Capítulo 2
— Sim, meu senhor…
Antes que o mordomo terminasse de falar, Carlisle entrou no vestíbulo e subiu imediatamente a escadaria central.
Terceiro andar.
Parecia estranho procurar o quarto dela.
Afinal, ficava na direção oposta ao seu.
Pouco depois encontrou a porta aberta.
Mas parou antes de entrar.
As criadas, que limpavam o aposento diligentemente, assustaram-se com o retorno antecipado do senhor da casa e recuaram às pressas.
Carlisle atravessou o quarto com passos largos.
Seu olhar percorreu o ambiente.
Tudo estava organizado com perfeição.
Parecia mais um quarto de hotel do que um aposento habitado.
A brisa fresca que entrava pela janela aberta atravessava silenciosamente o cômodo.
O ambiente parecia ter sido completamente ventilado para receber um novo ocupante.
Não restava qualquer vestígio de calor humano.
Seu olhar pousou sobre os objetos que permaneciam exatamente onde estavam antes da chegada de Yvonne.
Nada havia sido levado.
Os vestidos luxuosos continuavam pendurados no closet.
As joias permaneciam alinhadas sobre a penteadeira.
Tudo continuava ali.
Tudo.
Exceto Yvonne.
O mordomo, que o seguira apressadamente, curvou a cabeça.
— Depois que o senhor saiu para o trabalho esta manhã, Madame deixou a propriedade levando apenas uma pequena mala.
— Para onde ela foi?
Pela primeira vez, a pergunta sobre o paradeiro da esposa saiu em um tom áspero.
— Ela não utilizou a carruagem da residência. Chamou um carro de transporte de bagagens e partiu nele.
O jornal ainda em sua mão amassou-se com um ruído seco.
Ele acreditava que aquela mulher jamais desejaria um divórcio.
Pensava que tudo não passava de uma encenação.
Mas ela havia provado com ações que não estava mentindo.
Uma semana havia se passado desde que a notícia de que a Duquesa de Polshared entregara os papéis do divórcio após três anos de casamento se espalhara pela capital, Aerondo.
O rumor espalhou-se como fogo.
E não dava sinais de desaparecer.
Afinal, ela era a esposa de Carlisle Polshared.
Senhor do prestigiado Ducado de Windfog.
E diretor executivo da Rein Kleint, a mais renomada fornecedora militar do sistema central.
— Você deveria colocar ordem na própria casa. Não acha, Carlisle?
O Príncipe Herdeiro Owen encostou seu copo no de Carlisle com um sorriso provocador.
Os cabelos castanhos de Owen balançaram levemente.
Dos vinte e sete anos de vida de Carlisle, mais da metade havia sido compartilhada ao lado dele.
O rosto bonito que normalmente simbolizava a dignidade da família real agora parecia o de um velho amigo.
Pouco antes, Owen havia terminado uma audiência privada com o Rei.
Depois disso, chamou Carlisle para beber, alegando que queria consolá-lo.
“Você sabe o quanto a credibilidade é importante nesse assunto. Resolva isso imediatamente.”
O recente conflito entre o Reino de Osmil e o Reino de Asnesh estava se aproximando da guerra.
Durante todo o dia anterior, Carlisle participara de uma reunião exaustiva com representantes dos dois países para negociar o fornecimento de armamentos.
Por isso, quando recebeu a convocação do rei, imaginou que o assunto seria político.
Esperava ouvir exigências para favorecer o país que mais beneficiaria Windfog.
Mas estava enganado.
O primeiro tema levantado pelo Rei Bernhardt havia sido sua vida conjugal.
A mesma que circulava nos jornais.
A situação já havia sido mencionada até mesmo durante as negociações do dia anterior.
Por isso, a interferência do rei foi suficiente para deixá-lo irritado.
“A Rein Kleint representa Windfog. Não existe uma imagem a ser preservada?”
Era ridículo.
Enquanto acariciava a barba bem aparada, o rei falava como se os negócios de outra pessoa pertencessem ao Estado.
E então acrescentava arrogantemente:
“Aliás, já que estamos falando disso, Osmil precisa vencer a guerra contra Asnesh. Não se esqueça.”
Depois de fingir preocupação, o rei finalmente revelava suas verdadeiras intenções.
