Capítulo 9

Barrett tentou se explicar às pressas, mas percebeu tarde demais que suas palavras apenas haviam alimentado o fogo.

Rothbart soltou uma risada baixa.

O som de sua gargalhada preenchendo o quarto escuro era estranho e assustador.

Depois de rir por algum tempo, seu rosto se abriu no sorriso mais radiante possível, como se nada no mundo pudesse deixá-lo mais feliz.

— Chamam-me de demônio, mas parece que Deus está do meu lado.

Como tudo poderia estar acontecendo exatamente da forma que ele desejava?

Os lábios de Rothbart se curvaram amplamente.

Barrett não conseguia entender o que o agradava tanto.

Sentindo um arrepio percorrer sua espinha, abaixou a cabeça.

Um simples servo jamais ousaria tentar compreender os pensamentos de seu mestre.

Rothbart ergueu os olhos para o retrato de sua esposa, parcialmente escondido atrás da cortina.

Mesmo na escuridão, sua visão distinguia perfeitamente cada forma.

Uma mulher elegantemente vestida observava o vazio além da tela, sem qualquer sorriso no rosto.

Sua esposa sempre detestara posar para retratos.

Pensando agora, talvez fosse porque nunca desejara deixar vestígios de si naquele mundo.

Um sorriso de escárnio surgiu nos lábios de Rothbart.

Mas espere.

Eu vou arrastá-la de volta para os meus braços e nunca mais a deixarei escapar.

Existe alguém que a ame mais do que eu?

Quando finalmente a tivesse por completo, ele a possuiria repetidas vezes.

Até que seu ventre estivesse transbordando de sua semente.

Até que seu corpo se acostumasse inteiramente a ele.

Até que ela não ousasse mais abandoná-lo.

Até que sequer pensasse em outro homem.

Era assim que deveria ter feito desde o começo.

Os olhos de Rothbart arderam como chamas infernais.

Sua determinação cruel fervia dentro dele.

Exibindo o sorriso de uma fera, ele disse:

— Traga Madame Dova. Tenho algo para lhe pedir.

Quebra de página

Anna passou o dia inteiro em constante apreensão.

Sua boca estava seca de tanto permanecer em alerta, temendo que Rothbart mandasse chamá-la a qualquer momento.

Felizmente, o marquês parecia tê-la esquecido completamente.

Dois dias se passaram enquanto ela mantinha a cabeça baixa e evitava chamar atenção.

Ninguém a procurou.

Talvez ele pretendesse enterrar todo o incidente.

Afinal, diante do mundo, era conhecido como um homem devotado à esposa falecida.

Ser descoberto sob efeito de drogas e envolvido com uma simples criada não passaria de uma mancha em sua reputação.

Anna desejava desesperadamente que sua lógica estivesse correta.

Diziam que o marquês não permanecia muito tempo na mansão.

Se conseguisse evitar seu olhar por apenas três meses, poderia suportar.

Depois que ele partisse, voltaria a procurar o diário da marquesa.

A chave que havia roubado de Svanhild ainda estava em sua posse.

Ela havia pensado várias vezes em devolvê-la.

Mas, diante da situação atual, decidiu ficar com ela.

De qualquer forma, Svanhild não a procuraria tão cedo.

Enquanto o pai estivesse na mansão, o quarto da marquesa seria vigiado com ainda mais rigor.

Depois de tomar essa decisão, sentiu-se um pouco mais tranquila.

Mas isso não significava que todos os seus problemas haviam desaparecido.

O calor daquele homem que aprisionara seu corpo surgia repentinamente em sua mente para atormentá-la.

E ainda havia os vestígios físicos que ela não conseguira resolver.

Com uma expressão preocupada, Anna retirou discretamente as roupas íntimas daquele dia.

Sob a luz, as peças rasgadas estavam manchadas de sangue escuro e sêmen.

— Isso vai ser difícil de resolver…

Anna suspirou baixinho.

Tinha quase certeza de que, mesmo lavando, as manchas permaneceriam.

Talvez pudesse alegar que era sangue menstrual.

Mas o tecido rasgado ainda precisaria ser costurado.

Também não era fácil conseguir roupas íntimas novas.

Sem dinheiro, sua única opção era remendar o que tinha sempre que encontrasse tempo.

No início, costurar à mão havia sido difícil.

Mas agora já estava bastante acostumada.

O melhor que podia fazer era se consolar pensando que terminaria rapidamente.

Somente depois de resolver desesperadamente seus problemas mais imediatos Anna percebeu outra questão.

Rothbart não havia tomado qualquer precaução.

O rumor de que demônios só podiam gerar filhos com Cisnes reacendeu sua inquietação.

Anna calculou seu ciclo inúmeras vezes antes de finalmente se acalmar.

