Capítulo 22

Yvonne, ainda lutando para respirar, ergueu a cabeça de repente.

— Isso quebra a promessa. O senhor não tinha concordado em não tocar nos meus irmãos? Eu fiz tudo o que quiseram.

Sua voz, carregada de ressentimento, fez o Conde soltar um bufar de desprezo.

— Irmãos? Sua garota maluca. A única família que você tem sou eu, seu pai de meio-sangue. Como ousa me responder dessa maneira?

— Já chega. Igual à sua mãe de origem miserável, você sempre zomba das pessoas. Grave bem estas palavras: resolva tudo antes que toda a sua preciosa família da Euphoria seja colocada em um navio de carga e vendida como escrava.

Depois de deixar aquele aviso cruel, o casal virou as costas.

O Conde colocou o chapéu como se nada tivesse acontecido, enquanto Denise pousou elegantemente a mão sobre o braço dele antes de ambos saírem.

Yvonne cerrou os dentes enquanto observava suas figuras se afastarem.

Quando os criados também se retiraram, um silêncio sufocante tomou conta da casa completamente destruída.

— S-senhora… hng…

Ao ver os cabelos desgrenhados e o rosto coberto de hematomas de Yvonne, Jane finalmente desabou em lágrimas.

Não havia uma única parte do corpo de Yvonne que não doesse.

Sua garganta ainda estava inchada e áspera, mas o que mais a machucava era ter sido tratada daquela forma dentro da própria casa.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

— C-como eles vieram parar aqui? Ainda faltavam pelo menos seis meses para voltarem do Reino de Asnesh…

Ao ouvir a voz trêmula de Jane, Yvonne fechou os olhos com força.

Seis meses.

Todos os seus planos para resolver tudo antes desse prazo haviam sido destruídos.

Ansiosa, lançou um olhar pela casa revirada e perguntou:

— Estou bem. Você percebeu mais alguma coisa antes de eu chegar?

— Não. Eles só ficaram furiosos por causa dos papéis do divórcio. Não pareciam saber de Euphoria.

Isso era um alívio.

Durante o último ano, Yvonne vinha preparando secretamente a mudança de seus irmãos de Euphoria.

O prédio para onde eles se mudariam ficaria pronto em apenas dois meses.

Pelo menos parecia que seu plano de transferir as crianças ainda não havia sido descoberto.

— Jane… você se machucou?

— A senhorita… hng… está sofrendo muito mais do que eu.

Yvonne acariciou delicadamente a cabeça de Jane, que provavelmente também havia sido agredida antes de sua chegada.

Ao sentir aquele gesto, Jane começou a chorar ainda mais.

Sentia vergonha.

Yvonne havia apanhado muito mais do que ela e, ainda assim, a primeira preocupação era saber se Jane estava bem.

Originalmente, Jane era uma criada da Casa Sellus e havia sido enviada junto com Yvonne para o Ducado Polshared com a missão de vigiá-la.

Ela deveria informar ao Conde e à Condessa todos os passos de Yvonne.

Mas, horrorizada com a crueldade deles, Jane acabou confessando tudo à jovem, implorando por perdão, e desde então passou a servi-la com absoluta lealdade.

Mesmo depois de ser perdoada, Jane jamais deixou de sentir que tinha uma dívida com Yvonne, que sempre colocava os outros antes de si.

— Senhora… vamos ao hospital.

— Não posso aparecer assim.

— Mas…

Mesmo depois de espancá-la daquela maneira, o Conde e a Condessa jamais levaram Yvonne ao hospital.

Limitavam-se a jogar alguns remédios para ela.

E sempre a ameaçavam: se alguém descobrisse os espancamentos, todas as crianças que ela considerava sua família seriam enviadas para um navio negreiro.

Temendo que seus irmãos fossem prejudicados, Yvonne sequer podia procurar tratamento livremente.

— Está tudo bem. Os remédios serão suficientes.

Com a ajuda de Jane, Yvonne conseguiu se levantar, franzindo o cenho por causa da dor.

Jane trouxe a caixa de medicamentos e acomodou Yvonne no sofá.

— Primeiro a senhora.

Ela trouxe um espelho e começou a passar delicadamente a pomada em seu rosto.

Ao ver os hematomas escurecendo rapidamente, precisou conter as lágrimas.

Os braços e os ombros de Yvonne estavam cobertos de marcas roxas.

As bochechas, atingidas repetidas vezes, permaneciam inchadas e avermelhadas.

Por fim, os grandes olhos de Jane se encheram de lágrimas ao contemplar aquele rosto tão machucado.

Ela não deveria chorar.

Sua senhora suportava tudo aquilo em silêncio.

Mas, ao imaginar a dor que Yvonne havia suportado, sua garganta queimava.

— Ah…

— Está doendo?

Assustada com o gemido de Yvonne, Jane enxugou rapidamente as lágrimas e passou uma toalha seca sobre a pomada.

Tocando de leve os lábios machucados, Yvonne murmurou:

— Pelo menos… foi um alívio.

— Um alívio? O quê?

Se tivesse sido levada de volta para a Casa Sellus, os espancamentos teriam continuado durante toda a noite.

Mas aquilo não era algo que pudesse ser dito depois de ter sido agredida daquela forma.

Jane a encarou, preocupada, enquanto o pequeno queixo de Yvonne tremia.

— Se eu ainda estivesse grávida… talvez tivesse acabado revelando algo que jamais deveria.

Se estivesse esperando um filho, nem mesmo o Conde teria ousado bater nela.

Mas isso não significava que deixaria de despejar palavras cruéis.

Yvonne apenas comentou que, ao menos, não precisaria ouvir aquelas ofensas.

