Capítulo 44

Anna havia passado muito mais tempo com Rothbart do que com Rose.

Mas confiança era outra questão.

Diferente de Rose, que demonstrava sua hostilidade abertamente, todas as emoções que Rothbart mostrava a Anna eram nebulosas, como uma névoa densa.

— Assim como minha esposa retornou quando a lua vermelha surgiu… tive a sensação de que você também poderia partir.

De repente, as palavras que Rothbart havia dito depois de fazer amor com ela naquela manhã voltaram à sua mente.

— Mas, se pudesse partir, iria imediatamente, não é?

Naquele momento, Anna não entendera por que ele dissera algo tão absurdo.

Mas, se o que Rose contara fosse realmente o método para retornar ao mundo original, então a razão da inquietação de Rothbart tornava-se clara.

Se Rothbart havia mentido, por que inventaria especificamente a desculpa de que ela precisava gerar uma criança?

Porque apenas um cisne poderia dar à luz um filho de demônio?

Mas ele já tinha Svanhild.

Não havia urgência por um herdeiro.

Além disso, ele não parecia alguém que se importasse tanto com crianças a ponto de desejar mais.

Será que… ele apenas queria criar um motivo para que eu abrisse as pernas de livre vontade? Mas por que iria tão longe?

Incontáveis suposições atormentaram Anna.

Quanto mais pensava, mais profundamente afundava em dúvidas sem fim.

Sentia-se sufocada.

Como se mãos invisíveis a arrastassem para um pântano, enchendo seus pulmões de lama.

Anna havia confiado nele.

Uma confiança frágil como palha.

Construída sobre um contrato unilateral.

Mantida apenas por encontros físicos vazios.

Enquanto sua própria existência era tratada como nada além de uma substituta.

Mas, quando aquela confiança se despedaçou, tudo se dispersou como uma ilusão.

E ela havia entregado seu coração àquela ilusão.

A sensação de traição retorceu suas entranhas.

Mesmo cedendo-lhe sua cama.

Mesmo chamando seu nome durante os momentos mais íntimos.

Talvez tudo tivesse sido calculado para baixar sua guarda.

E ela…

Tola.

Feliz apenas por ouvir seu nome nos lábios dele.

O que Rothbart pensava ao observá-la?

Ele me pediu para substituir a Marquesa. Isso significava suportar a vingança dele em lugar dela também?

Anna soltou uma risada vazia.

Pensando bem, quando Rothbart lhe pedira pela primeira vez que ocupasse o lugar da Marquesa, aquilo não passara de uma proposta.

Ele nunca a castigara por invadir o quarto da Marquesa.

Talvez tudo aquilo…

Até mesmo as mentiras…

Fossem o castigo que ela deveria suportar.

Quando encarava tudo como uma vingança por procuração, conseguia entender vagamente por que ele tentara transformá-la em amante.

Até mesmo em esposa.

Quanto mais alto alguém é erguido, mais dolorosa é a queda.

No fim, ela não passara de uma caixa de música em suas mãos.

Girando e girando conforme ele dava corda.

Produzindo sons agradáveis.

Apenas para ser arremessada ao chão depois.

Despedaçar-se no lugar da esposa que escapara de suas mãos.

Era esse o destino que Rothbart preparara para Anna.

— Para mim, Anna, não existe ninguém além de você.

Devia ser isso.

Se o objetivo dele era fazê-la sofrer, então havia conseguido.

Porque tudo aquilo junto a empurrara diretamente para o fundo do inferno.

Mas Sehyun, sem imaginar o caos que tomava conta do coração de Anna, interpretou seu silêncio de outra forma.

— Anna, esta me ouvindo?

— Não vou conseguir.

— Por quê? Porque você não tem as roupas? Você vendeu suas roupas, mas ainda guardou as roupas íntimas, não foi?

— Até minhas roupas íntimas foram roubadas. Não me restou nada…

Anna murmurou distraidamente.

Só então percebeu.

Não possuía mais nenhuma peça de roupa de seu mundo original.

Mesmo que enviasse alguém à aldeia onde as vendera, levaria tempo demais.

E, ainda que a mensagem chegasse, meses haviam se passado.

As chances de aquelas roupas ainda estarem lá eram mínimas.

Se o método de Rose fosse verdadeiro, Anna havia perdido completamente a possibilidade de retornar ao seu mundo.

Claro que isso a desesperava.

Mas o que realmente a lançava ao desespero era a traição de Rothbart.

Do começo ao fim, tudo não passou de mentira.

Esperar qualquer coisa dele fora seu erro.

Desde o princípio, ela era apenas uma substituta.

Tudo já estava condenado desde o início.