Felizmente, não estava em seu período fértil.

Talvez a história fosse apenas uma lenda.

Ainda assim, era melhor ser cautelosa.

Ela suspirou enquanto observava novamente as roupas danificadas.

Primeiro precisava conseguir linha.

Anna levantou-se.

Se pedisse à chefe das criadas, conseguiria toda a linha branca de algodão de que precisasse.

Susan costumava se gabar disso.

Segundo ela, em muitas outras casas nobres, até mesmo uma comodidade tão simples não era garantida às criadas.

Enquanto caminhava pelo corredor em busca de Madame Dova, acabou encontrando Rose Schwartz.

Dizem que inimigos sempre se encontram em pontes estreitas.

E, de todos os momentos possíveis, tinha de ser justamente agora.

Anna baixou rapidamente a cabeça e tentou passar sem chamar atenção.

Mas Rose a segurou.

— Você parece muito ocupada ultimamente, não é?

Entre todas as pessoas que Anna conhecera desde que chegara àquele mundo, Rose era a mais bonita.

Mas seu sorriso torto e sua expressão carregada de malícia sempre arruinavam sua beleza.

As criadas zombavam dela, dizendo que o marquês sequer a reconhecia.

Ainda assim, comparada a uma simples criada, Rose continuava muito mais próxima dele.

Anna não desejava provocá-la.

Tentando esconder o desconforto, respondeu rapidamente:

— A senhora está enganada.

— Então não está ocupada? Deve ter muito tempo livre para ficar vagando por aí como uma criada preguiçosa.

A ponta do dedo de Rose atingiu sua têmpora com força.

O insulto fez a raiva subir instantaneamente.

Mesmo assim, Anna a reprimiu.

— O marquês retornou e você nem sequer apareceu. Eu precisava falar com você e mandei chamá-la, mas você não estava em lugar nenhum. Onde estava?

Os olhos de Rose brilhavam como os de um falcão perseguindo a presa.

Ela sempre encontrava algum motivo para implicar com Anna.

Às vezes tinha sorte e Madame Dova surgia para ajudá-la.

Mas não desta vez.

Naquele momento, havia apenas as duas no corredor.

Não havia sequer uma criada por perto para buscar ajuda.

— Eu estava doente naquele dia…

— Sério? Porque você não estava nos aposentos.

— Eu estava com dor de estômago.

— Dor de estômago? Engraçado. As garotas que usam essa desculpa costumam acabar agarradas a homens em algum canto escuro.

Ao ouvir aquelas palavras debochadas, as pontas dos dedos de Anna ficaram geladas.

Um suor frio escorreu por suas costas.

Rose parecia saber exatamente o que havia acontecido.

Mesmo assim, Anna forçou um sorriso.

— Não é verdade.

— Então por que você estava andando por aí como um rato ao amanhecer?

— Eu…

Sua boca secou.

Ela acreditava que ninguém a tinha visto.

Por isso sentira tanto alívio.

Agora descobria que Rose a havia observado.

Será que a viu saindo do quarto proibido?

Não.

Se tivesse visto, teria perguntado diretamente.

Ela estava apenas tentando arrancar alguma confissão.

Se Rose a acusasse de comportamento indecente, Anna não teria como se defender.

Nem mesmo Madame Dova conseguiria encobrir algo assim.

E, se viesse à tona que o homem envolvido era o próprio marquês, os rumores se espalhariam rapidamente.

Pior ainda.

Ele poderia decidir eliminá-la para proteger sua reputação.

Os pensamentos de Anna se embaralharam.

O que deveria responder?

Se mentisse de forma descuidada, poderia acabar cavando sua própria cova.

O medo de apertar ainda mais o laço ao redor do próprio pescoço a impediu de falar.

Queria fugir dali o mais rápido possível.

Mas Rose parecia determinada a mantê-la presa até obter uma resposta satisfatória.

Foi então que uma voz clara e agradável interrompeu o corredor.

— Professora.

Anna acreditava que não havia mais ninguém por perto.

Mas uma sombra se estendeu pelo chão.

Svanhild apareceu.

Pelo modo como os observava calmamente, parecia estar ali havia tempo suficiente para testemunhar a cena.

Rose também se assustou.

Rapidamente corrigiu a expressão zombeteira.

— Jovem mestre.

— Meu pai está chamando a senhora.

— …O marquês?

— Sim. Pareceu urgente.

Rose lançou um último olhar afiado para Anna.

Então soltou uma risada de escárnio, como se estivesse zombando do alívio estampado em seu rosto.

Em seguida, virou-se e seguiu em direção aos aposentos de Rothbart.

Anna soltou um longo suspiro.

Sabia que Rose a havia procurado naquele dia.

Mas não imaginava que continuaria tão obstinada mesmo depois de vários dias.

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