Capítulo 26

Ethan permaneceu em silêncio enquanto observava a mulher que, normalmente, sustentava seu olhar com confiança, agora mantinha a cabeça baixa.

Como não havia luz, era difícil distinguir o rosto de Yvonne.

— Você pode me mostrar seu rosto? Quero conversar olhando nos seus olhos.

— ……

Ethan continuou encarando a mulher, que permaneceu em silêncio.

Era estranho que uma mulher, dentro de casa e àquela hora da noite, saísse usando um chapéu. Além disso, sua insistência em esconder o rosto fez Ethan acreditar que sua intuição estava correta.

— Você sabe que horas são? Já passam das dez da noi… Ei…

De repente, Ethan puxou a porta que Yvonne segurava.

Ela perdeu o equilíbrio e acabou atravessando a soleira, cambaleando para a frente.

Ethan segurou sua mão.

Ao mesmo tempo, a manga de sua roupa escorregou até o pulso.

Rapidamente, ele a ergueu.

— Ei, o que está fazendo…?

— ……

Assustada, Yvonne seguiu a direção do olhar de Ethan e ficou paralisada.

Ele observava atentamente o hematoma escuro na parte interna de seu braço fino.

Os olhos de Ethan se estreitaram, tomados pelo desagrado ao ver a marca azulada tão evidente sobre sua pele pálida.

— Ha… O que é isso? Alguém bateu em você?

— …Isso não é da sua conta.

Ela tentou abaixar rapidamente a manga.

Mas Ethan segurou seu outro braço e ergueu a manga dele também.

— Ei, Marques.

— O que é “isso” que você não pode me contar?

Sem saber como escapar da insistência dele, Yvonne inventou uma desculpa.

— Eu me machuquei quando caí.

— A honesta Yvonne agora está mentindo. Como alguém consegue hematomas assim apenas por cair?

Ethan encarou Yvonne, que mentia de forma tão evidente, com uma expressão impossível de interpretar.

A confiança habitual havia desaparecido.

Seus olhos tremiam de desconforto enquanto evitava encará-lo.

‘Há hematomas antigos pelo corpo dela.’

Foi um comentário que o médico fizera casualmente ao examiná-la depois do aborto espontâneo.

Hematomas no corpo de uma dama da nobreza.

Na época, ele imaginou que talvez ela tivesse gostos um pouco… intensos.

Ou que tivesse se machucado ao cair quando sofreu o aborto.

Agora, finalmente compreendia o verdadeiro significado daquelas palavras.

Seu olhar tornou-se feroz.

— Foi obra do Duque Sellus?

Os olhos de Yvonne se arregalaram.

Ela abriu a boca para inventar outra desculpa, mas hesitou.

*** quebra***


O carro parou de forma um pouco brusca.

Ethan desceu imediatamente.

Assim que recebeu a notícia de que alguém havia passado pelo portão principal, um senhor idoso, impecavelmente vestido, surgiu entre os funcionários na varanda e estendeu ambas as mãos com toda a cortesia.

— Bem-vindo de volta, mestre.

— Richard. Temos visita?

Entregando o casaco ao mordomo, Ethan perguntou.

Richard, com sua expressão sempre gentil, fez um gesto em direção ao interior da mansão.

— Estão esperando pelo senhor.

— Certo.

Ethan subiu rapidamente as escadas, atravessou o corredor e entrou na sala de visitas.

Um homem usando um chapéu fedora levantou-se imediatamente e retirou o chapéu.

Ethan fez um sinal para o mordomo.

Richard fez uma reverência, dispensou todas as criadas e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.

— Então… vocês foram descobertos de novo.

Ethan caminhou tranquilamente até a parte mais ampla da sala.

Decorado segundo o gosto extravagante de sua mãe por luxo e objetos caros, o ambiente era repleto de esculturas e obras de arte que lembravam um museu.

Aquilo não era fruto de refinamento artístico.

Era pura ostentação.

Depois de atravessar o salão, Ethan retirou duas taças penduradas sobre o bar ao fundo, pegou uma garrafa de vinho da prateleira e sentou-se em frente ao homem.

A garrafa e as taças foram colocadas sobre uma mesa feita de uma pedra encontrada apenas nas minas de Corke.

— Peço desculpas. O plano de atacar durante o dia era excelente, mas Lord Carlisle apareceu e atirou nos nossos homens.

O visitante era Wayne, gerente-chefe dos mercenários pertencentes à empresa Goldlight.

— Ele percebeu nossa presença escondida na floresta e abriu fogo.

— Ele sempre teve instintos de animal.

Maldito louco.

Murmurando, Ethan serviu uísque em uma das taças e a entregou a Wayne, enquanto segurava a sua.

— Então… vocês foram descobertos?

— Felizmente usamos o método que o senhor sugeriu e conseguimos escapar. Dois dias depois prenderam homens do Asnesh Kingdom, então eles não descobrirão que fomos nós.

— Bem… eu acho que ele já sabe.

Ao recordar o que Carlisle lhe dissera no clube, Ethan finalmente compreendeu de onde vinha tamanha confiança.

Colocou a taça, ainda pela metade, sobre a mesa.

— Ele já descobriu. Perguntou sobre os feridos… e eu não consegui responder.

O rosto de Wayne endureceu diante do olhar subitamente gelado de Ethan.

— Desta vez usaremos homens ainda melhores…

— Não.

Ethan interrompeu imediatamente.

— Chega. Não mande mais ninguém atrás dele.

