Capítulo 20

— Você realmente não tem jeito.

O tom de Yvonne estava particularmente firme, fazendo Ethan sentir uma pontada no orgulho.

Por que ela é tão inflexível?

De repente, seu olhar caiu sobre o bordado do lenço. O emblema da família Polshared estava costurado em fios dourados.

Ele imaginou quanto cuidado tinha sido necessário para fazer cada ponto.

— Por que você se casou com um homem desses? Eu sei que foi um casamento por conveniência, mas deve ter havido algum motivo para você escolhê-lo.

A pergunta pareceu inesperada; o rosto de Yvonne demonstrou desconforto.

Ethan, sabendo que normalmente ela apenas cerraria os lábios em situações assim, abaixou o olhar sem esperar uma resposta.

Então ela falou.

— …Porque eu o amava.

— Você realmente amava aquele homem?

Ethan estava prestes a perguntar como isso era possível, mas então se lembrou da figura alta de Carlisle e de suas habilidades excepcionais, que ninguém conseguia igualar.

Ele já tinha visto mais de uma vez as mulheres perderem a compostura sempre que Carlisle aparecia usando uniforme, com aquela aparência distinta tão diferente da sua própria.

— Você realmente se apaixonou à primeira vista pela aparência impecável dele?

— Não. Eu gostava dele muito antes disso.

— Antes?

Ele tinha ouvido dizer que Earl Sellus e sua esposa a criaram de forma tão protegida que ela raramente saía de casa.

Ela tinha tido contato com Carlisle antes disso?

Percebendo a curiosidade de Ethan, o olhar de Yvonne tornou-se distante.

— Foi há muito tempo. Eu sempre tive sentimentos por ele.

Seus olhos pareciam tímidos e amargos ao mesmo tempo, brilhando suavemente.

Por alguma razão, Ethan perdeu completamente a vontade de continuar aquela conversa.

— Ai.

— O que foi? Está ardendo?

Fingindo sentir dor, Ethan soltou um som, e Yvonne, assustada, retirou a mão.

— Arde mais do que eu imaginava. Na verdade, aquela soldado… o tapa dela foi bem forte.

— É por isso que você não deveria machucar as pessoas sem pensar. Fique parado.

— Bem…

O rosto de Ethan congelou no meio da frase, ainda com um sorriso.

De repente, Yvonne se inclinou para mais perto, formou um pequeno círculo com os lábios e soprou suavemente sobre sua bochecha.

O aroma doce de flores misturado ao perfume natural dela fez cócegas em seu nariz.

Perfume? Não…

Era uma fragrância que ele nunca tinha sentido em nenhuma mulher.

Quando percebeu que era o cheiro natural da pele dela, Ethan engoliu em seco e balançou o lenço na mão.

— Posso ficar com este lenço? Parece pertencer a alguém, mas eu o quero.

— Ele não tem dono.

Ele viu o emblema, mas não comentou nada e simplesmente guardou o lenço.

— Então, qual é o seu objetivo daqui para frente?

— Eu já disse.

— Não, não isso. Você.

O dedo reto de Ethan apontou para Yvonne.

Ela hesitou por um longo momento, sem saber se deveria responder, mas por fim falou.

— …Vou partir. Para o Novo Continente.

— Você vai embora numa época como esta?

Houve um período, cerca de cinco ou seis anos atrás, em que rumores sobre minas de ouro e riquezas instantâneas levaram muitas pessoas a comprar passagens e partir.

Isso foi antes de a bolha de investimentos estourar e a economia entrar em colapso.

— Você não sabe como as coisas estão agora. É perigoso ir. As nações estão tão desesperadas para tomar os recursos umas das outras que uma guerra pode começar a qualquer momento. Mesmo que a bolha do Novo Continente tenha estourado, ainda existem países cobiçando aquela região.

— Não me importo. Qualquer lugar, desde que não seja aqui.

Apesar do aviso dele sobre o risco de acabar envolvida em uma guerra, Yvonne apenas observou o rio correndo tranquilamente e murmurou:

— Assim que tudo estiver resolvido.

