Capítulo 2
Todos os vestígios da marquesa estavam selados dentro do quarto proibido. Era como se ele acreditasse que, se ao menos um de seus pertences saísse daquele cômodo, ela escaparia dele para sempre.
As linhas franzidas entre as sobrancelhas de Rothbart revelavam sua impaciência e irritação. Por natureza, ele era um homem que nunca precisara suportar nada, em nenhuma circunstância. Mas quando se tratava da marquesa, era diferente. Talvez a única pessoa que tivesse conseguido sustentar sua paciência por tanto tempo fosse a própria marquesa… e até isso já havia chegado ao limite.
Sabendo que nada de bom acontecia quando Rothbart era levado além de seu limite, o mordomo suspirou baixinho e recuou imediatamente.
— Então farei meu relatório amanhã de manhã.
Sem responder, Rothbart continuou andando. Todos os empregados por quem passava enrijeciam como ratos sob o olhar de uma cobra.
Nesse momento, Rose, a governanta de Svanhild, que estava um pouco afastada dos demais empregados, aproximou-se de Rothbart com um sorriso radiante. Seus cabelos dourados presos com elegância brilhavam como mel. Era uma beleza encantadora, mais adequada aos círculos sociais da capital do que ao papel de tutora naquela mansão.
— Marquês.
Mas Rothbart passou por ela sem sequer lhe dirigir um olhar e entrou no saguão. O sorriso de Rose vacilou por um instante e, observando-a de lado, Madame Dova, a governanta-chefe, curvou os lábios em um sorriso de deboche.
As pontas impecavelmente polidas de seus sapatos combinavam perfeitamente com o brilho do piso de mármore. Justamente quando Rothbart entrou no saguão, seu filho, Svanhild, descia a escadaria central.
Cabelos negros, olhos vermelhos.
O garoto era a imagem viva de Rothbart.
Agora com onze anos, Svanhild era uma criança bonita. Dentro da mansão, era um pequeno tirano impossível de controlar e uma fonte constante de problemas, mas diante de Rothbart era impecavelmente educado. Ao encontrar o pai, abaixou a cabeça com cortesia.
— O senhor voltou, pai.
Ainda assim, embora já fizesse muito tempo desde a última vez que vira o filho, Rothbart apenas assentiu levemente e passou por ele, subindo as escadas.
Svanhild observou silenciosamente as costas do pai, mas não pôde encará-las por muito tempo. Logo, Rothbart desapareceu no andar superior.
Barrett, que chegou um instante depois, olhou com pena para as pequenas costas de Svanhild e falou suavemente:
— Não fique tão desanimado, jovem mestre. O mestre…
— Eu sei. Sempre que meu pai retorna à mansão, ele vai primeiro ao quarto da mamãe.
Svanhild deu de ombros como se não se importasse, mas seus olhos vermelhos, fixos no andar para onde Rothbart havia desaparecido, brilhavam como rubis preenchidos de sangue.
O quarto proibido era o mais iluminado da mansão, mas agora suas pesadas cortinas, sobrepostas em várias camadas, bloqueavam completamente qualquer traço de luz.
Anna, que não imaginava que estaria tão escuro lá dentro, ficou surpresa. Pensou em voltar para buscar uma vela, mas tinha pouco tempo. Se demorasse e encontrasse alguém pelo caminho, seria um problema. Ela fechou os olhos por um instante, entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Logo sua visão se acostumou à escuridão e os contornos do ambiente começaram a se gravar em sua retina.
Depois de compreender aproximadamente a disposição do quarto, Anna foi até a janela e abriu um pouco a cortina. A luz ainda era insuficiente, mas abrir mais poderia chamar atenção do lado de fora.
Ela começou a procurar nos lugares onde um diário poderia estar escondido: a escrivaninha, a estante, a penteadeira…
A gaveta superior estava trancada.
Isso é ruim.
Anna estalou a língua baixinho.
Se o diário realmente existisse, certamente estava dentro daquela gaveta trancada.
Ela não sabia quando teria outra oportunidade de entrar naquele quarto. Precisava tentar alguma coisa.
Anna retirou o grampo que prendia seus cabelos. Os fios antes bem presos se soltaram e caíram sobre seus ombros.
Lembrando-se de como costumava abrir fechaduras de diários e armários na época da escola, inseriu o grampo na fechadura e começou a mexê-lo, mas não era fácil. Por causa do nervosismo, suor frio escorreu por sua nuca e se acumulou na clavícula.
Isso não está funcionando.
Depois de várias tentativas, Anna desistiu daquele método.
