Capítulo 14

Uma risada vazia escapou por entre seus lábios cerrados.

Casados

Nos últimos três anos, ela nunca tinha sido verdadeiramente sua esposa nem uma única vez. Viveu como uma mulher tola, que jamais foi prioridade em sua vida. Seus olhos endureceram.

— De qualquer forma, não será por muito mais tempo.

Sua voz era fria, como se exigisse uma confirmação.

Carlisle estreitou o olhar enquanto observava a mulher que claramente não tinha intenção de recuar.

— Você acha que entregar os papéis do divórcio é algo tão importante assim?

— Talvez não seja nada para você, mas não é nada para mim.

Carlisle observou em silêncio a esposa, que respondeu num tom estranhamente irritante.

Sua esposa tinha mudado.

Ele não estava falando das ações recentes dela. Era algo nos olhos que sempre buscaram seu afeto e que agora haviam desaparecido.

Mesmo vivendo como um casal distante, sua esposa sempre o observava com olhos que ansiavam por seu amor.

Agora, aqueles olhos pareciam desolados, como se nada tivesse restado.

Havia algo definitivamente errado.

Enquanto pensava nisso, uma dor pulsou em sua cabeça.

A imagem dela ao lado daquele homem passou por sua mente, e seus punhos se cerraram automaticamente.

— Por que você está assim de repente?

— Não é de repente. Isso deveria ter acontecido há muito tempo. Você sempre me odiou, assim como eu odiei você.

— Então é mútuo, como sempre foi.

Carlisle levou a mão ao interior do casaco, como se procurasse um cigarro, mas ao perceber onde estava, retirou a mão vazia.

Yvonne percebeu que o carro estava se aproximando da Cadney Road e apertou a bolsa contra o colo. Na paisagem urbana tingida pelo pôr do sol, ela viu a ponte que atravessava o Rio Luthers.

— Chegamos. Já disse tudo o que precisava dizer.

— Eu ainda não terminei.

Quando Yvonne tentou sair do carro, que já havia parado completamente, Carlisle estendeu a mão e bateu a porta aberta com força.

Estrondo!

O som alto a fez estremecer.

Ela lançou um olhar furioso para ele enquanto seu rosto, outrora tão bonito, se aproximava.

— Não me provoque. Isso não acaba só porque os papéis do divórcio foram entregues.

As palavras carregadas de significado de Carlisle encontraram o olhar vacilante de Yvonne.

— Nosso casamento foi uma transação. A verdadeira parte envolvida era o Conde Sellus, não você. Seu pai certamente resolverá as consequências.

— …

Como sempre, seu rosto empalideceu ao ouvir a menção da família, e Carlisle soltou uma risada baixa.

Eles tinham vivido como uma família por três anos, mas para ela, família significava apenas as pessoas do Condado Sellus, nunca ele.

Perceber isso mais uma vez fez seu humor afundar ainda mais.

— Não se engane achando que o Conde sempre colocará você em primeiro lugar só porque é sua preciosa filha. Pelo menos tenha certeza de não me causar problemas. Se consegue fazer isso, então tente.

Ele se recostou novamente e ajustou a postura, como se estivesse dizendo que ela podia ir embora.

Yvonne abriu a porta rapidamente e saiu.

No instante em que seus pés tocaram a rua, o carro arrancou sem qualquer hesitação.

— Ha…

O ar preso em seu peito finalmente escapou.

Seu corpo, sustentado apenas pela teimosia, pareceu perder toda a força.

Recuperando a determinação, Yvonne observou o carro desaparecer ao longe por alguns instantes antes de se virar.

Ao entrar no pátio da mansão, antes mesmo de tocar a campainha, Jane colocou o rosto para fora da porta, que havia se aberto de repente.

Ao ouvir o carro, Jane saíra para ver quem era e ficou assustada ao ver a expressão pálida de Yvonne, correndo imediatamente até ela.

— Senhora, está tudo bem?

— Sim. Só estou um pouco cansada. Houve alguma notícia daquele homem?

Yvonne perguntou se Ethan havia entrado em contato desde a última conversa entre eles, alguns dias antes.

Jane, abatida, balançou a cabeça.

— Talvez ele tenha mudado de ideia e pensado que a senhora estava tentando usá-lo.

— Ele parece mais cauteloso do que eu imaginava.

Embora os rumores da alta sociedade o descrevessem como alguém leviano e inconsequente, ela tinha ouvido dizer que ele era extremamente competitivo nos negócios.

Talvez estivesse fazendo seus próprios cálculos.

— Ah, Senhora. Mais cedo chegou uma mensagem de Valley Lane.

— Sobre o quê?

Ao ouvir aquilo, a expressão cansada de Yvonne imediatamente se tornou vigilante.

Jane tirou um papel escondido no bolso interno do avental e o entregou a ela.

Quebra de página

Três dias depois, a campainha da Lisian House tocou.

Yvonne abriu a porta no lugar de Jane, e Ethan inclinou o chapéu em saudação.

Vestido com um elegante chapéu fedora branco e calças de flanela bege-claro, ele parecia tão atraente quanto sempre.

Seu sorriso, sob os cabelos loiros iluminados pela luz do sol, era deslumbrante.

— Estava me esperando?

