Capítulo 1

— Contato do Ministério dos Assuntos Militares. O senhor precisa partir imediatamente.

Ao ouvir o aviso do ajudante, Carlisle pousou os documentos que analisava, tirou o paletó e colocou sobre os ombros o casaco que seu subordinado lhe entregou.

As medalhas presas ao peito do uniforme de oficial refletiam a luz do sol, brilhando de maneira uniforme. O uniforme azul-marinho escuro, ajustado ao seu corpo robusto, tornava sua figura digna ainda mais impressionante.

Normalmente, usava ternos para os negócios, mas em dias como aquele vestia o antigo uniforme militar em sinal de respeito. Seu olhar voltou para os documentos.

Toc. Toc. Toc.

À medida que o som dos saltos se aproximava pelo corredor, suas sobrancelhas se moveram levemente.

— Senhora, neste momento eu…

Por trás da voz da funcionária que tentava impedir alguém, a porta se abriu e uma mulher entrou.

O escritório, dominado por tons acinzentados e por uma atmosfera imóvel, foi imediatamente preenchido por uma suave fragrância floral quando ela surgiu usando um vestido de seda rosa-vivo.

Não havia necessidade de virar a cabeça.

A dona daqueles saltos que invadia a empresa do marido daquela forma era óbvia.

Não havia motivo para surpresa nem para reação.

Até que uma folha de papel surgiu repentinamente diante de seus olhos enquanto recebia o quepe formal.

— Não sei do que se trata, mas agora não é um bom momento. Estou prestes a sair para uma inspeção.

— Vai levar apenas um instante.

A mão que estava prestes a assinar distraidamente, acreditando tratar-se de mais um pedido de verba para algum evento social, parou.

Uma irritação instantânea surgiu.

— São os papéis do divórcio. Basta assinar. Não é nada complicado.

Carlisle finalmente ergueu os olhos.

A mulher diante dele possuía uma pele tão pálida que fazia qualquer um se perguntar se ela realmente via a luz do sol. Os cabelos platinados estavam cuidadosamente arrumados.

Era uma beleza extraordinária.

Daquelas capazes de fazer qualquer homem acompanhá-la com os olhos como um tolo.

Principalmente naquele momento.

Mesmo sem sorrir, seus olhos claros brilhavam de forma mais delicada do que qualquer joia quando a luz os tocava. Sua postura impecável era tão perfeita que ninguém da alta sociedade encontraria algo para criticar.

Ainda assim, para Carlisle, ela havia se tornado uma mulher incômoda.

Ou até irritante.

Tudo apenas por existir.

Que tipo de truque é esse?

Yvonne Sellus.

Sua esposa.

Yvonne sustentou o olhar dele sem desviar os olhos.

Parecia ainda mais magra do que em sua última lembrança.

Quando foi a última vez que nos encaramos de verdade?

Há uma semana? No evento de testes da pólvora AKD 838?

Não.

Ele não tinha levado a esposa para aquele evento.

Então a lembrança era ainda mais antiga.

Mesmo assim, não conseguia recordar uma data exata.

E também não importava.

Desistindo de procurar memórias inúteis, observou em silêncio a esposa imóvel, semelhante a uma boneca.

Suas pupilas indiferentes se estreitaram ligeiramente.

Já fazia muito mais de um mês.

— Faça como quiser.

Com aquela resposta seca, a caneta-tinteiro que pairava sobre os documentos de aprovação deslizou até os papéis do divórcio.

Sem qualquer hesitação, assinou o próprio nome com uma elegante caligrafia cursiva.

Em seguida devolveu os documentos à esposa e lhe entregou a caneta.

Era um lembrete silencioso para que não esquecesse a própria assinatura.

Mas Yvonne apenas encarou o nome dele.

Conforme o silêncio se prolongava, o breve desconforto foi escondido sob sua habitual compostura.

Observando-a apertar a caneta entre os dedos, ele soltou uma risada baixa.

— Por que não está assinando?

— Estou prestes a fazê-lo.

Pouco depois, o espaço vazio ao lado da assinatura dele foi preenchido.

Ao contrário do que esperava, as sobrancelhas escuras de Carlisle se franziram.

— Deixe os papéis aqui. Mandarei alguém levá-los ao tribunal.

— Não. Eu mesma farei isso.

As pálpebras dela estremeceram levemente.

Ao notar aquela pequena mudança, o canto dos lábios dele se ergueu.

— Fazendo duas vezes uma coisa desnecessária…

Carlisle nem sequer tentou esconder o deboche.

Como esperado.

Ela era uma mulher que mentia constantemente para conseguir afeto.

Aquilo era apenas mais uma tentativa de chamar sua atenção.

Vir até a empresa dele com um pedido daqueles significava que não tinha a menor intenção de se divorciar.

Sua esposa já fazia coisas estranhas para atrair sua atenção havia bastante tempo.

No primeiro ano de casamento, sussurrava palavras de amor de forma exageradamente doce.

No segundo, tentava chamar sua atenção com atitudes sem importância e comparecia a todos os eventos oficiais possíveis, mesmo quando não era necessário, deixando-o desconfortável.

E no terceiro ano, principalmente nos últimos seis meses, parecia criar escândalos deliberadamente para provocá-lo.

Mas nada disso fazia diferença.

Ele enxergava através dela.

Sua esposa, que se beneficiava daquele casamento e cuidava do pai, jamais desejaria um divórcio.

