu fiquei curiosa, então pedi para conhecê-la. Conheço o Marquês há bastante tempo, mas nunca ouvi falar de um criado pessoal, muito menos de uma criada pessoal. De fato, você parece cuidadosa e inteligente. Imagino que desempenhe suas funções muito bem.

— A senhorita me lisonjeia.

Anna mordeu discretamente a parte interna da bochecha enquanto baixava a cabeça.

A voz da jovem era gentil.

Sua postura era calorosa.

Mas as palavras feriam.

Cada frase atravessava o peito de Anna como uma agulha.

Enquanto ela permanecia tão humildemente curvada, Rose — que, afinal, também não passava de uma funcionária da casa — encontrava-se sentada no sofá do salão como se fosse igual ao Marquês e à filha do Conde de Brabant.

Observava Anna com desprezo.

Logo tratou de reforçar as palavras da jovem dama.

— Exatamente. A Srta. Anna é extremamente diligente e sincera. Veja só. Mesmo hoje, aparentemente sem nenhuma tarefa específica, ela ainda encontrou algo para fazer antes de vir até aqui.

Os lábios vermelhos de Rose curvaram-se em um sorriso carregado de hostilidade.

Ao ouvir aquelas palavras, Anna finalmente se lembrou da própria aparência.

Seu avental branco estava manchado pelo suco das cerejas, que já havia escurecido.

Parecia desalinhada e desleixada.

Sentada no mesmo ambiente que Rose, elegantemente produzida, e a refinada filha do Conde de Brabant, sua aparência tornava-se ainda mais miserável.

Enquanto as duas mulheres a avaliavam como se analisassem uma peça exposta diante delas, Rothbart limitava-se a observá-la.

Seu rosto permanecia indecifrável.

Era impossível adivinhar o que se passava em sua mente.

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