Yvonne relaxou suavemente os lábios enquanto olhava para Ethan, que mais uma vez trazia um buquê de rosas.

— Você ficaria feliz se eu dissesse que sim?

— Eu ficaria ainda mais feliz se dissesse que ficou desapontada porque eu não entrei em contato. Mas essa resposta também não é ruim.

Ethan colocou uma das mãos no bolso e apontou para o carro estacionado do lado de fora.

Quando Yvonne o encarou sem entender, ele sorriu.

— Já tomei chá suficiente para durar uma vida inteira. Vamos para a próxima etapa. Se terminamos de nos testar, então é hora de sair.

— Para onde?

— Para um encontro.

Enquanto dizia que esperaria enquanto ela se preparava, Yvonne entrou na casa ainda atordoada.

Ethan se apoiou casualmente no carro e tirou um cigarro, parecendo discretamente animado.

Jayde estalou a língua.

— Até mesmo Lady Yvonne, a chamada flor da sociedade, parece indefesa diante da sua aparência, senhor.

Ethan, que rivalizava com Carlisle Polshared quando o assunto era conquistar o coração das mulheres, apenas sorriu.

Precisava agradecer à própria mãe, que trinta anos atrás havia encantado praticamente todos os homens de Aerondo, por sua boa aparência.

Encostado no capô do carro, Ethan logo viu Yvonne sair pronta para o passeio.

— Bem, talvez acabe sendo o contrário.

Jayde virou a cabeça ao ouvir as palavras murmuradas por Ethan e ficou boquiaberto.

Os rumores não eram exagerados.

Vestindo um vestido de musselina bege-claro, luvas brancas de seda e um chapéu poke adornado com renda, Yvonne parecia uma boneca ambulante.

O laço amarrado sob seu pequeno queixo realçava ainda mais seus traços delicados, enquanto seus olhos azuis irradiavam um charme juvenil.

Se não a tivesse visto pessoalmente como a nobre que recentemente perdera um filho, jamais acreditaria em quão encantadora ela parecia.

Ele finalmente compreendeu por que o Conde e a Condessa Sellus haviam mantido a filha longe dos olhares do público por tanto tempo.

Ethan abriu pessoalmente a porta traseira do carro antes que Jayde pudesse fazê-lo.

— Obrigada.

Yvonne sorriu docemente ao entrar.

Ethan entrou logo em seguida e anunciou o destino.

— Vamos para a Federation Square.

Jayde pressionou o acelerador suavemente, conduzindo o carro em direção à praça de Aerondo.

A água ao lado da estrada que acompanhava o Rio Luthers cintilava sob a luz do sol.

Observando a paisagem, Yvonne se lembrou do homem com quem havia falado poucos dias antes, viajando em um carro da mesma companhia pela mesma estrada.

O severo aviso dele ainda ecoava em seus ouvidos.

Por isso, mudou de assunto.

— Para onde estamos indo?

— Hum… Estive pensando em uma coisa, Lady Yvonne.

Sua voz, normalmente leve, tornou-se séria, e Yvonne levantou os olhos para ele.

As longas pestanas lançavam sombras sobre seus olhos cor de avelã, agora tranquilos.

— Se está preparada para trair aquele homem, que tal acrescentar mais uma coisa? Em vez de uma vingança clichê, não seria mais divertido fazer algo diferente?

Os cílios platinados de Yvonne piscaram lentamente, e seus incomuns olhos azuis se arregalaram.

— Algo diferente?

— Vamos nos tornar amantes de verdade. Vou interpretar o vilão, mas se vou fazer isso, prefiro me divertir também.

— De que maneira?

— Vamos ser amantes.

— Amantes?

Ao olhar aqueles olhos claros, como se a palavra sequer combinasse com ela, Ethan sentiu vontade de rir.

Mas as palavras seguintes de Yvonne o fizeram rir por outro motivo.

— Eu pensei que já fôssemos.

— Pfft.

Jayde não conseguiu conter a gargalhada no banco da frente e rapidamente se desculpou.

— Desculpe. Acho que peguei um resfriado…

Sempre com uma desculpa pronta.

Ethan lançou um olhar para o assistente, que escondia a vergonha cobrindo a boca com uma das mãos.

Então voltou a olhar para Yvonne, que ainda o encarava com aqueles olhos gentis.

Ele riu baixinho diante daquela expressão calma, que parecia completamente inconsciente do efeito que causava.

Então falou com a mulher que, às vezes, dizia coisas surpreendentemente sérias com uma serenidade tão sedutora quanto a de Carlisle.

— Claro. Tem razão. Mas vamos deixar isso mais claro. Algo assim.

Ele tentou segurar delicadamente a mão de Yvonne, que repousava sobre o joelho.

Porém, a mulher que antes parecia tão confiante rapidamente puxou a mão para trás, assustada.

Hã.

Normalmente, as mulheres atraídas por sua aparência desejavam seu toque.

Era a primeira vez que alguém o evitava, e sua expressão se distorceu levemente.

Talvez surpresa com a própria reação, os olhos de Yvonne se arregalaram como os de um cervo, e ela se apressou em explicar:

— Desculpe. Eu só me assustei. Nunca segurei a mão de outro homem antes.

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