Capítulo 14

A notícia de que Anna havia se tornado a criada pessoal do Marquês espalhou-se rapidamente por toda a mansão.

Algumas sentiram inveja. Outras mostravam seu desagrado abertamente.

As criadas que dividiam o quarto com Anna a parabenizaram.

Apenas Susan, inquieta por dentro, falou com cautela.

— Ser tratada como uma exceção nem sempre é algo bom. Especialmente nesta mansão…

Anna também não conseguia receber com alegria a notícia de que se tornaria a criada pessoal do Marquês, por isso ficou grata pela preocupação de Susan.

Em silêncio, ela a envolveu em um abraço.

Nunca tivera alguém que pudesse chamar de amiga, mas, se pudesse chamar alguém assim, essa pessoa seria Susan.

Susan segurou os braços de Anna e a encarou com olhos cheios de preocupação.

— Tome cuidado com a governanta Rose, Anna. Ouvi dizer que o clima está estranho ultimamente. Quando ela souber disso, vai ranger os dentes de ódio.

Anna também pensava assim.

Não havia contado nada a Susan para não preocupá-la, mas ainda se lembrava claramente do ressentimento que vira nos olhos de Rose quando se cruzaram no corredor.

Era evidente que Rose gostava do Marquês.

No instante em que ouvisse aquela notícia, provavelmente desejaria estrangular Anna com as próprias mãos.

De qualquer forma, Rose era a mulher que havia recebido um tratamento especial do Marquês.

Entrar em conflito com ela só traria prejuízos para Anna.

— Você se preocupa demais, Susan. A Rose pode receber tratamento especial, mas agora a Anna também se tornou a nova “exceção” do Marquês. Tenho certeza de que ele vai protegê-la.

— Isso mesmo. Se acontecer alguma coisa, conte ao Marquês, Anna.

Diante das palavras de Jo e Betty, que falavam com uma pontinha de expectativa, Anna apenas sorriu sem graça.

O Marquês realmente a protegeria?

Anna sabia melhor do que ninguém que sua posição não era tão privilegiada assim.

Ela não era uma exceção para o Marquês.

Era uma mancha.

Ele havia se deitado com ela enquanto estava sob efeito de uma droga, dentro do quarto de sua amada esposa.

Qualquer que fosse o motivo para mantê-la por perto, certamente não era algo positivo.

Na verdade, transformá-la em sua criada pessoal provavelmente fazia parte de algum jogo cruel.

Como um gato brincando com um rato.

Ele a empurraria até que estivesse completamente exausta e destruída.

Pelo que conhecia da personalidade do Marquês, ele era perfeitamente capaz de fazer isso.

Uma sombra melancólica caiu sobre o rosto sorridente de Anna.

Quebra de página

— Ouviu a novidade, Joseph? Sua irmã se tornou a criada pessoal do Marquês.

A notícia que já havia percorrido toda a mansão finalmente chegou aos estábulos.

Enquanto removia esterco dos cavalos, Sehyun franziu o cenho e se virou para o cavalariço que lhe trouxera a informação.

— …Nunca ouvi falar disso.

— Parece que foi decidido hoje. Sua irmã pode acabar mudando de vida, então é melhor eu tratá-lo bem.

— Mudar de vida? Ser criada pessoal é tão bom assim?

O cavalariço abriu um sorriso malicioso.

Então bateu repetidamente a lateral do punho esquerdo contra a palma da mão direita.

Mesmo que as palavras fossem diferentes, aquele gesto vulgar era universal.

O rosto de Sehyun endureceu.

— Já esqueceu? A falecida Marquesa era do Continente Oriental. O Marquês é obcecado por mulheres orientais. Se sua irmã jogar bem as cartas que tem, pode acabar entrando nos aposentos dele. Aí você vira cunhado do Marquês!

Cunhado?

Mais para um idiota traído.

Não. Ele sequer havia feito algo com Anna.

Seria apenas um homem observando enquanto lhe arrancavam aquilo que considerava seu.

Sehyun praguejou entre os dentes e bateu o pé no chão.

O cavalariço zombou dele.

Na verdade, só queria ridicularizá-lo por estar se achando importante porque sua irmã havia sido escolhida como criada pessoal do Marquês.

Mas ver Sehyun considerar aquela possibilidade seriamente era simplesmente ridículo.

— Então volte a recolher esterco, Joseph!

Sem perceber a verdadeira intenção por trás da provocação, Sehyun mordeu os lábios.

Ao contrário de Anna, que usava seu nome verdadeiro, ele era chamado de Joseph naquele mundo.

Simplesmente pegara qualquer nome cuja pronúncia lembrasse vagamente Jo Sehyun.

Ninguém se daria ao trabalho de pronunciar corretamente o nome de um simples rapaz dos estábulos que havia chegado há pouco tempo.