— Hã? Está dizendo que vai desistir agora?

Surpreso, Wayne voltou a perguntar.

Durante mais de um ano Ethan demonstrara enorme interesse pelas novas armas da Rein Kleint.

Agora desistiria de repente?

— Depois de todo o dinheiro e esforço investidos, não é um desperdício abandonar tudo agora?

— Não. Não estou desistindo.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios.

— Só quero tentar uma abordagem… um pouco mais sorrateira.

Ethan lançou uma fotografia sobre a mesa.

A pequena foto deslizou pela superfície de pedra até parar bem diante de Wayne.

— Essa não é Yvonne Polshared, esposa do Duque Polshared?

Wayne reconheceu imediatamente a mulher da fotografia.

Ethan assentiu.

— Para ser mais preciso, em breve será a ex-esposa dele.

Ele apoiou os cotovelos na mesa.

— Investigue tudo relacionado à Yvonne Sellus. Principalmente os assuntos internos da família Sellus.

Ao lembrar dos rumores recentes de que Ethan estava saindo com Yvonne, Wayne pareceu confuso.

A fama de Ethan era a de um conquistador.

Mas todas as mulheres de quem ele se aproximava pertenciam a famílias que possuíam informações úteis para os negócios.

Wayne acreditava que a aproximação da Duquessa tinha exatamente esse objetivo.

Por isso, não entendia por que Ethan queria investigar a família Sellus, e não a família Polshared.

— Isso tem relação com os nossos negócios?

— Claro que tem.

O vinho tinto deslizou lentamente pelos lábios avermelhados de Ethan.

— Acho que isso vai render resultados inesperados.

Seu sorriso parecia o de um personagem saído de uma pintura.

— Muito mais do que eu imaginava.

Como deveria usar a verdade de que o nobre Lírio dos Sellus era, na realidade, uma mulher abusada pelos próprios pais?

Só de pensar nisso, já sentia uma estranha expectativa.

“Finja que não sabe.”

Quando a interrogou sobre os hematomas em seus braços, a reação de Yvonne confirmou todas as suas suspeitas.

Até onde Ethan sabia, Carlisle jamais levantaria a mão contra uma mulher.

Então o responsável só podia ser o Earl, que estivera na Lisian House naquela noite.

E também a Condessa, que havia levado aqueles lírios fatais para Yvonne.

Aquilo não era nada além de abuso.

Se essa verdade viesse à tona, as consequências seriam enormes.

Antes disso, porém, ele poderia usar essa fraqueza para abalar o Sellus Earldom.

E, por acaso, ainda tinha encontrado um plano brilhante.

— Transformar Carlisle Polshared em um completo lixo… não parece uma má ideia.

Quebra de página


Já era tarde da noite.

Com o chapéu bem abaixado sobre o rosto, Yvonne saiu de casa apressadamente acompanhada por Jane.

— Senhora, ele não está espalhando rumores estranhos, está?

— Ele prometeu que não faria isso. Então preciso confiar nele.

De todas as pessoas, ela jamais imaginou que Ethan descobriria.

Ao recordar o encontro dos dois, quatro dias antes, Yvonne mordeu o lábio.

No fim, por não saber mais o que dizer, acabou dando uma resposta vaga.

E aquilo pareceu fornecer a Ethan todas as pistas de que precisava.

Ela não imaginava que ele fosse tão perspicaz.

Mas, como haviam feito um acordo, Ethan não tinha nada a ganhar expondo aquele segredo.

Além disso, esse nem era o maior problema naquele momento.

Depois de atravessar a Cadney Road e alcançar a avenida principal, Yvonne pegou uma carruagem.

Desceu em Valley Lane.

Ao contrário das luzes brilhantes do outro lado do rio, aquela região era escura e habitada principalmente por trabalhadores que começavam a jornada antes do amanhecer.

Como fazia fronteira com a favela, homens de aparência suspeita circulavam pelas ruas.

Ao passar por alguns bares ainda abertos, alguns bêbados assobiaram.

— Ei, mocinha! Que tal beber alguma coisa? Hic…

— Ei! Está indo tão depressa para onde?

Ignorando completamente as provocações, Yvonne desviou habilmente de uma garrafa vazia caída no chão e entrou em um beco.

Pouco depois, parou diante de um prédio velho e desgastado.

Tocou a maçaneta de uma porta lateral.

Creeec…

A porta se abriu.

Um jovem de físico ágil apareceu.

Bocejando, como se tivesse acabado de acordar, arregalou os olhos ao reconhecê-la.

— Madame. Veio a essa hora?

— Desculpe. Precisamos acelerar a construção.

Conduzida para o interior, Yvonne puxou a cadeira que costumava usar sempre que visitava aquele lugar.

Sob a luz fraca da lamparina, apareceram a pele bronzeada e os cabelos ruivos do homem.

Era Luca.

Um corretor bastante influente naquela região.

Foi ele quem colocou Yvonne em contato com o jornal que publicou a notícia sobre seu divórcio e também com a construtora responsável pela obra.

Atualmente, era o encarregado do canteiro de obras.

Na faixa dos vinte e poucos anos, Luca era competente.

Mais importante ainda, era um homem íntegro.

Jamais se distraía nem mudava de ideia por conveniência.

Foi exatamente por isso que Yvonne o contratou um ano antes.

— Eu sei que não deveria pressioná-lo, Luca… mas a situação ficou urgente. Será que conseguimos adiantar o cronograma?

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