Capítulo 6
Sehyun soltou uma risada sem graça antes de perguntar novamente.
Ao ouvir a pergunta, os aldeões trocaram olhares e caíram na gargalhada.
— Vocês não sabem o que são demônios e também não sabem o que são cisnes? Bem, sendo do continente oriental, acho que é compreensível. Não é nada complicado. Por aqui, chamamos de cisnes aqueles que descem dos céus.
— Como anjos?
— Não exatamente. Os cisnes não têm asas.
O coração de Anna deu um salto.
Ela e Sehyun compreenderam instintivamente que “cisne” era o nome dado a viajantes dimensionais como eles.
Quando chegaram àquele mundo, tiveram a sorte de cair em uma floresta onde ninguém os viu.
— Não seria como um anjo caído que perdeu as asas após cometer um pecado e ser expulso dos céus? Talvez seja por isso que possam formar pares com demônios.
— Se nós somos cisnes, então isso significa que três anjos já caíram dos céus.
— Meu Deus, o fim do mundo está próximo!
Ao ouvir a brincadeira tranquila de Anna, o carpinteiro explodiu em gargalhadas e bateu na própria coxa.
Embora Anna e Sehyun fingissem encarar aquilo com leveza, ambos ficaram profundamente abalados.
A existência de outros viajantes dimensionais os inquietava.
E o fato de a marquesa ter a aparência de alguém do continente oriental, assim como eles, os perturbava ainda mais.
Se o que os aldeões diziam fosse verdade…
Se a marquesa realmente tivesse retornado aos céus, ao seu mundo original…
Então talvez a resposta estivesse escondida dentro da propriedade dos Lohengrin.
Agarrando-se a essa esperança, os dois partiram para a propriedade Lohengrin ao amanhecer do dia seguinte.
Não sabiam se o que os aguardava seria um farol de esperança…
Ou a luz enganosa de um peixe-das-profundezas atraindo sua presa.
***QUEBRA
Embora seu corpo parecesse pesado e mole como algodão encharcado, os olhos de Anna se abriram de repente.
A escuridão ainda a cercava.
Mas o silêncio absoluto lhe dizia que era o meio da noite.
Ela piscou lentamente.
Ondas de cansaço invadiram seu corpo.
Diferente da cama estreita e dura de palha destinada às criadas, agora ela estava deitada sobre penas macias e algodão fofo que acolhiam seu corpo exausto com extrema suavidade.
O conforto era tão grande que quase a fez voltar a dormir.
Mas ela não podia.
As lembranças retornaram uma após a outra, como uma luz vacilante.
Até que, por fim, sua última memória antes de perder a consciência voltou completamente.
Assim que recordou tudo, Anna sentou-se abruptamente.
Ela estava nua.
Ao seu lado dormia um homem enorme, igualmente despido, com um braço repousado sobre sua cintura.
Os lençóis ainda carregavam vestígios do que acontecera.
Sua pele clara estava marcada por mordidas e hematomas.
Havia tantas marcas que era doloroso olhar para elas.
Era impossível imaginar o que havia acontecido enquanto estava inconsciente.
Seu rosto queimou de vergonha e medo.
Incapaz de encarar o rosto do marquês, ela se esgueirou cuidadosamente para fora da cama.
Na ponta dos pés, avançava com cautela.
A cada passo, seus calcanhares pálidos erguiam-se nervosamente do chão.
Logo encontrou suas roupas espalhadas pelo quarto e vestiu-se às pressas.
As roupas íntimas estavam rasgadas e inutilizáveis.
Felizmente, o uniforme de criada permanecia intacto.
Sua cintura doía.
Suas pernas tremiam.
Mesmo assim, ela se apressou.
Precisava sair daquele quarto.
Precisava fugir do lugar onde havia se entregado ao marquês e perdido o controle de si mesma.
— Mmm…
Nesse momento, Rothbart se moveu durante o sono.
Apavorada com a possibilidade de encará-lo, Anna recolheu seus pertences do chão e correu para fora.
Ao atravessar a porta em pânico, seus olhos passaram brevemente pelo retrato da marquesa acima da lareira.
Na escuridão profunda, ela não conseguia distinguir claramente os traços da pintura.
Ainda assim, por algum motivo, parecia que a mulher retratada estava sorrindo de forma estranha.
Como se zombasse do marido e da criada que haviam se deitado sob sua imagem.
É só impressão.
Anna balançou a cabeça com força.
Aquilo não tinha sido sua escolha.
Ela também era uma vítima.
Mesmo assim, sentia uma culpa estranha pressionando seu coração.
Do lado de fora do quarto, as três luas brilhavam intensamente através das janelas.
A luz delas caía sobre ela como uma lâmpada de interrogatório.