Pensava apenas nas vantagens políticas que poderia obter.
Carlisle sentia um amargor crescente diante daquela falta de vergonha.
Seu trabalho não consistia apenas em vender armas.
Frequentemente precisava conduzir negociações para beneficiar a família real.
O rei sempre interferia.
Sempre exigia que ele favorecesse quem fosse mais útil para Windfog.
Mas nunca imaginou que chegaria ao ponto de interferir em sua vida privada.
Às vezes era difícil acreditar que um príncipe tão gentil como Owen fosse filho daquele homem.
Carlisle respondeu de forma indiferente.
— Se está perguntando como me sinto sendo chamado de marido violento e lixo humano, a resposta é simples. Não é agradável.
— O que aconteceu desta vez para a situação chegar tão longe? Você é um duque e o diretor da Rein Kleint. Sua reputação está sendo destruída.
— Yvonne gosta de romances.
Carlisle levou o uísque dourado aos lábios.
Cruzou uma perna sobre a outra.
Sua resposta saiu entediada.
Vestia um elegante terno cinza em vez do uniforme militar.
Sua aparência era refinada.
Nobre.
Sua postura impecável e seus traços masculinos transmitiam a dignidade de um grande aristocrata.
Seu rosto combinava mais com uma caneta-tinteiro do que com uma arma.
Mas seus olhos frios eram os de um soldado.
Sem compreender como Carlisle conseguia agir tão tranquilamente diante daquela situação, Owen perguntou:
— Ainda que ela goste de romances, isso passou dos limites. O que é essa história de aborto espontâneo?
— Uma mentira. Aquela mulher nunca esteve grávida.
Owen franziu a testa.
— E qual é a sua prova?
— Existem documentos. O Conde Sellus sempre se preocupou porque ela não conseguia ter filhos. Depois do casamento, o médico responsável por ela realizou exames e concluiu que, devido a uma condição congênita, seria extremamente difícil engravidar.
— Difícil não significa impossível.
— Mesmo que ela não seja estéril, eu nunca permiti que tivesse um filho meu. Depois daquele dia, sequer dividimos a mesma cama. Faz seis meses que não dormimos juntos. Não existe a menor possibilidade de ela estar grávida.
Finalmente Owen compreendeu de onde vinha tanta convicção.
E estalou a língua.
O casamento dos dois havia sido turbulento desde o início.
Certamente existiam circunstâncias que ele desconhecia.
— Então tudo foi inventado?
— Uma farsa barata. Eu já disse. Yvonne gosta de fantasias irreais.
Owen encarou o amigo.
— Resolva isso antes que fique ainda pior. Se o rei já o convocou por causa desse assunto, existe a possibilidade de interferência direta. E então você terá problemas.
— Bem… depois de três anos, talvez não importe se nos separarmos. Ela causou problemas e agora está escondida por despeito.
— Você realmente…
Sem saber o que dizer diante daquela indiferença, Owen bebeu um gole de uísque.
Sabia que insistir não adiantaria.
Mesmo assim tentou uma última vez.
— Ainda que acabem se separando, elimine os rumores primeiro. Isso prejudica os negócios. Principalmente porque o Comandante Gilbert Ferdinand é obcecado por encontrar suas fraquezas. Ele observa todos os seus movimentos.
Gilbert Ferdinand.
O homem que assumira o posto de Comandante Supremo após a saída de Carlisle do exército.
Também era alguém que via a influência deixada por Carlisle nas forças armadas com extrema hostilidade.
Por isso demonstrava constantemente seu complexo de inferioridade.
Criticava tudo.
Interferia em tudo.
Carlisle já havia descoberto vários espiões enviados por ele aos laboratórios da companhia.
— Bem… isso não tem relação alguma com a Rein Kleint. Que fraqueza ele poderia encontrar na minha vida privada?
— Não custa ser cauteloso…
Owen estava prestes a continuar.
Nesse momento, alguém bateu à porta.
O ajudante de Carlisle entrou.
Após fazer uma reverência respeitosa ao Príncipe Herdeiro, aproximou-se e sussurrou em seu ouvido.
— Nós a encontramos. Ela apareceu na townhouse da Cadney Road há uma hora.

