Capítulo 30

— Eu não sei. Mas agora que as coisas chegaram a esse ponto, em quem ela vai colocar a culpa? Se a justificativa dela não soar como uma desculpa esfarrapada, já será muita sorte.

— Isso é grave. Mesmo sendo a criada pessoal do Marquês, ela foi longe demais. Pela reação de Sua Excelência, ele não vai deixar isso passar. Ou será expulsa da mansão ou então…

A criada interrompeu a própria frase antes de terminá-la.

Ainda assim, todos os presentes compreenderam perfeitamente as palavras que permaneceram enterradas no silêncio.

— Como isso aconteceu tão de repente?

Todos já previam a ruína de Anna.

Observando de longe os cochichos dos criados, Rose sorriu satisfeita.

Tudo estava acontecendo exatamente como havia planejado.

Se Anna fosse expulsa daquela forma, o mestre inevitavelmente voltaria sua atenção para as pesquisas de magia negra.

Seus lábios vermelhos e brilhantes desenharam um arco suave e triunfante.

Quebra de página

— No que estava pensando? Sua Excelência está furioso.

Ao ouvir o aviso do mordomo Barrett, Anna fechou os olhos.

Tinha a sensação de que aquilo que estava destinado a acontecer finalmente havia chegado.

Não imaginava que terminaria daquela maneira, mas também não estava surpresa.

Era esse o objetivo de Svanhild?

Dizer que a queria como mãe e, ao mesmo tempo, fazê-la perder o favor de Rothbart?

Uma risada amarga quase escapou de seus lábios.

— Mesmo assim, se explicar tudo direitinho ao Marquês, ele não a repreenderá severamente… Por favor, tome cuidado com o temperamento dele. Entendeu?

O mordomo acrescentou cautelosamente enquanto observava o rosto dela.

Para uma simples criada — e ainda por cima uma criada que havia despertado a ira do Marquês —, aquele tratamento era generoso demais.

Acompanhada por Barrett, Anna chegou aos aposentos do Marquês.

O mordomo bateu firmemente na pesada porta de mogno e anunciou:

— Mestre, é Barrett. Trouxe a criada que solicitou.

— Faça-a entrar.

Com a permissão de Rothbart, o mordomo abriu a porta.

Apenas Anna recebeu autorização para entrar.

Antes que ela atravessasse a soleira, Barrett lançou-lhe um olhar cheio de preocupação.

Anna respirou fundo e entrou no escritório de Rothbart.

A mesma pressão sufocante que sentira na primeira vez que estivera ali caiu novamente sobre seus ombros.

Vestido exatamente como quando saíra pela manhã, Rothbart estava encostado de lado junto à janela atrás da escrivaninha.

Ao vê-la hesitar perto da porta, um sorriso de escárnio surgiu em seus lábios.

— Enquanto eu estava fora, você fez o que bem entendeu. O que foi? Passou a se achar a Marquesa?

— …Nunca tive essa intenção. Me desculpe.

Anna pediu desculpas imediatamente.

Não mencionou que Svanhild havia insistido para que colhesse as flores para decorar o escritório do pai.

Qualquer que fosse a situação, Svanhild era filho de Rothbart.

Usá-lo como justificativa apenas alimentaria ainda mais a ira do Marquês.

— Se queria flores tão desesperadamente, deveria ter dito isso quando eu ainda estava aqui ontem. Mas esperar eu virar as costas para ir cortá-las… O que pretendia fazer? Hm? Queria entregá-las a algum homem longe dos meus olhos?

— ……

— Àquele homem do Continente Oriental? Ou existe outro que eu ainda não conheço?

Diante das palavras cortantes do Marquês, Anna abaixou ainda mais a cabeça.

Qualquer decisão que ele tomasse seria independente de suas explicações.

Quanto mais tentasse se justificar, mais Rothbart encontraria brechas para arrastá-la para uma armadilha sem saída.

A essa altura, ela já conhecia bem o modo como ele conduzia uma conversa.

Por isso escolheu permanecer em silêncio.

Afinal, mesmo sabendo que algo assim poderia acontecer, ainda assim havia cortado as flores com as próprias mãos.

Rothbart encarou Anna com olhos que pareciam prontos para devorá-la.

Então, por fim, explodiu numa voz que mal continha a própria fúria.

— Como ousou cortar aquelas flores… Traga-as aqui. Agora mesmo!

— ……

— O quê? Não pode? Está com medo de que eu faça mal ao homem que as recebeu quando descobrir quem é?

Os lábios do Marquês se torceram num sorriso cruel.

Os dentes expostos brilharam de forma inquietante.

Naquele instante, ele realmente parecia alguém capaz de matar.

Já era impossível dizer se ele acreditava de fato que Anna havia dado as flores a outro homem ou se apenas a ridicularizava.

Reprimindo um suspiro, Anna começou a caminhar lentamente.

Seguiu em direção ao quarto conectado ao escritório.

