Capítulo 15

Ethan sentiu um leve incômodo ao ouvir aquelas palavras.

Era de conhecimento comum entre os cidadãos de Aerondo que Yvonne, que havia se casado com Carlisle logo após sua cerimônia de maioridade, nunca tivera outro homem como amante. Ainda assim, durante o último ano, espalharam-se rumores de que ela visitava Valley Lane com frequência e se encontrava secretamente com jovens rapazes.

Agora estava tentando agir como uma dama virtuosa?

Ou será que o desprezava tanto assim?

— Então segure à vontade agora mesmo.

Ethan, incomodado pela atitude imprevisível dela, entrelaçou firmemente os dedos aos seus.

Quando Yvonne tentou afastar a mão outra vez, ele a segurou com firmeza, achando divertida a maneira como ela o encarava com os olhos arregalados e trêmulos.

Ao perceber o constrangimento e a falta de jeito estampados em seu rosto, soltou uma risada baixa.

— Considere isso uma prática. A partir de agora, onde quer que formos, precisaremos demonstrar pelo menos esse nível de intimidade física se quisermos que os rumores se espalhem.

Felizmente, ela não tentou se soltar à força novamente.

Ainda assim, Ethan começou a compreender aos poucos a intenção dela de parecer inocente diante dele, e isso o fez sorrir.

Uma dama inocente.

Daquelas mulheres que flertam facilmente fazendo os homens acreditarem que são os únicos em seus corações.

Há apenas alguns dias, ele a tinha visto chorando de forma tão dolorosa, e agora ela administrava cuidadosamente sua imagem diante de outro homem.

Era óbvio.

Mas era adorável.

Por isso decidiu entrar no jogo.

Logo chegaram à Federation Square.

Assim que os dois saíram do carro juntos, inúmeros olhares se voltaram imediatamente para eles.

— Então aquele artigo era mesmo verdade. O divórcio ainda nem foi concluído, não é?

— Ela já entregou os papéis. Que diferença faz? Todo mundo só quer assistir ao espetáculo.

Yvonne apertou os dedos trêmulos diante da enxurrada de olhares.

Os cochichos ao redor fizeram seu rosto esquentar.

Apesar da agitação em seu interior, ela controlou a expressão com habilidade e endireitou as costas.

Ethan inclinou a cabeça em sua direção e lhe lançou um olhar encorajador.

— Se tentar demais, vai parecer artificial. Apenas aja normalmente.

— Estou tentando, mas é mais difícil do que imaginei.

— Finja que não existe ninguém ao redor.

Yvonne respirou fundo e direcionou o olhar para a frente, evitando prestar atenção às pessoas.

Funcionou bem o suficiente para fazê-la se sentir muito melhor.

— Então vamos.

Ela apoiou delicadamente a mão direita sobre o braço esquerdo que Ethan lhe ofereceu, e os dois caminharam lado a lado.

A Federation Square, coração de Aerondo, era cercada por distritos com atmosferas completamente diferentes.

O Rio Luthers dividia a região, com o sofisticado distrito comercial Sandiewood de um lado e a rua cultural Luna Street do outro.

No final da Luna Street erguia-se a grandiosa casa de ópera.

Yvonne, que ouvira dizer que os primeiros encontros de casais costumavam acontecer na ópera, contemplou sua aparência magnífica.

Imaginou que fossem para lá.

Por isso piscou surpresa quando Ethan simplesmente passou pela casa de ópera.

— Para onde estamos indo?

— Para onde mais? Eu disse que estamos em um encontro.

— Não era aqui que viríamos?

Ethan seguiu o olhar dela até o edifício e balançou a cabeça.

— Ah, Lady Yvonne. Você ainda não me conhece bem. Eu odeio lugares clichês.

— Então o que não é clichê?

— …Hum… Você gosta de peças de teatro?

***QUEBRA**

Eles chegaram ao Parkside, um parque ao ar livre.

Mais precisamente, ao teatro ao ar livre localizado no centro do parque.

As arquibancadas de pedra em formato de cúpula já estavam lotadas.

Aparentemente, Ethan havia reservado ingressos com antecedência, e eles foram conduzidos aos assentos centrais da primeira fila, com a melhor visão do palco.

— Já assistiu a apresentações de rua? Como peças de teatro?

— Não. Nunca assisti. Só as vi de relance enquanto passava.

Yvonne balançou a cabeça.

Ela nunca havia assistido a uma peça nem sequer visitado a casa de ópera pela qual tinham passado.

Ethan estalou a língua, como se lamentasse aquilo.

— Então experimente pelo menos uma vez. É muito mais divertido do que uma ópera formal.

Ele apontou para o pequeno palco e sorriu alegremente.

Aquilo surpreendeu Yvonne.

Ela sempre imaginara que Ethan Inglebert, com sua aparência chamativa e seus modos refinados, frequentasse apenas lugares luxuosos.

— Você costuma vir a lugares assim?

— Às vezes. Assistir de um camarote é menos divertido. É ótimo para espairecer. E você é a primeira pessoa que trago comigo.

— …Camarote.

Ela já ouvira nobres da alta sociedade se gabarem de assistir aos espetáculos de salas privadas no segundo andar, embora ela mesma nunca tivesse ido.

Queria experimentar aquilo ao menos uma vez.

Como era sua primeira vez ali, lançou discretamente o olhar para a plateia.

A maioria era composta por casais, todos relaxados e de mãos dadas.

Quando chegaram à praça, os olhares dos nobres que os reconheceram pareciam pesados.