Esperar que o final fosse diferente era absurdo.

Anna não queria mais pensar.

O cansaço a dominava repetidamente, mergulhando-a numa névoa pesada.

Ela só queria fugir.

— Então podemos dividir minhas roupas. Talvez tenhamos brigado um pouco neste mundo… Mas ainda vamos voltar juntos, não vamos? Certo?

Sehyun continuou insistindo pacientemente.

Era uma consideração muito diferente do egoísmo que ele demonstrara tantas vezes naquele mundo.

Observando a expressão dela, acrescentou:

— Ou… você não quer voltar para o nosso mundo?

— …Não.

Anna balançou lentamente a cabeça.

Sua mente estava um caos.

Ela já não sabia o que realmente desejava.

Queria agarrar Rothbart pela gola e exigir uma explicação.

Queria saber por que ele havia mentido.

Ao mesmo tempo, queria desaparecer para sempre sem trocar mais uma única palavra com ele.

E, ainda assim, não conseguia acreditar que aquilo fosse realmente o fim.

De qualquer forma, se Sehyun estivesse certo, aquela era sua última oportunidade.

Se ele retornasse sozinho ao mundo original, Anna jamais conseguiria recuperar as roupas que perdera.

Ela falou em voz fraca:

— Se você me emprestar suas roupas, oppa…

— Claro.

Animado com aquela tímida concordância, Sehyun rapidamente explicou seu plano.

— Ótimo. Vou me esconder por enquanto. Quando escurecer e todos os criados voltarem para seus quartos, sairei discretamente da mansão. Se formos pegos juntos, será difícil explicar. Você vem depois, um pouco mais tarde.

— Tudo bem.

— Então, nesse meio-tempo, vou buscar as roupas. Eu as escondi em um lugar onde ninguém jamais encontraria. Você conhece o grande cravo-da-índia no caminho entre os estábulos e o jardim, não conhece? Vamos nos encontrar perto dele por volta da uma da manhã.

Anna assentiu lentamente.

Seu corpo tremia por causa da traição.

Ela odiava a si mesma por ter sentido pena de Rothbart.

Por um instante sequer.

Chegara até a considerar abandonar seu mundo original para permanecer ao lado dele.

Depois que a linha fosse cruzada…

Aquilo que Anna havia abandonado.

Aquilo que quebrara dentro de si.

Rothbart jamais compreenderia enquanto vivesse.

Talvez nunca tivesse sequer tentado compreender.

Para ele, a única pessoa realmente importante continuava sendo a esposa que já partira.

Como alguém que nunca confiara facilmente nos outros havia acabado daquele jeito?

Ela fora enfeitiçada.

Por aqueles momentos em que seus olhos vermelhos, da cor do coração, brilhavam suavemente enquanto a observavam.

Sem perceber que talvez estivessem voltados para a sombra da Marquesa atrás dela.

Não.

Não era que ela não soubesse.

Ela sabia.

Mas escolheu ignorar.

Apenas para umedecer os lábios com a única gota de afeto que ele lhe oferecia.

Tudo aquilo era consequência de suas próprias escolhas.

Anna fechou os olhos.

Diziam que o poder dos demônios não funcionava em cisnes.

Mesmo assim, a risada zombeteira daquele demônio ecoava em seus ouvidos como uma alucinação.

Quebra de página

Depois que Sehyun deixou o quarto, Anna não teve qualquer noção de como o tempo passou.

As criadas que dividiam o aposento lançaram alguns olhares para ela, imóvel sobre a cama.

Como sempre, concluíram que não estava se sentindo bem.

Virando-se de costas para elas, Anna permaneceu deitada com os olhos abertos, observando o tempo escorrer lentamente.

Enquanto isso, o céu escureceu.

E toda a mansão adormeceu.

Era o horário combinado com Sehyun.

Silenciosamente, Anna se levantou da cama.

Deixando as outras criadas dormindo, caminhou na ponta dos pés para não fazer barulho.

Naquela noite, o corredor mergulhado na escuridão estava incomumente silencioso.

Vestindo um vestido negro sem o avental branco, ela se confundia facilmente com as sombras.

Seus passos eram firmes.

Iluminado pelo luar avermelhado, seu rosto pálido parecia rígido como cera.

O fato de faltarem apenas algumas horas para retornar ao seu mundo original lançava ainda mais confusão sobre seus pensamentos.

Quando descobrira que Rothbart mentira para ela, sentira como se tivesse recebido um tapa.

Sua visão girou.

Sua mente mergulhou no caos.

Mas, enquanto permaneceu sozinha refletindo sobre tudo repetidas vezes, seu coração foi se tornando cada vez mais duro.

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