Sem entender o motivo, Rothbart arqueou as sobrancelhas.

Aquilo não estava seguindo o rumo que esperava.

O canto de seus lábios endureceu.

Pouco depois, Anna retornou carregando um vaso.

Dentro dele havia rosas vermelhas cuidadosamente arranjadas.

Ao vê-la abraçada ao vaso, Rothbart arregalou os olhos.

Anna, porém, mantinha o olhar fixo no chão e não percebeu sua reação.

Curvando a cabeça, pediu desculpas mais uma vez.

— Me desculpe. Isso nunca mais acontecerá.

Aceitar acusações por algo que não era inteiramente sua culpa e baixar a cabeça sem protestar.

Aquilo era uma das primeiras coisas às quais ela havia se acostumado desde que chegara àquele mundo.

— …Espere.

Rothbart murmurou lentamente.

Sua voz parecia estranhamente hesitante.

— Então essas flores…

— Eu apenas achei que seu quarto ficaria bonito com elas. O senhor parece gostar de flores. Além disso, me emprestou a pomada ontem… Eu não sabia que não podia cortá-las. Da próxima vez tomarei mais cuidado.

— ……

Enquanto Anna repetia suas desculpas como um papagaio, Rothbart simplesmente não conseguia encontrar palavras.

O silêncio se prolongou.

Por fim, Anna sentiu que algo estava errado e levantou a cabeça timidamente.

E encontrou algo que jamais esperava ver.

Confusão.

Uma confusão genuína escondida sob o rosto de ferro de Rothbart.

Pela primeira vez, aquele homem que sempre observava tudo com calma e superioridade parecia abalado.

Seu semblante estava tomado por uma inquietação que ela nunca havia testemunhado.

Diante daquela reação inesperada, Anna piscou lentamente.

A confusão dele logo contaminou a dela.

Será que havia cometido algum erro?

Sem perceber, deu um passo para trás.

Talvez por causa da tensão, suas pernas vacilaram.

Seu corpo inclinou-se.

Quando tentou recuperar o equilíbrio, sua mão escorregou.

Crash!

O som agudo de vidro se estilhaçando cortou o ambiente.

O vaso explodiu em fragmentos.

As rosas espalharam-se pelo chão.

A água encharcou o fino carpete.

Anna empalideceu instantaneamente.

As flores molhadas pendiam tristemente.

Não bastava ter cortado as flores que Rothbart tanto valorizava.

Agora também as havia derrubado no chão.

Embora tivesse sido um acidente, para Rothbart aquilo poderia facilmente parecer um ato de desafio.

Desesperada para amenizar sua ira, ainda que um pouco, Anna ajoelhou-se às pressas.

— Me desculpe. Vou limpar tudo agora mesmo.

Antes que seus dedos finos e pálidos como madeira de bétula alcançassem os cacos, Rothbart avançou.

Num único movimento, ergueu-a nos braços.

— Ah!

Sob os sapatos impecavelmente polidos dele, as pétalas das flores que tanto prezava foram esmagadas.

Completamente atordoada, Anna observou por cima do ombro dele os restos das rosas espalhados pelo chão.

Ela não entendia o que estava acontecendo.

Carregando-a daquela forma, Rothbart entrou em seu quarto.

Em seguida, colocou-a sobre a cama.

Até então, aquela cama havia sido um território proibido.

Assustada, Anna tentou se levantar imediatamente.

Mas a mão de Rothbart pressionou seu ombro e a obrigou a permanecer sentada.

Logo depois, ele deixou o quarto.

Através da fresta da porta que não chegou a fechar completamente, Anna ouviu sua voz chamando o mordomo e dando algumas instruções.

Pouco tempo depois, Rothbart retornou.

Fechou a porta.

Então permaneceu parado, observando-a.

Toda a raiva de antes havia desaparecido.

Em seu lugar existia uma expressão estranha.

Parecia alguém completamente perdido.

As rugas entre suas sobrancelhas não carregavam mais ira, mas emoções totalmente diferentes.

Os lábios de Rothbart, secos como se estivesse com a garganta árida, abriram-se e fecharam-se repetidas vezes.

A língua passou por eles numa tentativa inútil de umedecê-los.

Somente depois de um longo silêncio ele finalmente conseguiu falar.

— Por que não me disse? Se tivesse simplesmente falado que colocou as flores no meu quarto…

— Isso… faria diferença?

Anna perguntou, completamente desnorteada.

Então o problema não era ter cortado as flores?

E as acusações sobre outro homem não passavam de sarcasmo?

Seus pensamentos ficaram ainda mais confusos.

Foi então que Rothbart caminhou até ela.

Sua mão grande segurou delicadamente seu queixo e ergueu seu rosto.

Os olhos vermelhos dele floresceram como rosas abertas em pleno desabrochar.

— Faz diferença.

Sua voz foi baixa.

Mas, naquele instante, pareceu mais pesada do que qualquer grito.

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