Enquanto procurava outra alternativa pelo quarto, seus olhos pousaram sobre uma cortina pendurada acima da lareira. Não… mais precisamente, ela cobria um quadro fixado sobre a cornija.
Ao observar melhor, percebeu uma pequena parte saindo por trás do tecido. Parecia ser o retrato de alguém.
Será que é um retrato da marquesa?
Pensando que a marquesa poderia ter vindo do mesmo lugar que ela, Anna sentiu a curiosidade crescer.
Quão bela ela devia ter sido para conquistar o marquês…
Quase sem perceber, Anna estendeu a mão em direção ao retrato.
Parecia que alguma coisa a atraía para ele.
Mas, pouco antes de seus dedos tocarem a cortina, passos se aproximaram do lado de fora.
O mordomo? Ou…
O rosto de Anna empalideceu.
Se fosse pega, seria um desastre.
Ela olhou freneticamente ao redor em busca de um esconderijo e logo encontrou um espaço ao lado da lareira, grande o bastante para uma pessoa. Com a cortina caída na frente, seria difícil vê-la.
Deslizando rapidamente para dentro do espaço, Anna reuniu a longa barra de sua saia de criada.
No exato instante em que escondeu os pés atrás da cortina, a porta se abriu.
Ela apertou os lábios com força, temendo que até mesmo o som de sua respiração pudesse denunciá-la. Sua respiração parecia mais pesada do que o normal, provavelmente por causa da tensão. Não apenas sua presença estava escondida pela cortina, como sua visão também estava bloqueada, e a incapacidade de enxergar qualquer coisa a consumia de medo.
Passo. Passo.
O som pesado dos sapatos masculinos acompanhava as batidas frenéticas de seu coração enquanto a pessoa se aproximava.
— Barrett está ficando velho? Nem consegue fechar as cortinas direito.
A voz, carregada de desagrado, era uma que ela nunca tinha ouvido antes.
O coração de Anna disparou.
Ele pronunciou o nome do mordomo com naturalidade e entrou no quarto proibido sem qualquer hesitação.
Só podia significar uma coisa.
Deve ser o Marquês Lohengrin…
Rothbart Lohengrin permanecia na mansão apenas uma vez por estação. Como Anna havia se tornado criada apenas alguns meses antes, era sua primeira vez encontrando-o.
Pelo momento em que apareceu, parecia que tinha vindo diretamente para aquele quarto assim que chegou à mansão.
Como diz o ditado: mesmo caindo para trás, se o azar for grande, você quebra o nariz.
Naquele momento, Anna sentia como se tivesse quebrado o nariz e sofrido uma concussão ao mesmo tempo.
Entrando no quarto, Rothbart puxou de volta a cortina que Anna havia aberto.
Seu gesto foi brusco, cheio de irritação.
A tênue luz que havia penetrado no cômodo desapareceu completamente, sendo mais uma vez engolida pela escuridão.
Ainda assim, ele se movia sem dificuldade alguma.
Ou sua visão noturna era excepcional, ou conhecia aquele quarto tão bem quanto a própria palma da mão.
Anna relembrou a breve visão que tivera dele sob a fraca iluminação.
Vestido de forma impecável, da gola até os sapatos, o marquês parecia ter saído diretamente de um retrato.
De seu perfil afiado emanava a convicção inabalável de um homem que jamais permitiria que as emoções rompessem sua compostura.
Enquanto Anna aguçava os sentidos para acompanhar cada movimento dele, Rothbart falou de repente:
— Você tem passado bem?
Não havia ninguém além dele e de Anna naquele quarto.
O coração dela afundou.
Mas aquelas palavras não eram dirigidas a ela.
— Eu não tenho. A viagem à capital foi uma completa perda de tempo.
Só então Anna percebeu que ele estava falando com o retrato da marquesa.
Rothbart se aproximou ainda mais.
Anna pressionou as costas contra a parede, desesperada para não ser notada.
Felizmente, ele passou direto por ela.
Acendeu as velas do castiçal fixado acima da lareira, logo abaixo do retrato. A chama trêmula espalhou uma luz suave pelo ambiente.
Temendo que aquela claridade revelasse sua silhueta agachada atrás da cortina, Anna se encolheu ainda mais, como um cabritinho escondido de um lobo dentro de um velho relógio de pêndulo.
Das velas vinha um aroma estranhamente doce.
— Hhhhhh… haa…
Como um homem inalando a fumaça de um charuto, Rothbart inspirou profundamente aquela fragrância e permaneceu imóvel por um longo tempo.
Anna imaginou que ele devia estar observando o retrato da marquesa.
Quando ele iria embora?
Ela ainda nem tinha encontrado o diário…