Foi então que Jane não conseguiu mais conter o choro.

— Hng…

Pobre senhora…

O coração de Jane apertou-se de culpa ao pensar que Yvonne sequer tivera a chance de proteger o bebê que tanto desejava.

Como ela não percebeu?

Mesmo com a ausência da menstruação, Jane jamais suspeitou de uma gravidez.

Os ciclos de Yvonne sempre foram irregulares, consequência dos maus-tratos sofridos durante anos na Casa Sellus.

Na época em que Yvonne a salvou de ser espancada quase até a morte, Jane jurou dedicar toda a sua vida àquela mulher.

Engolindo o choro, enxugou o nariz dolorido e falou com firmeza:

— Senhora… vamos fugir.

— E a Euphoria?

O orfanato onde Yvonne vivera foi transferido para o Conde Bernard Sellus no mesmo instante em que ela entrou para a Casa Sellus.

No papel, tratava-se de um contrato de patrocínio.

Na prática, era apenas uma corrente para impedi-la de fugir.

Seu ponto fraco.

— Eles vão entender. A senhorita não pode continuar vivendo desse jeito.

Ao ouvir aquelas palavras entre lágrimas, Yvonne apertou suavemente a mão de Jane.

O diretor e todas as crianças da Euphoria, que sempre a acolheram sem fazer perguntas, estavam em perigo por sua causa.

Ela jamais conseguiria simplesmente abandoná-los.

— Não se preocupe. Hoje foi a última vez que permiti que me batessem.

Assim que todas as crianças estiverem em segurança, eu também deixarei este lugar.

Yvonne abriu discretamente o forro do sofá e retirou alguns documentos escondidos.

Era a escritura do prédio que estava sendo construído para as crianças da Euphoria.

E também uma passagem de navio para o Novo Continente, marcada para dali a sete meses.

Levaram todos os seus vestidos, joias e objetos de valor.

Mas não encontraram aqueles documentos.

— Quando esse dia chegar… nós finalmente poderemos viver em liberdade.

Enquanto tranquilizava Jane, Yvonne mordeu o lábio inferior ainda ensanguentado.

Quebra de página


Já passava da meia-noite.

Carlisle retornou à mansão, e o mordomo Harold aproximou-se silenciosamente.

— O Conde Sellus está aqui.

— Foi rápido.

Carlisle assentiu levemente, retirou as luvas de couro preto e seguiu adiante.

Ao entrar na sala de visitas, Bernard levantou-se apressadamente.

— Ah, você chegou.

Sem responder ao rosto ansioso do Conde, Carlisle ocupou o assento principal e afrouxou a gravata.

— Não é muito educado aparecer a esta hora sem aviso prévio.

— Perdoe-me. Era tão urgente que vim correndo do Reino de Asnesh. Ouvi as notícias… mas o que está acontecendo, meu genro?

— Não sou seu genro, Conde Sellus. O senhor disse que ouviu as notícias.

O sorriso de Bernard desapareceu ao ouvir aquela resposta seca sobre o divórcio.

Antes, ao menos, o Duque ainda o tratava como sogro.

Agora, não demonstrava o menor motivo para manter qualquer respeito.

Ignorando completamente o constrangimento estampado no rosto de Bernard, Carlisle pegou o copo de uísque trazido pelo criado e girou lentamente a bebida.

O líquido âmbar misturou-se ao gelo, produzindo um som suave.

Mesmo diante de um homem claramente aflito, Carlisle permanecia perfeitamente calmo.

Os lábios de Bernard tremeram de humilhação.

Carlisle sempre o tratara como um mendigo que vinha implorar favores.

Naquela noite, porém, aquilo parecia ainda mais evidente.

Mas, como toda aquela situação era consequência das ações de Yvonne, Bernard não tinha escolha além de baixar a cabeça e sorrir enquanto se acomodava no sofá.

Nem mesmo depois de sentar lhe ofereceram um copo.

Percebendo que Carlisle sequer tinha intenção de brindar com ele, Bernard engoliu a frustração e começou:

— O divórcio… Assim que soube, vim imediatamente. Ela nem sequer lhe deu um herdeiro… Como isso foi acontecer?

— Se ouviu as notícias, então já sabe de tudo. Foi Yvonne quem pediu o divórcio, não eu.

— Sim… isso é verdade. Mas…

Maldição.

Bernard precisou manter um sorriso bajulador.

Afinal, Yvonne havia entregue os papéis por vontade própria, não porque tivesse sido expulsa.

Ainda irritado depois de descarregar toda a raiva nela, assumiu uma expressão de falsa preocupação.

— Ela apenas agiu por impulso porque estava magoada com o senhor, sempre tão ocupado. Agora está profundamente arrependida.

— Arrependida?

Carlisle recordou da Yvonne que conhecera recentemente, que não demonstrava qualquer sinal de arrependimento.

Com um sorriso frio, girou novamente o copo de uísque.

— Ela parece estar muito bem para alguém arrependida.

— Isso não pode ser verdade. O senhor sabe quantos homens em Aerondo eram apaixonados por ela. Mesmo antes do casamento, recusou inúmeros pedidos e escolheu justamente o senhor. Ela é o nobre Lírio da Casa Sellus. Entreguei-lhe uma filha criada com todo o cuidado… como pôde assinar os papéis do divórcio sem sequer terem um herdeiro?

Bernard falava como se tivesse escolhido Carlisle entre todas as grandes famílias de Aerondo pensando exclusivamente em Yvonne.

Mas Carlisle conhecia perfeitamente a verdade.

Ele encarou friamente aquele homem.

— Agora que os papéis do divórcio já foram entregues… o que exatamente espera que eu faça, Conde?

— É simples.

Sempre existe a reconciliação.

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