Como se expusesse todos os seus pecados.
Sob aquele luar brilhante, Anna mordeu os lábios inchados e correu pelo corredor banhado pela luz das três luas.
Tudo o que desejava era acordar daquele pesadelo.
“Se alguém a visse naquele estado miserável, como poderia explicar o que havia acontecido?”
Felizmente, o corredor estava vazio.
Graças a isso, Anna conseguiu retornar em segurança aos aposentos das criadas.
Já devia ser muito tarde.
As outras empregadas dormiam profundamente.
Soltando um suspiro de alívio, ela se enfiou na própria cama e puxou o cobertor sobre a cabeça.
O aroma adocicado do incenso ainda permanecia em suas narinas.
Sua mente continuava enevoada.
Talvez o cheiro tivesse penetrado profundamente em sua consciência e ainda não tivesse desaparecido.
Aquela havia sido sua primeira experiência.
Nunca alimentara fantasias especiais sobre isso.
Mas jamais imaginara que seria drogada e forçada por um homem cujo rosto mal conseguira enxergar.
Ainda assim, ela não tinha tempo para se lamentar.
Havia um problema muito mais urgente.
“E se alguém descobrir que entrei no quarto proibido?”
O marquês estava sob efeito da droga.
Ele havia confundido seu rosto com o da marquesa.
Portanto, provavelmente não se lembraria de sua aparência real.
Mas, enquanto continuasse vivendo em Swan Grave, ela permaneceria ao alcance dele.
Mesmo que ele não investigasse imediatamente a criada que desaparecera naquele noite…
Bastaria um único fio de seus longos cabelos negros esquecido naquele quarto para identificá-la.
Sem mencionar todos os vestígios que haviam ficado para trás.
Para alguém como o marquês, descobrir sua identidade através das pistas seria mais fácil do que contar as linhas da própria palma da mão.
“Se o marquês descobrir tudo… ele nunca me deixará viver.”
Ao recordar a devoção obsessiva que ele demonstrava diante do retrato da marquesa e a fúria que exibira ao encontrar um intruso, Anna teve certeza.
Ele jamais perdoaria alguém que tivesse profanado aquele quarto.
“Será que seria melhor fugir da mansão…?”
Anna rapidamente balançou a cabeça.
Por que ela havia vindo para aquela mansão?
Para encontrar uma maneira de voltar ao seu mundo original.
Mesmo que ninguém estivesse esperando por ela…
Seu pai havia morrido em um acidente quando ela ainda estava no ensino médio.
Depois que entrou na universidade, sua mãe adoeceu gravemente.
E apenas alguns meses atrás, sua mãe finalmente perdeu a batalha contra a doença e faleceu.
Anna era filha única.
Estava afastada dos parentes havia muito tempo.
Por causa da enfermidade da mãe, dividia seus dias entre trabalhos de meio período e visitas ao hospital.
Não teve tempo para construir amizades.
A única pessoa com quem mantinha uma ligação era seu namorado, Sehyun.
E até ele havia sido arrastado para aquele mundo junto com ela.
Diferente de Sehyun, o precioso filho mais velho de sua família, não havia ninguém que procuraria por Anna caso ela desaparecesse.
Na verdade, ela poderia continuar vivendo naquele mundo.
E talvez ninguém se importasse.
Mesmo assim…
Ela queria voltar.
Porque todas as suas memórias estavam lá.
Porque seu túmulo estava lá.
Foi a própria Anna quem escolheu o local onde seus pais descansariam.
Então quem escolheria o túmulo dela?
No final, apenas ela mesma poderia fazer essa escolha.
Ela havia decidido que seu lugar seria o columbário ao lado de seus pais, em seu mundo original.
Anna amava seus pais.
Por isso sempre reprimiu os próprios desejos por eles.
Até mesmo a universidade que frequentou foi uma escolha feita em consideração à família.
A primeira coisa que realmente escolheu por si mesma em toda a vida foi o próprio túmulo.
Ela se recusava a permitir que até mesmo uma viagem dimensional lhe roubasse esse direito.
Foi por isso que Anna arriscou tudo para vir até Swan Grave.
Mesmo ouvindo rumores sombrios sobre o lago que ficava vermelho como sangue todos os anos.
Mesmo ouvindo histórias sobre corpos sendo retirados dali.
Ela nunca hesitou.
“Em vez de viver o resto da vida neste lugar estranho, prefiro morrer tentando voltar para meu mundo original. Nunca fui alguém que desejasse viver desesperadamente, afinal…”
Os olhos de Anna tornaram-se frios e determinados.
Ainda assim, porque a morte a aterrorizava, repetiu aquele pensamento inúmeras vezes dentro da própria mente.
Como um mantra.
Como se estivesse tentando convencer a si mesma.

