Capítulo 16
Hugo não conseguiu evitar uma risada diante da resposta fria à sua preocupação.
Embora Carlisle tivesse deixado o exército antes dele, sua postura rígida e sua presença intimidadora ainda faziam Hugo sentir como se estivesse diante de um coronel em serviço ativo.
Mas o fato de parecer indiferente não significava que realmente estivesse bem.
— É Ethan Inglebert, não qualquer homem.
Assim que ouviu aquele nome, Carlisle esvaziou mais uma taça de uísque.
As pessoas os chamavam de colegas de turma e rivais amigáveis, mas Hugo sabia que a relação entre eles não podia ser resumida de forma tão simples. Mesmo que a maioria das pessoas que conheciam os detalhes já não estivesse mais por perto, existiam circunstâncias complicadas entre Carlisle e Ethan. Nenhum dos dois demonstrava abertamente, mas o desconforto mútuo permanecia inalterado.
Por isso, era impossível que Carlisle ficasse indiferente ao fato de sua esposa, que havia pedido o divórcio, estar se encontrando com Ethan.
— É impossível que isso não o incomode. Você realmente está bem?
— Eu não sabia que o motivo de você me chamar para almoçar de repente era esse tipo de fofoca. Ethan pediu para você me sondar?
Seu tom era afiado e claramente irritado. Mesmo sendo amigo dele, Hugo sentiu um leve nervosismo ao recordar a personalidade obstinada e fria de Carlisle, capaz de romper relações sem hesitação.
— Claro que não. Tanto Ethan quanto você são amigos importantes para mim.
— Que bom ouvir isso.
Parecia sarcasmo, mas vinte anos de amizade já tinham criado imunidade para esse tipo de comentário.
— Não acredito que as intenções de Ethan ao se aproximar da Duquesa sejam tão puras. Você provavelmente pensa o mesmo.
Carlisle esvaziou mais uma vez a taça de uísque, mantendo o olhar fixo em algum ponto do Rio Luthers.
A superfície parecia tranquila, mas, mesmo naquela calmaria, a água seguia correndo para algum lugar.
— Você sabe. Yvonne é uma mulher que não conseguia sequer suportar ficar ao meu lado.
— Como observador, eu não sei como era o casamento de vocês. Quaisquer que sejam os rumores, continuam sendo apenas conversas de gente que adora fofocas.
— Não. A maior parte deles é verdade. Yvonne era infeliz em nosso casamento.
Foi por isso que, no dia em que o viu pela primeira vez, ela disse aquilo.
Antes, havia inúmeras jovens que o admiravam. E ela, tão bem educada e impecável nas boas maneiras, foi grosseira justamente na primeira vez que o encontrou.
E então, apenas um mês depois, disse que o amava.
Como ele poderia aceitar aquilo sem desconfiar?
O que ela queria não era ele.
Era o Ducado Polshared.
Apenas o nome da família.
— O mesmo vale para você.
Era verdade.
Ele também tinha sido forçado a casar por causa da proposta do Conde Sellus.
Um ano depois, quando percebeu que tinha caído na armadilha astuta do conde, quis jogar fora o contrato e tudo o que estava ligado a ele, movido pelo próprio temperamento.
Mas, de forma incomum, adiou aquela decisão.
E, de algum modo, acabou chegando à situação atual.
Eu amo você.
Uma voz clara como o canto de um pássaro ecoou em sua mente.
Seu humor afundou instantaneamente, e ele voltou a umedecer a garganta com uísque.
Foi então que o restaurante ficou repentinamente mais barulhento.
Hugo estreitou os olhos, perguntando-se o que estava acontecendo, ao notar que os olhares das pessoas estavam voltados para algum lugar.
O que estão olhando?
Do outro lado da rua havia apenas uma cafeteria comum ao ar livre.
Da posição privilegiada do segundo andar, ele conseguia ver os clientes aproveitando o chá sob a luz do sol.
E um casal que se destacava.
Ah, não.
Justamente agora.
Hugo identificou imediatamente o foco da atenção dos clientes e suspirou por dentro.
Yvonne Sellus e Ethan Inglebert.
Engolindo um palavrão, ele estava prestes a sugerir que entrassem, usando o forte sol da primavera como desculpa, para impedir que Carlisle os visse.
— O sol de maio faz mal para a pele. Vamos entrar…
Mas não conseguiu terminar a frase.
O olhar afiado de Carlisle já estava fixo naquele ponto.
— Fiquei tão surpresa mais cedo. Se tivesse me avisado antes, eu poderia ter entrado na brincadeira.
Yvonne já havia reclamado várias vezes com Ethan sobre o incidente durante a apresentação ao ar livre.
Aconteceu que aquilo fazia parte da peça, um método para envolver o público e arrancar reações.
Ao se lembrar daquele momento emocionante, Yvonne lançou um olhar ressentido para Ethan, que sorria de forma travessa, como se tivesse previsto perfeitamente sua reação.
Depois da apresentação, eles foram para a Joy Cafeteria, um lugar famoso na Long Avenue.
