Capítulo 27

Naquele dia, foi a primeira vez que Rothbart revelou a Anna seus pensamentos mais íntimos de forma tão profunda. Até então, tudo o que dizia respeito à esposa dele permanecera envolto em névoa.

À medida que os fragmentos da verdade se aproximavam, uma pequena centelha de inveja acendeu-se em um canto do coração de Anna. Para alguém que não tinha ninguém em quem se apoiar em todo o mundo, que vendera o próprio corpo apenas para retornar e cuidar das cinzas dos pais, como não invejar a Marquesa, que tinha alguém ansiando exclusivamente por ela?

Se ao menos Rothbart me amasse tanto quanto amava a Marquesa…

Anna balançou a cabeça diante daquele pensamento absurdo.

Depois de tudo o que Rothbart lhe fizera, em vez de odiá-lo, ela se via desejando receber nem que fosse uma migalha de seu afeto. Aquilo não era nada menos que síndrome de Estocolmo.

Talvez fosse porque nada naquele mundo tivesse muito peso para ela.

Talvez porque, desde a morte dos pais, sua vida vagasse como uma planta-d’água à deriva, sem raízes nem laços que a prendessem a alguém.

Ou talvez porque sua tolerância cada vez maior à corrupção e a facilidade crescente com que seu corpo despertava para o desejo a levassem a aceitar de bom grado o prazer que ele lhe oferecia.

Pensando bem, desde o início Rothbart enxergara suas fraquezas com a mesma facilidade de quem lê as linhas da própria palma da mão.

E, ainda assim, ela havia lhe entregue o corpo sob o pretexto de gerar um filho.

Seu corpo, completamente conquistado, agora abalava até mesmo sua mente.

Mas Anna conhecia a verdade.

Um homem como Rothbart jamais entregaria o coração a qualquer mulher além da Marquesa.

Não porque a amasse.

Mas porque a odiava.

Para amar verdadeiramente outra mulher, primeiro precisaria abandonar o ódio que nutria pela Marquesa. E Rothbart era exatamente o tipo de homem que carregaria aquele ressentimento até o fim da vida.

Por isso, mesmo que algum dia voltasse a amar alguém, essa pessoa jamais seria Anna.

Porque ela era um cisne.

Porque se parecia com a Marquesa.

Porque, incapaz de apagar a sombra da esposa que sempre pairava sobre ela, ele escolheria simplesmente não amar ninguém.

De que adianta ficar inventando desculpas para explicar por que aquele homem não pode me amar?

Anna soltou uma risada amarga.

Desde o princípio, ela nunca fora alguém digna de amor.

Ela própria sabia disso.

Não era especialmente sociável nem proativa.

Não possuía hobbies marcantes nem uma inteligência particularmente brilhante.

Era apenas alguém que existia.

Presente, mas facilmente ignorada.

Se alguma pessoa dissesse gostar dela, era quase certo que não tinha interesse em quem ela realmente era.

Sehyun também tinha sido assim.

Ele fora gentil.

Mas nunca se importara de verdade.

O que lhe agradava era apenas seu rosto, suficientemente bonito para ser apreciado.

Portanto, se não fosse por aquele rosto e aquele corpo semelhantes aos da Marquesa, Anna não possuía nenhum encanto capaz de despertar o interesse do Marquês.

Pouco a pouco, Anna começou a sentir curiosidade pela Marquesa.

Compartilhando um rosto parecido e até mesmo um nome semelhante, ela devia ser completamente diferente de Anna.

Devia ser adorável.

Encantadora.

O tipo de pessoa por quem qualquer um se apaixonaria sem possibilidade de fuga.

Talvez fosse exatamente por isso que até mesmo aquele demônio arrogante tivesse sido capturado sem resistência.

Pensando dessa forma, Anna conseguia até compreender a decisão da Marquesa de abandonar Rothbart.

Se ela era uma pessoa tão amável, certamente recebera amor em abundância em seu mundo original.

E certamente o retribuíra.

Se apenas pensar nas cinzas de seus pais já fazia seu peito apertar, quantas pessoas preciosas a Marquesa teria deixado para trás ao ser arrastada para aquele mundo?

Ela não podia evitar.

Sem dúvida, também havia sofrido.

Pouco depois, Anna lembrou-se do diário da Marquesa que jamais abrira.

Será que Rothbart já o havia lido?

Como Svanhild dissera que a língua utilizada era incompreensível, talvez ele simplesmente o tivesse deixado de lado como um mistério impossível de resolver.

Mas será que ele não sentia curiosidade sobre o que estava escrito ali?

Agora que Anna já conhecia o caminho para retornar ao mundo original, não havia necessidade de lê-lo.

Mesmo assim, uma curiosidade desnecessária insistia em permanecer.

Mas não existe motivo para correr um risco tão tolo…

Anna suspirou.

Afinal, a curiosidade matou o gato.

E tudo o que envolvia a Marquesa era o ponto mais sensível de Rothbart.

Mexer nisso descuidadamente dificilmente traria algo de bom.