— Não sei o que significa esse “tudo”, mas isso me parece estranho. Você não precisa deixar o país. Se está preocupada com a reação do seu marido, basta contratar um advogado com um alto índice de vitórias. Nem mesmo Carlisle poderia…

— Já está resolvido.

Os dedos brincalhões de Yvonne pressionaram a bochecha de Ethan antes de se afastarem.

Percebendo que ela não queria continuar o assunto, Ethan permaneceu em silêncio.

***QUEBBRA***

Como a atenção pública sobre eles havia aumentado ultimamente, Yvonne recusou a oferta de Ethan de levá-la até em casa e desceu no início da Cadney Road.

Ela caminhou pela rua elegante como se estivesse em um passeio, trocando olhares constrangidos com alguns vizinhos, que rapidamente se recolheram para dentro de suas casas.

Arrastando o corpo cansado até a residência, foi recebida pela escuridão de uma casa sem luzes.

— Jane, cheguei.

Ela falou enquanto tirava o casaco, mas Jane, que normalmente já teria corrido para recebê-la, não respondeu.

Onde ela foi?

Sem pensar muito nisso, Yvonne acendeu as luzes.

E congelou.

A casa estava um caos.

Como se um ladrão tivesse invadido o local, móveis e sofás estavam virados.

No quarto, o guarda-roupa e as gavetas estavam completamente abertos.

Tudo estava vazio.

Não havia um único vestido ou joia, exceto algumas coisas que ela ainda não tinha empacotado.

O que aconteceu?

Voltando para a sala, ela se dirigiu à entrada para pedir ajuda.

Então percebeu um movimento atrás de si.

Rangido.

A porta se fechou às suas costas.

Uma voz gelada ecoou pelo ambiente.

— Yvonne, minha filha. Você tem passado bem?

Yvonne se virou lentamente.

Seus olhos arregalados tremiam violentamente.

Saindo da cozinha, surgiu um homem corpulento de meia-idade acompanhado por três jovens robustos.

Seu coração afundou.

— Pa… pai.

O homem idoso cercado pelos brutamontes era Earl Bernard Sellus.

— Como o senhor está aqui…

Mesmo olhando para ele, ela não conseguia acreditar.

Sua voz tremia.

Sua cabeça girava.

Como ele pode estar aqui?

O Earl, chefe da Sellus Trading Company, tinha partido para o Reino de Asnesh um mês antes a negócios.

Ela tinha confirmado isso várias vezes e sabia que ele não deveria voltar pelos próximos seis meses.

Recuando assustada, Yvonne segurou o encosto do sofá.

Um gemido veio da cozinha.

Um dos homens arrastou algo para dentro da sala e o jogou no chão.

— Mmmph!

— Jane!

Ela correu em direção à criada, que estava amordaçada no chão.

Mas o homem que a havia arrastado bloqueou seu caminho.

— É inútil. Fique quieta.

Ao ouvir aquela ordem, Yvonne mordeu o lábio e lançou um olhar furioso para o homem que acabara de chamar de pai.

— Como ousa fazer isso na casa de outra pessoa? Solte Jane imediatamente!

— Insolente. Como ousa tentar truques tão desprezíveis?

O Earl retirou o chapéu cilíndrico e bateu a bengala no chão.

Sua mão apertava o cabo de marfim esculpido em forma de leão, um adorno feito para exibir sua riqueza.

Seus olhos fundos brilhavam de desprezo.

— O que estão esperando? Levem-na.

Ao comando dele, dois homens agarraram os braços de Yvonne pelos dois lados.

Ela lutou desesperadamente para se libertar.

— Soltem-me! Eu não vou. Nunca voltarei para aquela casa!

Yvonne reuniu todas as suas forças para escapar.

Se fosse levada para a mansão, sabia exatamente quais horrores a aguardavam.

Ela se debateu tanto que derrubou uma pequena mesa lateral com um estrondo.

O rosto do Earl escureceu enquanto segurava a maçaneta da porta para sair.

Decidindo que já tinha tido o suficiente, ele lançou a bengala longe.