Como o clima estava agradável, sentaram-se em uma mesa ao ar livre, onde o chá da tarde já havia sido servido.
— Mas não foi divertido? Ópera é boa, mas às vezes essas peças são muito mais interessantes.
Ethan sorriu suavemente diante das reclamações dela enquanto afastava a franja com um gesto casual.
Seus olhos levemente curvados pareciam ainda mais elegantes quando seus cabelos loiros balançavam.
Yvonne, que ficou observando seu rosto por um instante sem perceber, notou as expressões encantadas das jovens sentadas ao longe e rapidamente desviou o olhar.
— Ethan, você é realmente muito bonito. Todo mundo continua olhando para você escondido.
— Ha… Só percebeu isso agora?
Ele soltou uma risada amarga diante da reação dela, como se ela jamais tivesse notado seu charme antes.
Afinal, o que ele vinha fazendo esse tempo todo?
O tom dela era tão natural que fazia todas as suas tentativas deliberadas de parecer encantador parecerem inúteis.
A maioria das pessoas se apaixonava por ele à primeira vista e não conseguia desviar os olhos.
Mas essa mulher sempre olhava diretamente para seus olhos e conversava com ele, em vez de ficar presa à sua aparência.
Isso fazia com que ela parecesse diferente.
E quanto mais a observava, mais misteriosa ela se tornava.
— E não acho que seja algo que você deva dizer para mim.
— O quê?
— Os homens que ficam olhando para você estão me apunhalando pelas costas com os olhos neste exato momento.
— …Isso não pode ser verdade.
Yvonne sorriu suavemente enquanto levava aos lábios a água com gás que os funcionários tinham servido, como se aquilo fosse uma completa bobagem.
Até mesmo o funcionário parado ao lado deles não conseguia tirar os olhos dela e estava corando.
Sua modéstia era quase exagerada.
Ou talvez fosse genuína.
Quanto mais a observava, mais ela parecia diferente das informações trazidas pelo gerente do Avandonasser.
Ele começou a duvidar se a mulher à sua frente, famosa por tratar os outros com arrogância por causa da própria beleza, era realmente a mesma pessoa.
Nesse momento, Ethan viu o reflexo do restaurante do outro lado da rua na janela da cafeteria e curvou os lábios em um sorriso.
Ao avistar uma florista na rua, fez um gesto com o dedo.
A mulher, que estava hesitando por medo de ser repreendida pelo dono da cafeteria, correu imediatamente até eles.
— Estas flores acabaram de chegar do jardim hoje. Se o cavalheiro as oferecer para essa adorável dama, ela ficará muito feliz.
Com um sorriso radiante, ela exibiu orgulhosamente a cesta de flores.
— Quero todas. Para alguém que combina tão bem com lírios, devem ser lírios.
Ao ouvir isso, a mulher, encantada, separou apenas os lírios brancos mais puros e os entregou.
Yvonne, que estava bebendo sua água com gás, nem sequer tinha olhado para as flores quando Ethan pagou a florista e lhe estendeu o buquê.
— Aceite, Senhorita Lírio de Sellus.
Os olhos de Yvonne tremeram ao ver as flores surgirem repentinamente diante dela.
Seu corpo enrijeceu, e ela recuou.
— Não… Está tudo bem.
Yvonne inclinou o corpo para trás, mas Ethan, acreditando que ela apenas estava envergonhada, aproximou ainda mais os lírios.
— Aceite. O Conde não importava enormes quantidades de lírios para o jardim porque gostava tanto deles?
Assustada com os lírios tão próximos do seu rosto, Yvonne empurrou a mão dele por reflexo.
As flores caíram no chão.
Os olhos de Ethan se contraíram levemente ao ver os lírios espalhados pelo piso.
Constrangido, ele fechou a mão.
Mas então Yvonne começou a tossir, cobrindo completamente o nariz e a boca com uma das mãos.
— Yvonne?
Cof.
Os olhos dela ficaram vermelhos enquanto a tosse piorava.
Seus ombros tremiam de forma alarmante.
Rrrr.
O som da cadeira sendo arrastada ecoou alto.
Yvonne levantou-se apressadamente, atraindo a atenção dos outros clientes, que já observavam a dupla discretamente.
— Algo entrou pelo caminho errado?
Ethan levantou-se ao ver seu estado piorar de repente.
Ele lhe ofereceu um copo d’água, mas ela nem conseguiu pegá-lo.
Em vez disso, abriu a bolsa com mãos trêmulas e retirou um lenço.
— Não, é… Desculpe. Eu preciso ir.
Com o nariz completamente coberto pelo lenço, Yvonne falou com dificuldade, recolheu seus pertences e saiu apressada na direção oposta.
— Espere.
Ethan pegou o chapéu, pagou a conta e correu atrás dela, que já estava desaparecendo ao longe, sem sequer lhe dar a chance de detê-la.
O que aconteceu de repente?
Atrás dele, começaram a surgir murmúrios especulando sobre o ocorrido.
Uma irritação crescente tomou conta dele.

