Capítulo 25
Ethan percebeu que seu julgamento estava completamente errado quando ficou frente a frente com Carlisle, um homem que ele acreditava jamais se daria ao trabalho de procurá-lo pessoalmente, acontecesse o que acontecesse.
Ele nunca imaginou que Carlisle apareceria de repente para provocar uma discussão.
— Bem, logo descobriremos. Relaxe um pouco essa expressão. O Duque Pavron Polshared sempre sorria com tanta facilidade, mas é tão difícil ver você sorrir.
No instante em que Ethan mencionou o nome de seu pai, a expressão de Carlisle endureceu visivelmente.
— E você? Seu gosto mudou? Achei que preferisse mulheres exuberantes, como sua mãe, a Rosa de Aerondo.
— Pode-se dizer que sim, mas a Yvonne é diferente. Conhecer uma mulher que foge completamente do meu tipo não é tão ruim. Quem sabe isso não acaba se tornando algo verdadeiro?
— Você? Sentimentos verdadeiros? Você, filho de Elaine Inglebert?
Carlisle perguntou com o rosto cheio de desprezo, como se tivesse acabado de ouvir o maior absurdo do mundo.
O semblante de Ethan se contorceu de irritação.
Para qualquer outra pessoa, a súbita mudança em sua expressão teria sido intimidadora.
Mas não para Carlisle, que não pareceu minimamente impressionado.
Ao ver Ethan cerrar o punho, Carlisle ergueu levemente o queixo em provocação.
— É engraçado alguém como você, que usa as pessoas e depois as descarta sem pestanejar, ainda mais sendo tão parecido com Elaine Inglebert, dizer uma coisa dessas.
— Ei, Carlisle. Não é muito elegante envolver pessoas falecidas nessa conversa.
— Foi você quem trouxe um falecido à conversa primeiro.
Diante da resposta de Carlisle, Ethan bebeu o restante do uísque como se tentasse esfriar a própria irritação.
Mencionar o falecido Duque Polshared não lhe trouxe vantagem alguma.
Pelo contrário.
Apenas deu a Carlisle um motivo para revidar e o deixou ainda mais irritado.
— Sério… nós realmente não combinamos.
— Acho que essa fala deveria ser minha.
Ethan soltou uma risada amarga.
— É curioso. O mundo inteiro acredita que somos grandes amigos, quando, na verdade, acontece exatamente o contrário. Sempre que nos encontramos, é desagradável.
Sem qualquer vestígio de sorriso, Carlisle encarou Ethan com um olhar frio.
— Você não precisa se preocupar comigo. Apenas pare de se meter nos meus assuntos.
— Você realmente sabe estragar o humor de qualquer um.
Ethan tirou um cigarro do bolso, acendeu-o com o isqueiro que um funcionário lhe entregou e estreitou os olhos enquanto dava uma longa tragada.
— Você ainda continua obcecado com a ideia de que todo o seu infortúnio aconteceu por minha causa?
— E você ainda continua embriagado pelo complexo de inferioridade que faz querer me superar?
A voz de Carlisle ficou visivelmente mais grave, como se aquelas palavras não tivessem qualquer peso para ele.
Se Yvonne era conhecida hoje como o Lírio, então, doze anos antes, havia existido uma mulher conhecida como a Rosa.
Naquela época, Elaine Inglebert, mãe de Ethan, encantava inúmeros homens de Aerondo com sua beleza.
Por onde passava, seus longos cabelos dourados deixavam um perfume delicado.
Muitos homens se apaixonaram por ela.
Entre eles, o pai de Carlisle.
Pavron Polshared, que vivera toda a vida como um soldado disciplinado, apaixonou-se tão profundamente pela esposa de outro homem que acabou abandonando a própria família.
Um militar leal, que sempre viveu segundo as regras, não conseguiu esquecer aquela mulher e, por fim, cometeu adultério, provocando um enorme escândalo que terminou em tragédia.
A sociedade abafou todos os rumores.
Mas Carlisle sabia que tudo havia começado por causa daquele caso amoroso.
E Ethan também.
Como nobres, fingiam que nada havia acontecido.
Mas, entre os dois, a relação jamais deixou de ser desagradável.
Carlisle esvaziou o copo, abriu uma cigarreira de prata que carregava no bolso, retirou um charuto e o acendeu calmamente.
— Vamos encerrar isso. Como sempre fiz, posso fingir que nada aconteceu.
— E exatamente o que você deixou passar para alguém como eu, Duque Polshared?
— Bermingwell.
Ao ouvir aquela única palavra pronunciada em voz baixa, os lábios de Ethan se curvaram, como se fingisse não saber do que Carlisle falava.
Mas Carlisle percebeu que seus olhos não sorriam.
