Capítulo 8
Ao contrário da fama terrível da mansão, as criadas dali eram todas boas pessoas.
Graças a elas, Anna havia conseguido suportar tudo até agora.
Deitada na cama, ela fechou os olhos com força.
Tentou apagar de sua memória, uma a uma, as marcas deixadas por Rothbart — seu toque, a dor, seus sussurros.
Mas, quanto mais tentava esquecê-lo, mais profundamente seus vestígios se agarravam à sua mente.
Como se zombassem de seus esforços.
Como se Rothbart tivesse cravado uma estaca em seu coração.
— Você sempre é assim. Só pensa em si mesmo.
Banhada por uma luz suave que entrava pela janela atrás dela, uma mulher falou baixinho para Rothbart.
Era a voz calma e gentil pela qual ele sempre ansiara.
Um sussurro.
Embora soubesse que aquilo era um sonho, Rothbart se afogava de bom grado naquela voz.
Mesmo quando ela o repreendia.
— Você nunca se importa com o que eu sinto.
— Isso não é verdade, Ianna. Como pode dizer isso? Tudo de que eu preciso é de você.
— Mentira.
Ianna.
O único amor de Rothbart.
Ela sorriu com amargura.
Então ergueu a mão pálida e delicada e acariciou o rosto dele, que a abraçava pela cintura.
— Roth, você ficará bem sem mim. Não ficará? No fim das contas… eu fui escolhida apenas para gerar seu filho.
— Não. Se eu não tiver você…
Rothbart balançou a cabeça vigorosamente.
Mas Ianna não pareceu convencida.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
Um sorriso frágil, como se pudesse desaparecer a qualquer instante.
— Eu cumpri minha promessa, Roth. Eu lhe dei um filho… Agora é você quem precisa cumprir a sua. Eu… preciso voltar para o meu mundo original. Existe alguém que deixei para trás. Não posso abandonar essa pessoa…
— Não… Ianna! Não vá! Não me abandone!
Cruelmente, ela começou a desaparecer de seus braços.
Rothbart a apertou com mais força.
Mas suas mãos agarraram apenas o vazio.
— Ianna!
No mesmo instante, seus olhos se abriram na escuridão.
Mesmo nas trevas absolutas, seus olhos vermelhos brilhavam intensamente.
Despertando por fim do sonho, Rothbart respirou de forma irregular.
— Você tenta escapar de mim não apenas na realidade… mas até nos sonhos.
Mulher cruel.
Apesar de sentir tanta saudade dela, ela nunca aparecia em seus sonhos.
Talvez por isso, embora aquele raro sonho parecesse uma queda sem fim em um abismo, ele também sentisse uma pequena satisfação por tê-la visto.
Revirando esses sentimentos contraditórios dentro de si, Rothbart sentou-se.
Seu corpo perfeito e musculoso estava coberto de suor.
A razão daquele sonho repentino era óbvia.
Aquela criada.
Ele realmente havia sido afetado pela droga.
Mas não a ponto de perder a memória.
O odor decadente e lascivo que ainda permanecia no quarto desde o dia anterior atingia seu nariz como uma lembrança constante.
Rothbart recordou a forma como ela se contorcera sob ele.
Seu corpo esguio e delicado brilhando na escuridão.
Apertado.
Inexperiente.
Ao se lembrar daquela mulher que se parecia tanto com sua esposa, sentiu novamente o desejo despertar em seu corpo.
Ela possuía um aroma desconhecido.
Um aroma que nenhum ser humano daquele mundo poderia ter.
Um aroma que apenas sua esposa possuíra.
Sua mente ainda estava confusa.
Mas sua decisão veio rapidamente.
— Barrett!
Rothbart chamou.
Ele era capaz de convocar seus servos leais à distância.
Era um dos pequenos poderes herdados do sangue demoníaco que corria em suas veias.
Seu fiel mordomo respondeu prontamente.
Pouco depois, ouviu-se uma batida à porta.
— Chamou por mim, mestre?
— Aquela criada.
Mesmo antes de Barrett entrar completamente no quarto, Rothbart foi direto ao assunto.
— Nomeie aquela criada como minha criada pessoal.
— Mas…
Rothbart havia dito apenas “aquela criada”.
Ainda assim, Barrett imediatamente soube de quem ele estava falando.
Só existia uma mulher que poderia ser.
Na verdade, ele já pretendia falar sobre ela.
Quando a jovem apareceu pedindo trabalho na mansão pela primeira vez, seu coração quase saltou do peito.
O mundo acreditava que a marquesa estava morta.
Mas aquilo era apenas parte da verdade.
O funeral fora realizado pelo pai de Rothbart, o duque Albert.
