Capítulo 4
Yvonne compreendeu imediatamente o significado daquelas palavras.
Ela entrelaçou as mãos sobre o colo.
O homem que voltava a ver após uma semana mantinha o mesmo rosto severo de sempre.
Seu olhar era tão frio quanto seus traços afiados.
— Um aborto espontâneo, é mesmo…?
Os olhos de Yvonne, que estavam firmemente fechados, tremularam levemente.
— Você fez isso. Meu filho morreu por sua causa.
Carlisle lançou-lhe um olhar enviesado.
Os olhos cinzentos que a encaravam eram gelados.
— Um aborto espontâneo de uma criança que nunca existiu. Que tipo de encenação é essa?
Mais do que se perguntar como a edição extraordinária do jornal havia sido publicada tão rapidamente, o que realmente chamava sua atenção era o motivo apresentado para o divórcio.
— Está dizendo que estou mentindo?
Parecia que ele enxergava tudo aquilo apenas como uma forma de desafio.
Uma tentativa de afrontá-lo.
Era tão típico de Carlisle que deixou um gosto amargo em sua boca.
— Se insiste que estava grávida, por que não apresenta o corpo da criança morta como prova?
— Como pode dizer uma coisa dessas?
Yvonne estremeceu.
Ela ergueu os olhos e encarou Carlisle com indignação.
Seus lábios tremiam como se tivesse acabado de ouvir algo profundamente ofensivo.
Mas Carlisle continuava olhando para ela com absoluta indiferença.
Apesar da proteção quase obsessiva do Conde Sellus, Yvonne nunca fora tão frágil quanto uma flor cultivada em estufa.
Na verdade, ela lembrava aquelas jovens aristocratas habilmente educadas para o casamento, determinadas a conquistar um bom marido.
E também possuía persistência suficiente para alcançar seus objetivos.
Isso não o incomodava.
O problema era que sua esposa sempre desejava demais.
“Vamos juntos.”
“Eu não posso ir também?”
Se não suportava ficar sozinha ou simplesmente gostava de importunar os outros, ele não sabia.
Mas bastava sentir-se minimamente ignorada para ficar emburrada ou fugir para a casa dos pais.
“Não é que eu queira voltar para a casa dos meus pais. Os criados de Glade Hills me ignoram. Eles não gostam de mim. Não me tratam como a senhora da casa, mas como alguém que apenas está morando aqui de favor.”
Ela possuía todos os defeitos típicos de uma dama aristocrática criada com excesso de carinho.
E agora insistia em coisas que sequer eram verdadeiras.
Sua personalidade imprevisível já havia causado inúmeros problemas.
E, toda vez, ela fazia exatamente a mesma expressão magoada que exibia agora.
— Tanto a gravidez quanto o aborto espontâneo são reais.
— Ha…
O olhar de Carlisle esfriou ainda mais diante daquela mentira descarada.
No início do casamento, ela costumava pedir desculpas rapidamente quando cometia algum erro.
Mas havia mudado muito.
— Não exagere tanto. Parece que finalmente perdeu o juízo. Você realmente acreditou que uma mentira tão absurda funcionaria?
Ele atirou o maço de jornais sobre a mesa.
Ao ver a manchete sensacionalista estampada na primeira página, Yvonne fechou os olhos com força.
— Quando exatamente eu bati em você? Gostaria de me explicar?
— ……
Yvonne permaneceu em silêncio.
Talvez não soubesse o que responder.
Era exaustivo lidar com alguém que crescera tão mimada.
Ela causava problemas.
Sobrecarregava as pessoas ao redor.
E nunca resolvia as consequências de seus próprios atos.
Por isso ele jamais sentira necessidade de procurá-la pessoalmente.
Se quisesse, poderia simplesmente ignorar o escândalo.
Mas já que estava ali, preferia encerrar aquilo de uma vez.
— Falsa acusação. Esse é o nome do crime cometido por quem insiste em algo que não aconteceu.
Os ombros de Yvonne estremeceram diante da ameaça pronunciada em tom calmo.
— Também posso processá-la por difamação. Acha mesmo que não sou capaz de entrar numa briga suja?
— ……
Observando seus olhos vacilarem, ele continuou.
— Não importa o que tente fazer, seus adorados pais serão os que mais sofrerão por causa disso. Ou melhor… o que acha que o casal que está atualmente no país vizinho dirá quando ler este artigo?
A expressão até então apática de Yvonne perdeu toda a cor.
Como esperado.
Ele havia atingido seu único ponto fraco.
— Se não quer acabar na prisão, corrija isso. É o mínimo de consideração por ter ocupado o papel de minha esposa durante todo esse tempo.
Carlisle observou com satisfação a expressão digna dela desmoronar.