O som dela atingindo o chão ecoou alto.

— Então faremos isso aqui mesmo.

O velho começou a tirar as luvas.

Então sua mão enorme voou na direção do rosto de Yvonne.

Estalo.

Estalo!

Em meio à respiração pesada e irregular, o som violento dos tapas continuou ecoando repetidamente.

A mão impaciente do Earl atingia sem misericórdia as bochechas de Yvonne.

— Como ousa me enganar?

— Hhic…

Yvonne tentava desviar da palma brutal do Earl, mas os homens que seguravam seus braços bloqueavam todos os seus movimentos.

— Eu me humilhei diante daquele moleque para fazer de você uma Duquesa, e você entrega os papéis do divórcio?

A voz trovejante do Earl explodiu junto ao ouvido de Yvonne enquanto sua cabeça era lançada de um lado para o outro pelos golpes.

Parecia que seus tímpanos iriam estourar.

O gosto de sangue que escorria de seus lábios partidos era amargo.

Ela já tinha se acostumado à dor.

Mas o fato de estar sendo espancada sem poder reagir pelo homem que a trouxe ao mundo era devastador.

As acusações que ouvia todos os dias havia mais de dez anos nunca mudavam.

Tudo o que Yvonne recebia de seu pai biológico eram maldições indescritíveis e espancamentos unilaterais como aquele.

Yvonne não era a filha amada do Earl, como a sociedade acreditava.

Era uma filha ilegítima, tratada até pior do que uma criada dentro de casa.

Se ele fosse um estranho, talvez fosse melhor.

Mas sofrer violência justamente por compartilhar metade do sangue dele era algo horrível.

Aos oito anos, após perder a mãe para uma doença, Yvonne passou quatro anos vivendo nas ruas, até que um conhecido compassivo a ajudou a entrar em um orfanato.

Aquele único ano no orfanato tinha sido o período mais feliz de sua vida.

E também a base da resistência que possuía agora.

Até que aquele pai monstruoso apareceu para buscá-la exatamente um ano depois.

Depois de ser arrastada para o Condado Sellus por Bernard, Yvonne teve de suportar abusos disfarçados de disciplina por parte do Earl e da Condessa.

Temendo rumores, o casal praticamente a mantinha aprisionada.

Quando era criança, tudo o que podia fazer era suportar a violência.

Sem sequer poder ir a um hospital, aplicava remédios sozinha e esperava os hematomas desaparecerem, sem ninguém para ajudá-la.

O casamento não mudou muita coisa.

Preocupado que ela deixasse de obedecê-lo após se casar, seu pai a obrigava a retornar à casa da família a cada dois meses.

E, todas as vezes, ela sofria exatamente a mesma disciplina cruel que suportava antes do casamento.

Chave Pix
6159527@vakinha.com.br
0 0 votos
Deixe Suas Estrelas!
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado

Termos de Uso

Ao acessar o PandaSuki, você concorda com estes termos de uso e todas as leis e regulamentos aplicáveis.

1. Aceitação e Uso do Serviço

  • O conteúdo é disponibilizado apenas para uso pessoal e não comercial.

  • A leitura é permitida apenas pelo nosso site.

2. Conteúdo e Propriedade Intelectual

  • Todo o conteúdo disponibilizado é para fins de entretenimento e divulgação. As obras são propriedade de seus respectivos autores e editoras.

  • As traduções são um trabalho feito por fãs para a comunidade.

  • Respeitamos os direitos autorais. Para solicitar a remoção de conteúdo (DMCA), entre em contato conosco.

3. Conduta nos Comentários

  • É proibido publicar spam, conteúdo ilegal, ofensivo ou de ódio.

  • Reservamo-nos o direito de moderar comentários e banir usuários infratores.

4. Anúncios e Links Externos

  • O site contém anúncios para se manter gratuito. Não nos responsabilizamos pelo conteúdo de links externos.

  • A sua segurança ao clicar em anúncios é de sua responsabilidade.

5. Modificações

  • Reservamo-nos o direito de modificar estes termos a qualquer momento.
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x