Entretanto, Rothbart jamais aceitara sua morte e continuava procurando por ela.
A verdade permanecia desconhecida.
Mas havia um fato impossível de negar.
A criada se parecia com a marquesa, cujo destino permanecia incerto.
Se ela realmente era ou não a marquesa, apenas Rothbart poderia julgar.
Por isso Barrett enviara um telegrama urgente.
Embora a mensagem nunca tivesse chegado ao seu destino, o destino parecia ter trazido Rothbart de volta mais cedo.
E naquele mesmo dia ele a encontrou.
Ainda assim, pela atitude de Rothbart, não parecia haver qualquer intenção de tratá-la como a marquesa.
Barrett não sabia dizer se aquilo era apenas um capricho passageiro ou uma decisão definitiva.
No entanto, ao observar o rosto de Rothbart, não viu qualquer hesitação.
Apesar da repentina decisão, transformá-la em criada pessoal não era um impulso nem uma brincadeira.
Os cantos de seus lábios se ergueram.
Dentes afiados apareceram.
— A última envocação. Claramente fracassou.
— …Sim.
— Foi a primeira envocação em que Svanhild realizou.
— Sim.
Rothbart abaixou a cabeça.
Seus ombros tremeram enquanto ele soltava uma risada silenciosa.
Uma risada que soava ao mesmo tempo amarga e sarcástica.
A névoa deixada pelo sono e pelas drogas começou a desaparecer gradualmente.
Em seu lugar surgiu uma excitação crescente.
A idade dela estava errada.
Além disso, uma mulher que já havia dado à luz possuía agora o corpo de uma virgem.
E, acima de tudo, não tinha memória alguma.
Diante de circunstâncias tão estranhas, Barrett não conseguia afirmar se Anna realmente era a marquesa.
Mas Rothbart era diferente.
No instante em que a encontrou, sua alma inteira vibrou de êxtase.
Trazer uma pessoa de outro mundo sempre envolvia inúmeras variáveis.
Invocar alguém específico era praticamente um milagre.
O resultado daquele experimento havia sido, sem dúvida, um sucesso.
Não perfeito.
Mas próximo disso.
Talvez ela não tivesse realmente perdido as memórias.
Talvez apenas fingisse amnésia.
Talvez, incapaz de encará-lo descaradamente após tudo o que acontecera, tivesse escolhido recomeçar sob uma nova identidade.
Viver naquele mundo como um Cisne e, além disso, como alguém do continente oriental, certamente não era fácil.
Para qualquer pessoa comum, aquela seria a pior das escolhas.
Mas Rothbart preferia acreditar que ela se lembrava de tudo.
Mesmo que estivesse fingindo.
Porque isso a faria sofrer ainda mais.
— Não importa o motivo… Ela deve ter algo a ganhar ao voltar para cá com aquele rosto inocente. Tenha sido intencional ou não… não vou desperdiçar esta oportunidade. Vou entrar no jogo dela.
Rothbart pretendia brincar com ela por muito tempo.
Empurrá-la contra a parede repetidas vezes.
Levá-la ao limite.
Secá-la completamente.
Até que fosse obrigada a revelar seus verdadeiros sentimentos.
E, se realmente não se lembrasse de nada…
Nada mudaria.
Ela ainda teria de pagar pelos seus pecados.
Ao ouvir o murmúrio carregado de rancor de Rothbart, Barrett soltou um suspiro.
Segundo seu julgamento limitado, aquilo não parecia um caminho sensato.
Mas o ódio e a obsessão que Rothbart cultivava havia mais de dez anos estavam muito além de qualquer comentário que ele pudesse fazer.
Uma vez que o marquês havia decidido, restava apenas obedecer.
Com cautela, Barrett acrescentou:
— Ela tinha um acompanhante.
— Um acompanhante?
— Sim. Um homem que também parece ser do continente oriental. Eles afirmam ser irmãos, mas… a forma como aquele homem a tratava estava longe de ser algo entre irmãos. Talvez valha a pena verificar pessoalmente, mestre.
Barrett deixou a frase no ar.
Mesmo que Rothbart não a tratasse como a marquesa, isso não significava que ela fosse uma mulher comum.
O simples fato de tê-la escolhido como sua criada pessoal já provava o contrário.
Rothbart realmente toleraria que um homem permanecesse ao lado dela mulher assim?
Barrett esperava vê-lo explodir de fúria.
Mas Rothbart apenas perguntou calmamente:
— Até que ponto? Eles se beijaram?
— Não, nada disso! Apenas… o homem segurava sua mão e a tocava de maneira íntima demais… para alguém que deveria ser apenas um irmão…