Mas ali, naquela multidão diversificada, ninguém parecia interessado nos outros.

Claro, quando os dois recém-chegados chamaram atenção por sua aparência, algumas pessoas cochicharam, perguntando-se se seriam o casal dos rumores.

Mas logo perderam o interesse, convencidos de que nobres de tão alta posição jamais frequentariam aquele lugar.

Yvonne observou os casais acariciando as mãos um do outro e conversando afetuosamente.

A cena lhe parecia estranhamente desconhecida.

Seu olhar então deslizou para as árvores ao redor do teatro.

Ali, algumas crianças que não tinham dinheiro para comprar ingressos espiavam a apresentação de longe.

Enquanto observava a cena, uma sensação morna envolveu sua mão repousada calmamente ao lado do corpo.

Ethan encontrou seu olhar e sorriu.

Talvez imaginando que ela estivesse desconfortável naquele ambiente desconhecido, segurou sua mão.

Mas não havia nada sugestivo naquele gesto.

— Pode ser um pouco estranho por ser sua primeira vez aqui, mas vale a pena assistir.

Logo o sino tocou.

O homem que parecia ser o líder da trupe fez uma reverência e anunciou o início do espetáculo.

Ao som de uma música animada, os atores subiram ao palco.

Diante de mais de cem espectadores, entregaram-se completamente à apresentação, cativando a plateia.

A peça era uma história de amor sobre um casal casado.

À medida que assistia, Yvonne ficava cada vez mais envolvida.

— Mary, sua saia está curta demais. Para quem você está se arrumando desse jeito?

— Não diga bobagens. Margaret viu você saindo com outra mulher na semana passada.

— Ela deve ter visto errado. Vai acusar outra pessoa inocente agora?

— Quem você acha que está enganando? Ela está bem ali.

Nesse momento, uma atriz desceu os degraus do palco e se aproximou do lugar onde Yvonne estava sentada, dirigindo-se repentinamente a ela.

— Você saiu com meu marido na semana passada, não foi?

— Perdão?

Os olhos de Yvonne se arregalaram.

Ela nunca tinha visto aquela mulher antes.

Além disso, não esperava que uma atriz se aproximasse da plateia durante a apresentação.

Assustada, apertou instintivamente a mão de Ethan.

A mulher insistiu, agora com um tom mais severo.

— Foi você. A mulher que saiu com meu marido Marcus na Barbo Square no último fim de semana se parece exatamente com você.

A acusação mais firme fez as pálpebras de Yvonne vacilarem.

Sentindo-se injustiçada, ela olhou para Ethan.

Mas ele parecia completamente tranquilo, como se já esperasse sua reação.

Na verdade, havia até um sorriso sugestivo em seus lábios.

— Eu…

Quando estava prestes a falar, esperando ajuda, uma grande mão envolveu suavemente seus ombros.

— Está enganada. Minha esposa não saiu do quarto o dia inteiro, então não teria tido tempo de encontrar seu marido. Nós somos bastante apaixonados.

O comentário brincalhão de Ethan arrancou gargalhadas da plateia.

A atriz, que parecia preocupada com a reação do público, mostrou-se satisfeita e respondeu em voz alta.

— O que você faz para impedir que ela saia do quarto? Estou com inveja. Acho que confundi com outra pessoa.

Vendo a animação do público, os atores continuaram a encenação e seguiram para a próxima fileira.

— Então foi você!

Outra acusação surgiu de perto, dirigida a outro espectador.

Só então Yvonne percebeu que aquela cena fazia parte do espetáculo.

Ela lançou um leve olhar de reprovação para Ethan.

Ele apenas deu de ombros.

— E então? Não é mais divertido do que uma ópera enfadonha?

Quebra de página

Uma suave brisa vinda do rio atravessava a ampla varanda com vista para a Ponte Luthers.

Sobre a mesa ao centro, os talheres de prata brilhavam sob o sol do meio-dia.

As mesas da varanda do restaurante Great Ocean, famoso pela vista aberta e deslumbrante, estavam completamente lotadas como sempre.

Depois de cortar um pedaço do cordeiro marinado em ervas, Carlisle largou os talheres e tomou um gole de uísque.

Sentado à sua frente estava um jovem de cabelos macios da cor do trigo.

Hugo Freud.

Ele era amigo próximo de Carlisle desde a infância.

Frequentaram juntos a escola militar e chegaram até mesmo a servir na mesma unidade.

Quando Carlisle terminou o uísque, um funcionário aproximou-se para reabastecer seu copo.

Hugo, que havia pedido água com gás e limão, observou discretamente a multidão murmurante ao redor.

Desde o momento em que Carlisle se sentara ali, os olhos das damas nobres não haviam se afastado de seu amigo.

Hugo também era popular.

Mas sempre que estava ao lado de Carlisle, sentia-se invisível.

A situação tinha melhorado um pouco após o casamento dele.

Agora, porém, aquela sensação antiga havia retornado.

O chefe do prestigioso Ducado Polshared de Windfog.

E o incomparável diretor da Rein Kleint, que dominava o continente central.

Além de bonito, era um excelente atirador.

Possuía uma mente afiada e demonstrava uma capacidade extraordinária de julgamento em qualquer situação de emergência.

Era um homem tão impressionante que não deixava espaço para inseguranças.

Ainda assim, até alguém tão extraordinário possuía pontos cegos.

E Hugo era o único amigo que os conhecia.

— Você está bem?

— Por que eu não estaria?

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