Capítulo 23

Naquela época, Rothbart acreditava, sem a menor dúvida, que jamais se arrependeria.

Toda a sua atenção estava voltada para encontrar uma forma de trazer Ianna de volta para o seu lado.

Mas agora que aquela jovem estava diante de seus olhos, ele sentia como se pudesse enlouquecer de arrependimento por tudo o que deixara escapar por entre os dedos.

Sabia muito bem que se contentar com o presente era o melhor que podia fazer.

Ainda assim, não conseguia suportar a sensação de privação.

A presença de Sehyun apenas agravava ainda mais aquele sentimento de inferioridade.

Não havia a menor possibilidade de Rothbart simplesmente permanecer parado observando.

Os cantos de seus lábios se ergueram lentamente.

Um sorriso espalhou-se por seu rosto.

Um sorriso que fazia Anna sentir um desconforto insuportável.

Quebra de página

O fato de Anna ter se tornado a criada pessoal do Marquês havia virado a mansão de cabeça para baixo.

Ainda assim, demorou bastante para que a notícia chegasse aos ouvidos de Rose, que não mantinha boas relações com as outras criadas.

Quando finalmente soube, ficou completamente atônita.

Criada pessoal do Marquês?

Durante todos os anos em que o servira, jamais existira um cargo como aquele.

Desde o início, Rothbart nunca fora um homem que precisasse de alguém ao seu redor para servi-lo constantemente.

Já era estranho o suficiente que ela tivesse sido afastada do experimento.

Mas aquilo estava longe de ser a única coisa incomum.

Rose mordeu o lábio inferior, inquieta.

Então, de repente, um pensamento terrível atravessou sua mente.

— A menos que… o mestre tenha encontrado alguém para me substituir?

Até então, Rose acreditara que Rothbart havia convocado outro mago das trevas para ocupar seu lugar.

Mas estava enganada.

Se esse fosse o caso, ele não teria suspendido o experimento.

Isso significava que o projeto para invocar a Marquesa havia realmente chegado ao fim.

E se o que o mestre encontrou foi uma substituta para a Marquesa…

A possibilidade de Rothbart desistir da Marquesa jamais passara por sua cabeça.

A própria ideia era impensável.

Arrepios percorreram todo o corpo de Rose.

— Impossível!

Um grito agudo escapou de seus lábios.

Ela balançou a cabeça repetidamente.

Os cabelos dourados, brilhantes como mel derretido, espalharam-se em desalinho.

— Não pode ser! Como ele poderia…? Depois de tudo o que dediquei a ele… Eu me conformei até mesmo em ser apenas uma ferramenta. Bastava permanecer ao seu lado… E agora ele manteria perto de si uma mulher que acabou de conhecer? Uma mulher que não fez absolutamente nada? Apenas porque veio do Continente Oriental?

Por mais que não quisesse acreditar, as circunstâncias eram claras demais.

O lugar que Anna ocupava deveria ser dela.

Rose não tinha intenção alguma de assistir a tudo aquilo em silêncio.

Não queria dividir Rothbart com ninguém.

A única mulher que aceitava era a Marquesa.

De um jeito ou de outro, precisava fazer alguma coisa.

— …Preciso entrar em contato com ela. Ela saberá como resolver isso.

Rose murmurou para si mesma.

Seus olhos verdes cintilaram sombriamente, como uma floresta antes da tempestade.

Quebra de página

A rotina diária de Rothbart costumava ser bastante regular.

Depois de um café da manhã simples, cuidava dos assuntos mais urgentes e então chamava Anna.

Mas naquele dia foi diferente.

Após terminar seu trabalho, em vez de deitá-la sobre a mesa como de costume, levantou-se.

Anna, sem saber o que fazer, observou enquanto ele vestia o casaco, pegava a bengala e dizia:

— O tempo está agradável. Vamos caminhar. Venha comigo.

— Sim, senhor.

Uma atividade tranquila como um passeio não combinava com um homem como Rothbart.

Mesmo assim, a possibilidade de passar um dia sem ser chamada para seus aposentos trouxe a Anna um pequeno alívio.

Nos últimos tempos, ele a procurara tantas vezes que ela sentia o próprio corpo exausto.

Se ao menos engravidasse logo…

Mas, desde que chegara àquele mundo, seu ciclo menstrual havia se tornado irregular por causa do estresse constante.

Naquelas condições, conceber uma criança não seria simples.

Um suspiro escapou de seus lábios secos.

Rothbart caminhava à frente sem hesitar, dirigindo-se ao jardim.

