Capítulo 21
Ela tentou encolher o corpo e se proteger dos golpes o máximo que podia, mas hematomas já começavam a surgir nos lugares onde havia sido atingida. Mesmo diante de seu estado lamentável, a fúria do Conde apenas aumentava.
Outro golpe atingiu a cabeça de Yvonne, fazendo-a cambalear e cair no chão. Sem lhe dar sequer um instante para respirar, a mão grosseira do Conde agarrou seus cabelos e sacudiu sua cabeça com violência.
— Mm… Senhora…
Jane conseguiu retirar a mordaça da boca e gritou, mas Yvonne manteve os olhos fixos nos do Conde.
— Depois de tudo o que tive de suportar para casar você com ele, você ousa entregar os papéis do divórcio com as próprias mãos?
— O senhor já recuperou muito mais do que qualquer prejuízo que teve ao me casar.
— O… o que foi que você disse?
Mesmo sabendo que responder só lhe renderia uma surra ainda pior, Yvonne rebateu sem hesitar.
— Eu disse que o senhor já recuperou muito mais do que perdeu ao me casar. Acha que eu não sei de nada? Acha que não sei que Carlisle salvou a Sellus Trading Company da falência três vezes?
— Sua desgraçada. Depois de viver ao lado daquele arrogante do Carlisle, agora acha que pode me desprezar também?
Os lábios de Bernard tremiam de raiva. Incapaz de se controlar, ele apanhou a bengala que havia jogado no chão e golpeou o braço de Yvonne.
Ela tentou se encolher desesperadamente, mas o impacto em suas costas arrancou um gemido de dor.
— Ngh…
— Segurem-na direito!
Os homens obedeceram imediatamente à ordem do Conde, imobilizando Yvonne para que ela não pudesse mais se mover.
— Case-se de novo. Vá até o Duque agora mesmo, ajoelhe-se diante dele e implore perdão.
— Não posso. Foi ele quem assinou os papéis de livre vontade.
Outro golpe caiu sobre suas costas como um trovão. A dor queimava sua pele, mas Yvonne se esforçou para conter qualquer gemido.
Bernard percebeu que a teimosia que ela demonstrava desde criança permanecia a mesma. Quando a trouxera para casa pela primeira vez, ela era indomável como um potro selvagem, e ele a espancava para “discipliná-la”. Agora, voltou a erguer a bengala.
— Senhora!
Sem conseguir mais suportar aquilo, Jane correu para protegê-la, mas recebeu um chute violento do Conde e foi arremessada para o lado.
— Jane! Se tem algo a dizer, diga para mim!
— Você enlouqueceu? Eu acolhi uma garota miserável como você, dei roupas caras, boa comida, educação e uma vida confortável, e é assim que demonstra gratidão?
Yvonne conteve uma risada amarga e o encarou com frieza.
Roupas caras e educação… o que isso significava?
As roupas caras eram apenas os vestidos da filha que Bernard e a esposa tiveram antes de ela morrer. Quanto à educação refinada, serviu apenas para valorizá-la antes de vendê-la em casamento, enquanto a submetiam a um treinamento cruel, sem sequer deixá-la dormir.
Etiqueta impecável. Todos os elogios que recebia existiam apenas porque era espancada quase até a morte sempre que errava a postura ou a maneira de caminhar.
E agora ele tinha a coragem de se vangloriar disso.
— Seja honesto. O senhor ainda está descontando em mim a raiva por eu ter arruinado o seu negócio há seis meses.
— Vo… você…!
Os olhos de Bernard se arregalaram, claramente surpresos por ela ter dito aquilo. Furioso, levantou a bengala e a apontou para a cabeça de Yvonne.
— Chega. Querido, que deselegante.
Ao ouvir aquela voz refinada, a mão de Bernard parou no ar como se tivesse sido enfeitiçada.
Atrás dele, uma dama elegantemente vestida entrou lentamente na sala.
— M… Madame. Por que veio até aqui? Eu pedi que esperasse na carruagem.
Assustado, Bernard pigarreou e endireitou o pescoço ao ver a esposa, Denise.
Ele só havia se tornado Conde de Sellus graças a ela, filha de um pequeno barão, que o acolhera na família como genro.
Vinte e quatro anos antes, Bernard conheceu uma artista em ascensão, e desse relacionamento nasceu uma criança. Depois de implorar pelo perdão da esposa, aprendeu que mantê-la satisfeita era a coisa mais importante.
Ignorando completamente o Conde, Denise — a Condessa — lançou um olhar indiferente para Yvonne.
No instante em que viu o objeto em suas mãos, os olhos de Yvonne estremeceram.
— Tome.
Ao som daquela voz gentil, o medo tomou conta de seu corpo.
O que Denise estendia diante dela era um buquê composto apenas por lírios.
— Minha filha adora lírios.
Movendo delicadamente o buquê, Denise espalhou o pólen pelo ar, incentivando Yvonne a recebê-lo.
O rosto de Yvonne se contorceu.
— Ugh… Afaste isso de mim.
