Capítulo 1
Era ele.
Embora o tivesse visto apenas de longe, Vanessa o reconheceu no mesmo instante. Bastou um vislumbre para que algo dentro dela despertasse. Mesmo em meio à multidão, não havia como confundi-lo com outra pessoa.
— Vanessa.
Só de pensar nele, as memórias que tentara sufocar voltaram à tona, vívidas como se jamais tivessem sido enterradas. Uma noite abafada de verão. O ar úmido. Sua respiração quente. Um jardim de rosas em plena floração.
E aquela voz.
— Estive esperando por você.
Seu coração vacilou.
Seria uma alucinação?
Um fantasma nascido daquela noite?
Ou apenas uma lembrança cruel, persistente o bastante para persegui-la mesmo à luz do dia?
Não podia ser real.
Como ele poderia estar ali?
Os dois países estavam em guerra, e Theodore era um oficial da marinha inimiga….
— A senhorita está bem?
Uma mão pousou em seu ombro quando ela cambaleou, subitamente engolida pelas recordações.
Assustada, Vanessa se afastou e encontrou o olhar preocupado de uma desconhecida.
— Está pálida como um fantasma, senhorita. Trabalho naquele hospital ali.
A mulher vestia um uniforme de enfermeira e tinha uma voz clara e agradável.
Vanessa abaixou rapidamente a aba do chapéu.
A essa altura, até mesmo as pessoas que passavam pela rua movimentada começavam a observá-las com curiosidade.
— Estou bem. Obrigada.
— Não parece estar. Espere um momento. Vou buscar ajuda…
— Não. Preciso ir.
Seu sotaque havia sido convincente?
Já não importava.
Sem perder tempo, Vanessa retomou o caminho, acelerando os passos enquanto se afastava da rua do mercado.
Precisava voltar para casa.
Primeiro, tinha de enviar uma mensagem ao Marquês de Winchester para confirmar os preparativos da partida de Amiens.
Se isso não fosse possível…
Então precisaria colocar seu filho em segurança antes de qualquer outra coisa.
— Ah!
Como sempre, o azar parecia gostar de insistir.
Seu pé encontrou uma pedra solta no calçamento, e ela caiu para a frente.
A sacola de papel que carregava se rasgou ao atingir o chão, espalhando as compras pelas pedras sujas da rua.
Batatas.
Pão.
E a preciosa lata de leite em pó que conseguira comprar com tanta dificuldade.
A lata rolou pela rua, girando sem parar, até bater contra a bota impecavelmente polida de um oficial que vinha na direção oposta.
Vanessa, que recolhia desesperadamente as batatas espalhadas, congelou.
Por quê?
A simples visão daquelas botas trouxe de volta lembranças que ela acreditava terem ficado para trás.
Num instante, já não estava naquela rua miserável.
Estava novamente no jardim daquela estação distante.
O aroma de sândalo.
Seu perfume favorito.
Era impossível que aquele cheiro estivesse presente naquele beco imundo.
Ainda assim, ela podia senti-lo.
Vanessa manteve a cabeça baixa, incapaz de erguer os olhos.
Pelo canto da visão, viu o homem se abaixar com elegância para apanhar a lata caída.
Então o silêncio se instalou entre eles.
Um silêncio pesado.
Sufocante.
— Lady Vanessa.
Ao ouvir seu nome, ela sentiu o corpo inteiro enrijecer.
A voz dele carregava uma leve incredulidade, como se nem ele próprio acreditasse no que via.
Ah.
Era sempre estranho quando uma suspeita vaga se transformava em realidade diante de seus olhos.
Lentamente, Vanessa reuniu coragem para erguer o rosto.
E lá estava ele.
No fim do beco.
Iluminado pela luz suave do sol que atravessava os espaços entre os edifícios envelhecidos.
Theodore.
Seu usurpador.
Seu belo mentiroso.
O homem que ela deixara para trás naquele jardim tantos anos atrás.
— Eu pensei… pensei que estivesse perdendo a razão.
Um sorriso torto surgiu em seus lábios vermelhos.
Sua pele estava um pouco mais bronzeada do que ela se lembrava.
Seu porte parecia mais imponente agora.
O uniforme de oficial da marinha ajustava-se perfeitamente ao seu corpo.
Os olhos pareciam mais afiados.
O rosto, mais maduro.
Mais masculino.
E, apesar de tudo, continuava perigosamente bonito.
Bonito o bastante para fazer seu coração vacilar mesmo depois de todos aqueles anos.
Bonito o bastante para despertar sentimentos que deveriam estar mortos.
— Diga-me… por que está aqui? E nesse estado?
Os olhos dele pareciam transbordar emoções conflitantes.
Mas, pouco a pouco, tudo aquilo se transformou em uma zombaria tranquila.
Vanessa fechou os olhos.
Não conseguia encará-lo.
Por que estava ali?
Por que havia acabado daquela forma?
Para responder a isso, precisaria voltar muito mais longe.
Ao começo de tudo.
A felicidade costuma chegar sem fazer alarde.
Às vezes, ela entra em nossa vida tão silenciosamente que sequer percebemos sua presença.
A desgraça, porém, é diferente.
Ela anuncia sua chegada com uma clareza cruel.
E raramente vem sozinha.
Vanessa Cyrene Somerset aprendeu essa lição na primavera, apenas duas semanas antes de completar treze anos.
— Tudo será diferente a partir de agora.
O homem, que permanecera calado durante quase toda a viagem, falou pela primeira vez quando o trem entrou na Estação de Bath.
Vanessa desviou o olhar da janela e voltou-se para ele.
Era o homem que havia se apresentado como advogado do Sr. Wyatt.
O Sr. Wyatt, seu tio distante, mandara buscá-la logo após o funeral de seus pais.
— O título de Conde de Somerset passará para o Sr. Wyatt, Vanessa. Você não herdará a propriedade nem terá qualquer direito sobre o nome da família. A partir de agora, o Sr. Wyatt assumirá todas as responsabilidades e direitos legais sobre você.
— Todos os direitos legais?
— Todos.
O advogado assentiu.
— O que você come, o que veste, onde mora, quanto dinheiro pode gastar… tudo dependerá dele.
Vanessa permaneceu em silêncio.
— Inclusive seu casamento, quando atingir a idade apropriada.
Por um instante, o rosto jovem de Vanessa perdeu ainda mais cor.
Vestida de preto, em luto pelos pais recém-falecidos, ela parecia ainda mais frágil.
O advogado a observou com curiosidade.
Não esperava que uma menina de apenas treze anos compreendesse o verdadeiro significado daquelas palavras.