Assim que saiu do escritório, os empregados que cruzavam seu caminho abaixaram rapidamente a cabeça.

Anna seguiu atrás dele com um passo de atraso.

Ela também percebeu todos aqueles olhares respeitosos.

Por algum motivo, sentiu-se desconfortável.

Endureceu a expressão e apressou o passo.

Enquanto mantinham a cabeça baixa, os criados lançavam olhares furtivos para Rothbart e Anna.

Era a primeira vez que viam os dois juntos.

Desde que Anna se tornara sua criada pessoal, passava todas as horas de trabalho trancada nos aposentos do Marquês.

Ninguém sabia exatamente o que fazia ali.

Nem como era tratada.

O mistério alimentava rumores sem fim.

Nem mesmo o motivo de sua nomeação havia sido revelado.

Até então, ela e Rothbart jamais haviam tido qualquer ligação.

As especulações se espalhavam por toda a mansão.

Anna será a segunda Marquesa.

Não, é apenas um capricho passageiro do mestre.

Se realmente pretendesse transformá-la em Marquesa, não teria mudado seus aposentos?

Ela continua dormindo no sótão junto das outras criadas.

Esperem só.

Logo será devolvida às antigas funções.

Ou simplesmente expulsa.

Sem imaginar que todos especulavam sobre seu relacionamento com Rothbart, Anna apenas se esforçava para acompanhá-lo.

Rothbart não diminuía o ritmo para esperá-la.

E aqueles que afirmavam que o Marquês a favorecia começaram a balançar a cabeça, convencidos de que haviam exagerado.

Os passos de Rothbart os conduziram até o jardim cuidadosamente mantido atrás da mansão.

Ao avistá-lo de longe, o jardineiro curvou-se imediatamente.

Rothbart observou as roseiras que se enrolavam pelos pilares da entrada e comentou casualmente:

— O jardim está em boas condições.

— Sim, senhor! Segui todas as suas instruções. Tenho sido extremamente cuidadoso. Este ano, especialmente, as rosas estão florescendo de forma magnífica.

— Vou caminhar um pouco. Avise-me quando o almoço estiver pronto.

— Claro, senhor. Não precisa se preocupar.

O jardineiro parecia emocionado apenas por ter sido dirigido pelo Marquês.

Curvava-se repetidamente, o rosto avermelhado.

Recebia aquelas palavras arrogantes como se fossem uma bênção divina.

Sem mais nada a dizer, Rothbart passou por ele e entrou no jardim.

Anna o seguiu enquanto observava os arredores.

O ar estava impregnado pelo perfume das flores, pela umidade da terra e pelo cheiro fresco da grama.

A luz da manhã ainda suave fazia o lugar parecer uma pintura.

Anna imaginara que fariam apenas uma caminhada.

Mas Rothbart observava as flores com muito mais atenção do que ela esperava.

Examinava o estado das folhas.

A plenitude das pétalas.

Cada detalhe.

Anna ficou surpresa.

Jamais imaginara que ele pudesse gostar de flores.

Ela própria gostava.

Não tinha escolha.

Depois da morte do pai, as flores haviam sido tudo o que podia lhe oferecer.

Escolher arranjos para decorar seu columbário era a única forma de expressar seu amor.

Agora, com sua mãe, acontecia a mesma coisa.

Pensar nos pais fez sua expressão escurecer.

Ela era a única pessoa capaz de visitá-los.

Talvez os túmulos estivessem sendo mantidos…

Mas queria voltar logo.

— Svanhild me pediu para fazer de você a mãe dele.

Sem esperar que ele falasse, Anna ergueu a cabeça, surpresa.

— Perdão?

— Meu filho parece gostar de você. Não é uma criança que costuma se apegar às pessoas.

Rothbart continuou naturalmente.

A forma como seus dedos acariciavam as pétalas era estranhamente sensual.

Lançando um olhar de lado para Anna, que mantinha distância, seus olhos curvaram-se.

Já carregavam aquele brilho familiar.

Instintivamente, Anna recuou um passo.

Rothbart, que até então observava as flores, virou-se completamente para ela.

Começou a avançar.

Com as roseiras atrás de si bloqueando o caminho, Anna não tinha para onde fugir.

E Rothbart não precisou de esforço algum para puxá-la para seus braços.

— Bem… já que até o meu próprio corpo abre exceções para você, suponho que não seja algo tão estranho.

Ao perceber o volume evidente sob as calças dele, o rosto de Anna perdeu toda a cor.

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