Enquanto soltava lentamente a fumaça do charuto, acrescentou:
— Você é bastante diligente enviando ratos para todo lado. Fico imaginando até quando terei de continuar fingindo que não percebo. Você realmente cobiça tanto assim tudo o que é meu?
— Veja bem, Carlisle. Quando misturamos questões pessoais com negócios, tudo fica complicado.
— Quem foi que começou?
Um pesado silêncio tomou conta dos dois.
Bang! Bang!
A música mudou de ritmo, as dançarinas passaram a se mover com ainda mais intensidade e uma sequência de fogos de artifício explodiu ao fundo.
Mas nem mesmo todo aquele barulho foi capaz de quebrar a tensão entre eles.
Os dois permaneceram de olhos fixos um no outro, travando uma feroz batalha psicológica.
— Você abandonou a carreira militar depois de poucos anos e entrou para o ramo de armamentos… Muito bem, posso aceitar isso. Mas lucrar usando informações roubadas é um limite que eu não aceito.
— Mais estranho ainda é você, Duque Polshared, fingir que não sabe de nada e agir normalmente… mas perder completamente a compostura quando o assunto é sua esposa.
Mesmo diante daquela provocação afiada, Carlisle não demonstrou qualquer reação.
— Continue perseguindo qualquer mulher que quiser. Só pare de cobiçar a minha apenas porque um dia ela foi minha.
— Ha…
Ethan soltou uma risada seca, sentindo o humor piorar.
Jamais imaginou que Carlisle iria procurá-lo apenas por causa dos rumores envolvendo Yvonne.
Muito menos que diria uma coisa daquelas.
— O quê? Está arrependido agora? Está incomodado porque estou tentando me aproximar da mulher de quem você gostava?
“Gostava.”
Aquela palavra soava completamente estranha para Carlisle.
Yvonne nunca tivera qualquer importância sentimental para ele, exceto naquele único dia em que se declarou.
Ethan percebeu a mandíbula de Carlisle se contrair.
Lançou um rápido olhar para o funcionário parado junto à entrada e colocou o copo sobre a mesa.
— Não existe nada mais feio do que alguém incapaz de aceitar um término. Sendo assim, vou me retirar… Tenho um encontro com Lady Yvonne.
Sem esperar qualquer resposta, Ethan se levantou, jogou o casaco sobre o ombro e sacudiu-o levemente.
— Vou fazer deste um encontro inesquecível. A bebida é por minha conta, então aproveite.
Carlisle observou Ethan se afastar em meio à multidão animada.
Sua mão foi se fechando lentamente.
Ele soltou um longo suspiro e fechou os olhos.
Permaneceu imóvel por alguns instantes, mergulhado em pensamentos.
Então moveu discretamente o dedo indicador.
Henry aproximou-se imediatamente e fez uma reverência.
— Marque um encontro agora mesmo. Diga que é urgente.
***quebra***
— Toc! Toc!
— Lady Yvonne.
Mesmo depois de tocar a campainha, o visitante continuou batendo à porta.
Era a voz de Ethan Inglebert.
— Eu sei que você está aí dentro. Deixe-me vê-la só por um instante.
Yvonne caminhava de um lado para o outro pela sala, com as mãos entrelaçadas.
Mordeu o lábio.
Ela fingia não estar em casa, mas, naquela noite, Ethan estava mais insistente do que nunca.
Depois de ouvi-lo chamando seu nome repetidas vezes, respondeu em voz baixa, através da porta fechada.
— Eu já disse… ultimamente não tenho passado muito bem.
— Vai levar só um minuto. Por favor, abra a porta.
Yvonne olhou seu reflexo no espelho.
Os hematomas haviam diminuído bastante após vários dias, mas ainda restavam marcas discretas.
Como já era noite, usando um chapéu ninguém perceberia à primeira vista.
Mas, se alguém observasse com atenção, os vestígios ainda seriam visíveis.
Seria difícil inventar uma desculpa convincente.
Bang!
— Lady Yvonne.
Ethan continuava batendo.
Ele sempre foi tão insistente assim?
Yvonne começou a pensar que talvez tivesse acabado envolvendo Ethan em um problema desnecessário.
Assustada com as batidas, Jane andava de um lado para o outro, inquieta.
— O que vamos fazer, senhora? Parece que ele não pretende ir embora.
— Eu mesma vou falar com ele.
Se continuasse ignorando-o, acabariam passando a noite inteira daquela forma.
Yvonne colocou o bonnet que Jane lhe entregou.
Jane aplicou delicadamente um pouco de pó para disfarçar os hematomas, e Yvonne puxou os longos cabelos para a frente, escondendo parte do rosto.
Somente depois de todos aqueles preparativos ela abriu a porta, apenas uma pequena fresta.
— Ethan, já está tarde. Aconteceu alguma coisa urgente?
Espiando apenas o rosto pela abertura da porta, com os olhos baixos, Yvonne fez a pergunta.