— Nossa… você continua tão mal-educada. Minha filha jamais seria assim.
Sorrindo de maneira estranha, Denise balançou o buquê bem diante do rosto de Yvonne.
Assim que as flores a atingiram, o pólen se espalhou por toda parte. Ela prendeu a respiração para evitar inalá-lo, mas foi inútil.
Logo em seguida, Denise lançou outro buquê contra ela.
— Comprei tudo isso especialmente para você no caminho até aqui. Nossa filha era nobre e bela como um lírio. Diferente de você.
Os buquês de lírios continuaram sendo arremessados contra o rosto de Yvonne.
O pólen entrou imediatamente em contato com sua pele, e urticárias surgiram por todo o corpo enquanto sua respiração se tornava cada vez mais difícil. Era uma reação alérgica aguda.
Seus olhos incharam, lágrimas escorreram sem parar, e suas mãos e pernas começaram a tremer cobertas de vergões avermelhados.
Ela percebeu instintivamente que sua garganta estava inchando, bloqueando a passagem do ar.
Seu corpo inteiro entrou em convulsão, e só então os homens a soltaram.
— Ugh… n… não… consigo… respirar…
Denise observava Yvonne, encolhida e tremendo, com um olhar completamente frio.
— Como consegue continuar me desafiando depois de tudo? Tive de suportar uma garota de origem miserável fingindo ser minha filha.
Só de levantar a cabeça do chão fazia os braços de Yvonne tremerem incontrolavelmente.
Através da visão embaçada, ela encarou Denise, que continuava falando com aquela voz gentil e elegante.
Se o Conde recorria à violência quando ela o enfrentava, Denise explorava sua maior fraqueza para infligir uma crueldade refinada.
Depois de assistir calmamente a Yvonne sendo espancada. Denise sempre concluía tudo atirando lírios sobre ela — justamente a flor à qual ela era alérgica.
Desde que descobrira que Yvonne herdara da mãe aquela alergia, Denise mandou plantar lírios por toda a ala onde ela vivia, além de comprar constantemente flores para o solar dos Sellus.
Tudo isso apenas para transformá-la em uma marionete completamente obediente.
Lágrimas escorriam de seus olhos avermelhados.
Ao ver aquele estado, Denise sorriu satisfeita.
— Está difícil? Ser reduzida a esse estado por causa de uma simples flor… Não mereçe carregar o nome que eu lhe dei.
O Lírio da Casa Sellus.
A verdade por trás daquele apelido, que todos acreditavam representar sua beleza delicada como um lírio, era que os próprios lírios eram um veneno mortal capaz de sufocar Yvonne.
Denise pegou outro buquê, pronta para lançá-lo novamente, mas Jane correu e abraçou Yvonne.
— Madame, por favor, pare! A senhorita mal consegue respirar! Por favor… dê o remédio a ela… Ugh…
— Como ousa se meter? Precisa apanhar de novo para aprender o seu lugar?
A voz suplicante de Jane transformou-se em gemidos quando um dos homens voltou a chutá-la.
Mesmo suportando a dor, Jane continuou retirando desesperadamente as pétalas que cobriam Yvonne.
— Hhic…
Com o rosto completamente sem cor, Yvonne arranhava o chão com as unhas.
Ao vê-la tremendo como se fosse sufocar a qualquer instante, o Conde lançou um olhar cauteloso para Denise.
— Hm… Madame… acho que já chega.
Os olhos frios de Denise voltaram-se lentamente para ele.
Assustado, Bernard pigarreou e tentou se justificar.
— Se ela morrer, não teremos mais como conseguir investimentos do Duque Polshared. Já que ela arruinou nosso acordo com o Reino de Asnesh, ainda precisamos usar o nome do Duque para abrir outras oportunidades.
Em outras palavras, Yvonne ainda tinha utilidade.
Ela havia sido trazida para aquela família apenas para servir como fonte de dinheiro. Se morresse agora, isso lhes causaria problemas.
— Muito bem.
Depois de se divertir torturando-a até quase a morte, Denise finalmente fez um sinal para os homens.
Um deles retirou uma seringa da bolsa e aplicou a injeção no braço fino de Yvonne.
Quando a agulha gelada perfurou sua pele e o líquido transparente entrou em suas veias, ela sentiu o frio percorrer todo o corpo. Aos poucos, o ar voltou aos seus pulmões, como se estivesse emergindo das profundezas da água.
Mas ser arrancada da beira da morte daquela maneira humilhante era algo revoltante.
— Haa…
Recuperando a respiração com dificuldade, Yvonne ergueu os olhos marejados e os encarou.
Como sempre, o Conde e a Condessa só lhe davam o remédio depois de fazê-la sofrer até o limite.
Mesmo ofegante, sua determinação permanecia intacta, e Denise e Bernard apenas sorriram com desprezo.
— Se você não implorar o perdão do Duque e não rastejar de volta para ele, tudo aquilo de que você gosta em Euphoria será colocado no navio negreiro que parte no fim deste mês.