Por isso, ser chamado de Joseph era considerado suficiente.

Mas até aquilo o incomodava.

Como se mais um dos privilégios que julgava possuir lhe tivesse sido roubado.

Em seu mundo original, Sehyun tinha tudo.

Sua família o mimava por ser o filho mais velho.

Na escola, era admirado como um estudante brilhante.

Seu futuro se estendia diante dele como uma estrada ampla e sem obstáculos.

Não havia nada a temer.

Por isso, naquele mundo onde havia caído à posição de um estrangeiro insignificante, não existia nada que lhe agradasse.

E agora até sua namorada, em quem nunca sequer tocara de verdade, estava prestes a ser levada embora.

Consumido por uma fúria que lhe subia até o topo da cabeça, Sehyun finalmente chamou Anna.

Quebra de página

Ela veio sem suspeitar de nada.

Os dormitórios femininos e masculinos ficavam em edifícios separados, e as áreas de trabalho também eram distantes.

Como raramente se encontravam, ela ainda não tivera oportunidade de avisá-lo sobre os rumores que circulavam pela mansão.

Naturalmente, imaginou que ele a havia chamado para perguntar sobre aquilo.

— Você me chamou, oppa?

Assim que ela se aproximou, Sehyun agarrou seu braço com força.

Surpresa pela brusquidão, Anna tentou se soltar, mas os dedos dele se fecharam como uma morsa.

— O que está fazendo?!

— Dizem que você vai se tornar a criada pessoal do Marquês.

As palavras saíram cuspidas entre os dentes enquanto ele a arrastava.

Os vasos de seus olhos estavam rompidos, deixando-os avermelhados.

Só então Anna percebeu que havia algo errado.

Empurrando-a para um local afastado, Sehyun inclinou-se e a ameaçou em voz baixa.

— Se você vai dormir com o Marquês, então vai dormir comigo primeiro.

— …Que lógica é essa? O que exatamente eu faria com o Marquês? E por que isso significaria que eu teria de fazer alguma coisa com você antes?

Mesmo diante daquela situação absurda, Anna não perdeu a compostura.

Suas costas se enrijeceram.

Ao vê-la permanecer firme como um bambu, rebatendo cada uma de suas palavras, Sehyun sentiu uma onda de rancor.

Com um sorriso debochado, disse:

— Eu sou seu namorado. Você não quer que sua primeira vez seja comigo?

— …

— Ou você transou com o Marquês? Foi por isso que ele a tornou sua criada pessoal?

— Jo Sehyun!

Só naquele momento Anna percebeu que ele estava falando de sexo.

Seu rosto empalideceu instantaneamente.

— Não use esse tom para falar comigo!

Sehyun mostrou os dentes enquanto a encarava.

Mas para Anna aquilo já soava como um zumbido distante.

Quanto mais refletia sobre as palavras dele, mais repulsivas elas pareciam.

Era como se ele a considerasse sua propriedade.

E, ainda assim, a acusação de Sehyun continha uma parte da verdade.

Ela havia dormido com o Marquês.

E talvez fosse justamente por isso que ele a estivesse mantendo por perto.

Mas aquilo não justificava o comportamento de Sehyun.

Quem lhe dera o direito de reivindicar sua virgindade?

Só porque era seu namorado?

Se nunca tivesse começado a namorá-lo, não estaria suportando aquela humilhação agora.

Após a morte da mãe, esmagada pela solidão, Anna aceitara iniciar aquele relacionamento.

Mas estar com Sehyun só a fizera sentir-se ainda mais miserável.

Era verdade que trair alguém era moralmente condenável.

Porém o que acontecera com o Marquês fora claramente um acidente.

Ele estava sob efeito de uma droga.

Todas as suas recusas haviam sido ignoradas.

Sua vontade não tivera qualquer participação naquilo.

Mas Sehyun jamais enxergará dessa forma.

Mesmo que lhe contasse o que havia acontecido naquele dia, ele nunca a consolaria.

Apenas ficaria furioso.

Perguntaria como ela pudera se entregar tão facilmente sem ele.

Talvez até tentasse forçá-la.

Pela maneira como já estava perdendo o controle por algo que nem sequer havia acontecido, aquilo parecia perfeitamente possível.

Como poderia considerar namorado alguém tão pouco confiável justamente nos momentos mais perigosos?

Anna respirou fundo e tentou manter a calma.

Então respondeu em voz firme ao homem que avançava sobre ela como um touro enfurecido.

— Eu apenas me tornei a criada pessoal dele. Nada além disso. Pare de dizer absurdos!

— Mas todos dizem que o Marquês é obcecado por mulheres do Continente Oriental. Ele nunca sequer teve uma criada pessoal antes…

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