Por enquanto, ele demonstrava interesse por ela.

Mas apenas até certo ponto.

Se provocasse sua ira, Anna não fazia ideia do que poderia acontecer.

Quebra de página

Naquela noite, Madame Dova entregou a Anna uma pomada e algumas ataduras.

Ao notar sua expressão confusa, soltou um suspiro e explicou:

— Passe isto nas palmas das mãos.

— Sim.

— E, por enquanto, não molhe as mãos. Entendido?

— Entendido.

Anna assentiu distraidamente enquanto observava a pomada.

Era óbvio que Rothbart a havia mandado providenciar.

Afinal, eram apenas alguns arranhões superficiais, do tipo que qualquer pessoa poderia sofrer ao tropeçar e cair.

Não eram ferimentos que justificassem a preocupação de Rothbart.

Sentindo uma agitação desnecessária no peito, Anna começou a brincar com a lateral da pequena lata que continha a pomada.

Talvez ele apenas considerasse inconveniente que suas mãos estivessem machucadas quando deveriam segurá-lo.

Ou talvez simplesmente não gostasse da ideia de cicatrizes.

Anna esforçou-se para conter os sentimentos inquietos que surgiam.

De qualquer forma, decidiu que ao menos deveria agradecê-lo.

Pensando nisso, adormeceu.

Mas, na manhã seguinte, encontrou Rothbart preparando-se às pressas para sair.

— Surgiu um problema urgente no território. Preciso partir imediatamente.

Rothbart estalou a língua, demonstrando irritação.

Vestindo um casaco de vicunha, segurando uma bengala adornada com ouro e usando um elegante chapéu de seda, ele parecia a própria personificação de um cavalheiro perfeito.

As pontas de seus sapatos brilhavam impecavelmente.

Não havia sequer uma dobra em suas roupas.

Anna permaneceu parada diante da porta, observando-o terminar os preparativos.

Como era uma criada, sentia-se desconfortável apenas assistindo sem fazer nada.

Por isso, deu um passo à frente para ajudá-lo.

Mas Rothbart a impediu.

— Não se ocupe com coisas inúteis. Fique no quarto e descanse em silêncio. Voltarei à tarde.

Então acrescentou, com um sorriso debochado:

— Faz tempo que você não desfruta de um pouco de liberdade.

Anna, que passara a manhã inteira preocupada com a possibilidade de ele exigir que o acompanhasse, finalmente soltou um suspiro de alívio.

Conhecendo sua natureza, sabia que, se sentisse desejo, ele a tomaria independentemente do lugar onde estivessem.

Era fácil imaginar o que poderia acontecer caso viajassem juntos.

Mesmo sabendo que ele era capaz de fazer lavagem cerebral nas pessoas, a simples ideia de realizar aquelas coisas ao ar livre continuava lhe causando repulsa.

Assim, Rothbart partiu.

E Anna ficou sozinha.

Subitamente confrontada com uma quantidade incomum de tempo livre, permaneceu imóvel por alguns instantes, sem saber o que fazer.

Desde que chegara àquele mundo, jamais descansara de verdade.

Sempre estivera ocupada adaptando-se ao trabalho.

E, nos dias de folga, passava o tempo procurando uma forma de retornar ao seu mundo original.

Aquela liberdade repentina parecia desconfortável.

Como vestir roupas que não serviam em seu corpo.

Ela caminhou até a cozinha e perguntou:

— Susan, há algo em que eu possa ajudar?

— O que foi, Anna? Onde está o mestre?

— O mestre saiu.

— Ah, entendo. Então é por isso.

Só então Susan assentiu, como se tudo fizesse sentido.

Desde que Anna se tornara criada pessoal do Marquês, era impossível vê-la longe dele.

Ela o seguia como uma sombra.

Com um sorriso constrangido, Anna explicou:

— De repente fiquei com tempo livre, mas não tenho nada para fazer. Se houver algo em que eu possa ajudar, por favor me avise.

— Oh, não, isso não pode acontecer. Desde que você se tornou criada do mestre, praticamente não teve um único dia de descanso de verdade. Não se esforce demais. Se não tem nada para fazer, vá tirar uma boa soneca.

A chefe da cozinha, que estava atrás de Susan, inclinou-se para a frente e entrou na conversa.

— Se colocarmos você para trabalhar e Madame Dova descobrir, ela vai nos repreender. Faça o que Susan disse e vá descansar.

Como a maior autoridade da cozinha já havia falado, Anna não podia insistir.

Não teve escolha senão sair.

As outras criadas disseram exatamente a mesma coisa.

Betty até riu ao comentar que, se o Marquês descobrisse que sua criada pessoal estava sendo colocada para trabalhar, certamente não ficaria satisfeito.

E, pensando bem, isso realmente parecia possível.

Parece que minha única opção é descansar no quarto.

Seguindo lentamente em direção ao sótão onde ficavam os aposentos das criadas, Anna acabou encontrando Svanhild e Rose, que haviam acabado de terminar suas lições.

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