Muito menos tomaria a iniciativa de pedi-lo.

Por isso não havia motivo para participar daquela disputa inútil.

Afinal, tudo não passava de uma encenação.

Carlisle recostou-se na cadeira.

O pôr do sol alaranjado projetava sombras sobre sua expressão arrogante sob os cabelos negros cortados rente.

Parecia um soldado até nos momentos mais comuns.

— Faça como quiser.

Claro.

Somente se ela realmente falasse sério.

Assim que terminou de falar, sua esposa se virou segurando os documentos.

Sua figura esguia afastou-se com a elegância impecável típica da alta sociedade.

A preciosa filha única do Condado de Sellus.

A mulher considerada a mais bela de todo o Reino de Windfog parou diante da porta.

Não foi rápido demais para desistir?

Enquanto pensava nisso, prestes a ignorar o assunto, ouviu a voz dela.

Sem sequer virar a cabeça.

— Não pedirei muita pensão. A townhouse da Cadney Road será suficiente.

— Apenas isso? Deveria exigir a divisão das propriedades dos Polshared, do castelo e até metade das minhas ações na companhia de munições Rein Kleint.

Diante da observação sarcástica, ela pareceu refletir por um instante.

— Não. Mesmo que eu tivesse suas propriedades e sua companhia, o que faria com elas? A townhouse basta.

Após fazer aquela exigência final, segurou a maçaneta.

Girou-a.

A porta se fechou.

E a mulher envolta em perfume floral desapareceu.

Carlisle acabou sorrindo de canto.

O esforço da esposa para preparar até mesmo o ponto final daqueles três anos de casamento era tão óbvio quanto desajeitado.

Concluiu que aquilo era apenas mais um teste.

E continuou se preparando para sair.

Quebra de página


Bang! Bang!

Uma sequência de disparos ecoou pelos vastos campos.

O centro do alvo circular foi perfurado e o mastro da bandeira chicoteou para trás.

Carlisle observava a demonstração de tiro com olhos atentos.

Seu cenho permanecia franzido, como se estivesse insatisfeito.

Os soldados escolhidos para a apresentação haviam sido divididos em dois grupos: os de excelente pontaria e os de habilidade mediana.

Mesmo assim, os resultados não eram muito diferentes.

Aquele era o dia de testes do rifle desenvolvido por sua empresa.

— O senhor chegou, coronel.

— Coronel? Agora sou apenas um empresário.

O major, que antes servia sob seu comando, levou a mão à testa em uma continência impecável.

Carlisle fez um gesto para que relaxasse e voltou a olhar para frente.

Mesmo conversando, sua atenção permanecia fixa na trajetória dos disparos.

Após outra rodada de tiros, moveu os dedos levemente.

Algo estava errado.

— Traga-o aqui.

— Sim, senhor.

Embora agora fosse presidente de uma companhia, o major entregou-lhe o rifle como se ainda estivesse diante de um coronel da ativa.

Mesmo após deixar o exército, a lendária façanha de Carlisle ao encerrar a guerra civil continuava sendo comentada.

Os soldados o observavam com admiração.

Carlisle segurou o rifle, apoiou a coronha contra o ombro e estreitou os olhos.

Mirou.

Então apertou o gatilho.

Bang!

O disparo ecoou como um trovão.

O centro do alvo, já destruído pelos tiros anteriores, foi atravessado com perfeição.

O mastro mal se moveu.

Os soldados admiraram silenciosamente aquela precisão impecável.

O novo rifle, desenvolvido com um cano mais curto para superar as limitações dos antigos mosquetes, possuía alcance e precisão muito superiores.

Comparado às armas tradicionais, era mais leve, mais curto e mais fácil de manusear.

Extremamente útil para reconhecimento e tiros de precisão.

— Deve ser uma questão de prática. Embora a bala pontiaguda tenha substituído a antiga bala esférica, provavelmente estão usando a mesma força de antes.

— Mesmo sendo mais potente, não há motivo para o disparo se espalhar daquela maneira.

Murmurando em preocupação, Carlisle examinou o interior raiado do cano.

Enquanto refletia sobre algo que não havia percebido durante os testes, seu ajudante, Henry, aproximou-se.

— Senhor.

Antes de se tornar ajudante, Henry também havia sido major.

Recebeu continências dos soldados e respondeu com um leve aceno antes de entregar um jornal a Carlisle.

— O que é?

— Uma edição extraordinária. Achei melhor que o senhor visse.

— Continue.

Carlisle devolveu o rifle ao major e pegou o jornal.

— Fogo!

Ao comando firme, os soldados alinharam-se, apontaram os rifles e puxaram os gatilhos.

Mesmo com os disparos ensurdecedores ao redor, Carlisle abriu o jornal recém-impresso.

[Dama Yvonne Polshared entra com pedido de divórcio no tribunal.]

Seu olhar esfriou instantaneamente.

Apenas sete horas antes, sua esposa havia aparecido em seu escritório pedindo o divórcio.

Agora a notícia ocupava a manchete principal.

Ela realmente havia levado os documentos ao tribunal.

Mas algo era ainda mais chocante do que o pedido oficial.

O motivo apresentado.

[Motivo alegado pela Duquesa Yvonne Polshared para o divórcio: aborto espontâneo causado pela violência do marido…]

A mão de Carlisle apertou o jornal.

O papel amassou-se sob seus dedos.

Naquele momento, Carlisle não conseguia sorrir nem um pouco.

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