Mas, após um longo silêncio, Yvonne finalmente falou.
— …Você sempre foi assim.
As sobrancelhas dele se moveram discretamente.
Não conseguiu compreender o significado daquelas palavras.
Então ela continuou.
— Você nunca me enxergou como sua esposa. Sempre me tratou como se eu fosse apenas um parceiro de negócios. É indiferente a tudo o que faço. Só calcula o que pode ganhar, aconteça o que acontecer. Você é um homem egoísta.
Por um instante, Carlisle ficou sem palavras.
Aquilo soava mais como uma reclamação do que como uma acusação.
Nem sequer era veneno.
Mas comparado à atitude passiva e quase mecânica que ela demonstrara nos últimos três anos, aquilo era uma mudança.
Até mesmo na cama ela sempre fizera questão de se controlar.
Era obcecada por compostura.
Por aparência.
Quando ela havia mudado tanto?
No primeiro ano de casamento, costumava conversar alegremente.
Com o passar do tempo, tornou-se cada vez mais silenciosa.
Cada vez mais retraída.
A partir do segundo ano, começou a buscar conforto em amantes e a gastar dinheiro de maneira extravagante.
Mas ele nunca interferiu.
Na verdade, esperava que aquilo a ajudasse a perder o interesse nele como marido.
Quanto ao terceiro ano…
Mal conseguia se lembrar.
Depois daquele incidente ocorrido seis meses atrás, quase não haviam trocado palavras.
Mantiveram distância um do outro durante tanto tempo que vê-la expressar ressentimento agora parecia estranho.
— Foi seu pai quem a entregou a este homem egoísta. Se quer culpar alguém, culpe-o.
— Eu sabia que diria isso. Você sempre foi esse tipo de pessoa.
Yvonne ergueu os olhos.
Soltou lentamente o lábio inferior que vinha mordendo.
— Está bem. Vou alterar o motivo do divórcio, exatamente como deseja.
Os lábios de Carlisle, que começavam a se curvar em satisfação, voltaram ao normal.
Não havia mais qualquer vestígio de apego no olhar dela.
Era a mesma expressão que tinha exibido no dia em que apareceu em seu escritório exigindo o divórcio.
Por algum motivo, aquilo o incomodou.
Então ele respondeu friamente:
— Certifique-se de fazer isso corretamente. Da mesma forma que vazou a informação para os jornalistas. Se fizer isso, pagarei pensão suficiente para que viva confortavelmente pelo resto da vida. Incluindo esta casa.
— …Não preciso disso. Apenas me dê esta casa.
Carlisle estreitou os olhos.
Sua esposa sempre demonstrara interesse por bens materiais.
Por isso, aquela exigência tão modesta parecia suspeita.
— Se tentar me enganar novamente, não me culpe se eu retirar todos os investimentos da Sellus Trading Company.
— Isso não tem nada a ver comigo. Faça o que quiser.
A resposta seca soou estranha.
Normalmente, bastava mencionar a Sellus Trading Company para deixá-la nervosa.
Mas Carlisle decidiu encerrar a conversa ali.
Levantou-se.
No dia seguinte, todos os jornais de Aerondo publicaram a mesma notícia.
[A alegação de gravidez e aborto espontâneo revelou-se uma falsa declaração da Duquesa.]
[Consumida pelo remorso por não conseguir gerar um herdeiro, a Duquesa sofreu de depressão, apresentou um motivo falso para o divórcio, mas logo reconsiderou sua atitude, revelou a verdade e renunciou voluntariamente à posição de Duquesa que não merecia ocupar…]
O artigo de correção ocupava grande destaque.
Havia até mesmo algo que parecia ser uma entrevista direta.
Nela, a Duquesa explicava que tomara uma decisão equivocada devido à depressão causada por sua incapacidade de ter filhos durante o casamento.
A opinião pública dividiu-se claramente em dois lados.
Por um breve momento, muitos demonstraram simpatia por ela.
Mas a compaixão logo esfriou.
Outros, porém, compreendiam a dor de não conseguir ter um filho.
De qualquer forma, sua decisão de partir por sentir-se culpada diante do marido parecia ter colocado o divórcio definitivamente em andamento.
Até que, três dias depois, uma notícia completamente diferente se espalhou por Aerondo.
[Yvonne Sellus dá entrada nos papéis do divórcio — agora é considerada a noiva mais cobiçada da capital.]
[A ex-Duquesa de Polshared, que recentemente iniciou seu processo de divórcio, vem atraindo atenção incomum. Pretendentes pertencentes às mais influentes famílias nobres de Aerondo estão disputando sua atenção…]
Por alguma razão, Yvonne havia se tornado o partido mais desejado da capital.
E entre os inúmeros pretendentes havia um nome que Carlisle jamais gostaria de ver.

